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Cerca de um ano atrás, um pesquisador de uma produtora independente de São Paulo entrou em contato comigo por e-mail. Em suas pesquisas, ele tinha topado com um post de 2012 do meu blog, sobre o Ziraldo, um artigo em que eu homenageava os 80 anos de vida do artista e mostrava uma página da história “A Grande Aventura”, uma das primeiras incursões dele nos quadrinhos.

Esta história interessava muito à produtora, que queria utilizá-la para um documentário sobre história em quadrinhos no Brasil, e já tinha até gravado uma grande entrevista para um dos episódios, revelando toda sua trajetória.

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Ziraldo sempre foi autobiográfico em suas obras – vale lembrar que todos os principais personagens da turma do Pererê são baseados em seus amigos e conhecidos de infância ou juventude – e essa história anterior já traz toda uma bagagem referencial, com  citações a nomes de amigos e até a presença de uma certa Princesa Vilma, na verdade uma representação de sua futura esposa (a aparição infelizmente está na parte final da história e eu não a tenho).

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Publicada na revista infantil “Era Uma Vez”, a página que eu postei era da edição nº 186 de setembro de 1952 com a segunda parte da história seriada “A Grande Aventura”. Esse veículo infantil mineiro, que tinha a mesma pegada do Tico-Tico e do Sesinho (inclusive no mesmo formato desse último), um mix de passatempos, curiosidades, contos e quadrinhos, foi uma das primeiras revistas à publicar um trabalho de Ziraldo, na época com seus 19 anos, quase 20.

Inclusive, aproveitando-o em outras seções além dos quadrinhos (onde pelo que se vê, pode exercitar a mão no letreiramento).É uma publicação muito difícil de encontrar.

Há uns bons 15 anos atrás, fuçando uma prateleira de livros infantis de um sebo em Pinheiros, localizei as duas edições que tenho em minha coleção: uma de janeiro de 1954 (nº 202) e a já citada nº 186.

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Tirando a aparição relâmpago de uma edição no Mercado Livre – quando fui botar os olhos de novo, ela já tinha sido vendida – nunca mais vi nenhum outro exemplar à venda. A revista – cujo slogan era “a revista infanto-juvenil mais bonita do Brasil”, na verdade era, pelo menos nessa fase exposta, visivelmente sem identidade e copiava eraumavez3descaradamente personagens eraumavez1contemporâneos que saíam em outras publicações. Esse peculiar exemplar de 1954, por exemplo, já chama a atenção logo de cara, com um Pato Donald genérico estampando a capa (assinada por Moura).

E as “homenagens” não param por aí… personagens consagrados aparecem na revista em outras versões, como se pode ver abaixo: Biluca, um sósia do famoso Pinduca, por J.Nelson; três “primos” dos porquinhos originais, com assinatura de Paulo Roberto; e um personagem que segue a mesma linha do João Bolinha, personagem que era publicado na mesma época pelo Sesinho.

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Já o tal Tutuca vem com desenhos mais elaborados e parece muito com o traço do Joselito, especialista na época em desenhar animais na linha de artistas da Walt Disney e de Walt Kelly (Pogo), embora também possa ser material estrangeiro.

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E por fim, uma página com o “Concurso Matinée Mickey” (outra menção a major Disney) e uma série mais juvenil, detetivesca, com o personagem Ricardo Keen, em desenhos de Noguchi (que se for a mesma pessoa, foi da turma do Clube da Esquina e como designer gráfico, um dos responsáveis pelas capas e letreiros dos shows de Milton e companhia nos anos 70).

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Uma edição amadora e tão “descarada”, que se torna curiosa! O que eu não sabia e o colega João Antonio Buhrer me contou nos acréscimos da prorrogação deste artigo, é que a “Era Uma Vez” foi fundada em 1940 pelo famoso “Vovô Felício” (Vicente Guimarães), jornalista, educador, escritor e editor, tio de Guimarães Rosa, que muito fez pela literatura infanto-juvenil e a partir de 1935 (idealizando a revista “Caretinha” em Belo Horizonte) e 1937 ( como responsável pelo suplemento infantil do jornal “O Diário”) adentrou o universo editorial infantil pra nunca mais sair.

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Era uma vez #1 – 1940 (acervo de João Antonio Buhrer)

O curioso é que ele saiu de “Era Uma Vez” para fundar a conhecida revista “Sesinho” ( editada pelo Sesi entre 1947 e 1960), levando suas ideias, personagens – João Bolinha era um deles – e o capista Rodolpho para a nova publicação. Essa crucial informação indica que “Era Uma Vez” teve sim em seus primórdios, uma identidade própria, perdida muito provavelmente nessa fase pós-Sesinho em que bandeou-se para a revista paulistana suas melhores seções e colaboradores.

Mas o grande trunfo de “Era Uma Vez”, e o que a transforma em documento histórico, é o surgimento em suas páginas do talento do jovem mineiro de Caratinga, Ziraldo Alves Pinto, que logo estaria brilhando em magazines como Cruzeiro e Senhor e se tornaria figura de proa da ilustração e do design brasileiro. Sempre ativo, cheio de planos e projetos, Ziraldo é e sempre foi workaholic em tudo que se meteu a fazer – artes plásticas, pôsters, HQs, livros, charges, edição.

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Em quadrinhos, transformou-se em um dos primeiros autores brasileiros a ter um personagem seu como título de revista (Pererê, de 1960. Bidu, de Mauricio de Sousa, coincidentemente, saiu no mesmo período) Em livro, estourou com Flicts, Menino Maluquinho e tantos outros; e como editor e chargista foi um dos pilares da turma do Pasquim, além de surpreender no virada desse novo século com as revistas Bundas e Palavra. Naquele ano de 1952, seu traço ainda era indeciso, contido, telegráfico, mas já se insinuava uma fagulha de originalidade e um dom natural para contar histórias.

Ah, e só pra fechar aquela história do documentário: na época fiquei de encontrar a revista original para escanear e mandar as imagens das páginas em alta resolução para o pesquisador. Avisei-o que nas circunstâncias caóticas em que se encontra minha coleção de quadrinhos (um verdadeiro buraco negro) talvez demorasse para encontrar o exemplar e que seria bom ele ter um plano B. Só não imaginava que fosse tanto: encontrei sem querer a revista hoje, um ano depois daquele contato! Bom, mas em se tratando de cinema brasileiro, nada impede que o documentário ainda esteja em “fase de produção”. Quem sabe?

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Marcos Massolini
Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

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