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Minha memória é um lixo para datas, na verdade um lixo para qualquer coisa que deveria ser banal. Um cérebro há muito frito por abusos de nanquim e outras drogas menos pesadas, portanto a probabilidade de eu estar falando alguma merda é grande. Na segunda metade dos 90 o grunge e os fanzines ainda faziam a alegria da rapaziada exxxperta do udigrudi, mas na sequência o tal do bug do milênio veio não para os computadores mas sim para os quadrinhos.

Nas bancas a Abril polarizava as vendas. Ou líamos o que os sobrinhos do Tio Civita queriam (na época mutilar quadrinhos estava deixando de ser uma arte), ou tínhamos que ir até a Muito Prazer ou Tiragem Limitada, que por uma pequena fortuna e com meses de atraso dava pra sacar o que estava rolando lá fora. Essa última, uma banca na Al. Lorena evoluiu como um Pokemón alucinógeno para a Comix (hoje na Al. Jaú, em São Paulo), e foi lá que nasceu a Opera Graphica. Eu não estava lá, mas conheci quem estava. E não foi bonito. Cheguei logo depois, expulso de casa, precisava arrumar um trabalho. “No more free meals!” bradava minha santa mãezinha. Essa é uma das boas, mas eu conto depois…

Esse ambiente juntou um grupinho bem heterogêneo que tinha de tudo um pouco – maníaco sexual, trekker, nerd de sobretudo, fan de mangá e eu. Apesar daquilo parecer uma filial do Juqueri* no inferno nós tínhamos um sonho em comum: publicar quadrinhos. E publicar do jeito que a gente achava certo. E publicar o que a gente GOSTAVA! É claro que ia dar merda. Mas até a merda tem coisa boa, vira adubo. E rende edições únicas, que provavelmente só eu tenho. No mundo. Bela porcaria, pensou você. É, verdade. Mas como o site chama COLECIONADORES de HQ, acho que vocês irão gostar desses dois itens.

Coleção Opera Brasil – o falecido e o urso.

O Carlos (Mann) tinha um fetiche obsessivo por criar selos e coleções! Toda semana a gente criava uma coleção e um selo novo. Era insano, mas hoje acho até engraçado. Uma dessas coleções foi uma série de álbuns em formato magazine (20,5 x 27,5 cm) de autores nacionais chamada Coleção Opera Brasil. E uma coisa muito legal que a Opera fazia: SEMPRE havia um algo a mais, uma curiosidade, um extra, bonus track, easter egg, sketch ou sei lá o que. Coisa de nerd roots. Outro ponto bacana é que essas coleções tinham uma parte da tiragem numeradas e assinadas, vendidas com exclusividade pela Comix.

A décima edição dessa coleção foi o álbum O Filho do Urso e Outras Histórias do Flávio Colin, que havia acabado de falecer. Se não me engando nós fomos procurados pela viúva que tinha uns originais inéditos e estava querendo levantar uma grana. As HQs foram desenhadas para a Calafrio e Mestres do Terror, mas acabaram na gaveta.

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Não, você não está vendo dobrado. Existem duas revistas muito parecidas, mas não idênticas aqui.

Bom, como era de se esperar, não tínhamos grana pra nada, as tiragens eram super pequenas e impressas em gráficas meia boca. Mas essa era uma edição especial, e não teríamos o reparte assinado (ficou difícil de pedir pro falecido assinar. Eu até pensei em dar um truque e fazer uma meia dúzia de autógrafos em casa e vender no e-Bay, mas achei que o Carlos ia descobrir e me asfixiar durante o sono). Aí veio a genial ideia de tentar um papel diferenciado, mais “nobre”. WOW! Coisa fina, disseram… Eu pessoalmente sempre achei que a única coisa brilhante que presta é carro, todo o resto fica melhor fosco. Quando veio sugestão de usar papel couché brilhante no miolo, fui voto vencido.

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A arte é realmente incrível! Merece uma edição especial.

Em nossa infinita ignorância (e pouca prática) dificilmente fazíamos provas ou testes. Era fechar o arquivo, conferir o fotolito e PAU! Imprimir direto. Aí me chega à primeira parte do reparte pra gente conferir se tinha ficado tudo ”lindo”. Eu me lembro dos olhos arregalados do Carlos e do Dario (Chaves) na mesinha da recepção segurando o álbum, olhando pra minha cara. O Carlos estende um exemplar na minha direção e eu já começo a sentir o cheiro de cagada das bravas no ar. Rapidamente peguei a revista e comecei a conferir pra ver se não tinha passado nenhum erro de revisão na capa, ou se a laminação não tinha feito bolhas (problemas que às vezes acontecia). Nada, estava perfeita. Abri, e logo na página de rosto estava lá a belíssima obra da digníssima gráfica: estava cinza, lavado, parecendo aquela camiseta do lançamento do Star Wars de 1977 que você comprou num brechó. Estava um lixo. Aí comecei a folear freneticamente e estava tudo assim! Um desastre!!! E para melhorar a (pouca) tinta estava saindo na minha mão, borrando tudo.

Bom, vamos com calma. Talvez a tinta seque até amanhã, né? Alguém falou tentando acalmar os ânimos. Eu, com meu “charme truculento” (palavras do Carlos) já comecei a ter um xilique e dois trimiliques!

FODASESEVAISECARESSAPORRA!AIMPRESSÃOTÁUMAMERDA!EUVOULÁMATARESSEFILHODAPUTADAGRÁFICA!VOUPORFOGONESSAPORRATODA!…

Bom, passaram-se 13 anos e a tinta ainda não secou (claro!), dividimos o prejuízo com a gráfica e reimprimimos tudo no papel alta alvura padrão.

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Olha só que beleza: não é a foto que está ruim, é a revista que foi impressa no papel errado! Aqui podemos ver bem as diferenças de impressão entre as duas. A da esquerda no papel brilhante, com pouca carga de tinta. A da direita é a que você tem (ou pelo menos deveria ter) na sua coleção.

Você deve estar se perguntando o que aconteceu com as edições em papel brilhante. Bom, como todo lixo feito de papel, virou apara. Foi destruído para ser reciclado. Deve ter virado papel higiênico. Ou salsicha. Todas, menos UMA, que está lá em casa. O pior (ou melhor) é que eu não a guardei pra um dia escrever uma coluna no blog mais legal da internet. Eu guardei para caso algum dia alguém tivesse de novo a genial ideia de usar um papel brilhante, estaria ali a prova cabal que ia dar errado. Nunca precisei usar.

Aí eu achava que tinha o exemplar mais raro da história das histórias em quadrinhos do Brasil.
Até tinha, mas durou pouco, porque alguns meses depois surgiu a…

A Piada Mortal que virou piada.

Não me perguntem de onde veio (acho que foi o Franco de Rosa), mas um belo dia apareceu lá na redação um exemplar francês de A Piada Mortal. Pocket. Preto e branco. É, eu pensei o mesmo que você. Mas, como éramos praticamente uma comunidade hippie/nerd onde todos podiam ser editores, e a menina que fritava o pastel na feira podia ser editora de imagens, todas as ideias eram válidas (pelo menos até a chegada do oficial de justiça).

Vamos publicar ISSO? Bradava o ainda ingênuo assistente de arte (que por motivos contratuais manterei o nome em sigilo). Sim, pode ser que venda, pelo simples fato de ser bizarro, eu tentava contemporizar. Como desenhista frustrado, ver a arte do Bolland ser mal tratada daquela maneira dava calafrios (que se dane o Alan Moore, o meu problema era com a ARTE). Ninguém na editora ficou em cima do muro a respeito dessa edição. Quem gostava, amava. Quem não gostava ODIAVA. Foi quase uma experiência social.

No final das contas, com a revistinha toda montada, até que não ficou tão ruim. Eu, pessoalmente, gosto muito de quadrinhos em PB, e a montagem no formato 11×19 cm ficou “interessante”. O Roberto (Guedes) foi um gênio no texto de introdução e conseguiu convencer até a mãe do Brian Bolland que aquele formato era válido. Agora era ver como iríamos produzir esse petardo editorial. Tinhamos a dúvida se um lançamento “baratinho, tipo pulp, naquela pegada LP&M de banca” ou algo mais pomposo, para vender em livraria e cobrar caro seria o caminho ideal. Bom, como meu sobrenome é derrota, então imediatamente optei pelo “se for a pra editar isso, que pelo menos dê lucro!”.

A edição que até ficou simpática. Essa arte a direita é a prova da capa que ficou perdida dentro da minha cópia.
A edição que até ficou simpática. Essa arte a direita é a prova da capa que ficou perdida dentro da minha cópia.

O gibizinho virou uma edição em capa dura, com papel que imita couro preto e hot stamping. Mas qual cor usar no hot stamping? Não me recordo bem, mas acho que eu escolhi o dourado, não lembro por que. Sério. Fizemos o teste e percebemos que esse tipo de impressão não ocuparia toda a área da capa, e a arte acabou ficando estranha, meio mal acabada. A solução veio em colocar o desenho dentro de um quadro e centralizar a imagem do Coringa.
Aí o Franco apareceu e mudou de ideia (acho que foi ele, não estou certo, mas é bem provável)… Bom, tive que aumentar os nomes do Bolland e do Moore (os caras vendem, diz o manual) e o dourado virou prata. Não sei por que ele preferiu assim. Pouco importa também.

A questão é que a versão que foi pra livraria foi essa, mas eu tenho a MINHA versão. E só eu tenho.

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Eu tenho, você não te-e-e-m! A da direita foi pra sua coleção. A da esquerda ficou para a história.

Ah, aqui um dos famosos easter eggs da Opera: podia ter escolhido qualquer imagem do miolo para capa, mas por causa de tanto barulho e briga durante a produção eu acabei escolhendo essa imagem do Coringa que está “chorando de raiva e rindo histericamente da cagada que fizeram com o gibi dele”. É, eu sei que não é nada disso que está na HQ, mas nós adorávamos criar essas lendas lá dentro. Hoje, sempre que olho para essa edição tenho um calafrio e torço para que ninguém me agrida por ter participado dessa piada sem graça.

*Hospital Psiquiátrico do Juqueri é uma das mais antigas e maiores colônias psiquiátricas do Brasil, localizada em Franco da Rocha (antigo município de Juqueri), na região metropolitana de São Paulo.


André Hernandez
Já desenhou, editou e odiou. Agora está voltando a amar.

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