A relação entre a Tetralogia Monstro de Enki Bilal e Blade Runner de Philip Dick

“Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.”

Quem não lembra dessas palavras, proferidas pelo replicante Roy Batty em seus momentos finais?
Se não é seu caso, pare imediatamente tudo que está fazendo e vá agora reassistir – ou assistir, na pior das hipóteses – Blade Runner, do genial Ridley Scott, um dos – se não “o” – maiores filmes de ficção científica mundial.

975-20140718123227Mas se você, assim como eu, já cumpriu com sua cota semanal de reprises obrigatórias dessa obra prima, e se pergunta todo dia o que poderá consumir até o próximo fim de semana chuvoso e repleto de neon, trago aqui a solução que encontrei:

– Ler compulsivamente a TETRALOGIA MONSTRO, do igualmente genial – e também diretor, veja só – Enki Bilal. Pausa para a volta momentânea à quinta série ao ler seu segundo nome. Continuemos.

A biografia desse quadrinista, ilustrador, pintor – inclusive sendo um dos poucos com o privilégio de ter sido exposto no Louvre – e, como dito, diretor, já poderia gerar um artigo enorme. Mas, como já temos uma excelente coluna de biografias no blog, partamos para o foco aqui. Se você gosta de Blade Runner, vai amar a Tetralogia Monstro.

“Mas, por que?” perguntará você. E eu, satisfeito, direi:

20130918115809Bom, primeiro, o visual é lindo. Simplesmente deslumbrante. Lembra aquela sensação que você teve a primeira vez, ao ver a cidade sempre escura do caçador de androides, iluminada por telões e luzes multicoloridas, entrecortadas por carros voadores que não poderiam voar, mas voam, e enquadrada por um mundo fantástico, tão absurdo, que poderia ser real?

Pois é, é isso que vai encontrar logo nas primeiras páginas. Mas, não há como descrever, então só veja. Melhor, tire o “só”, pois não há simplicidade ou facilidade alguma em observar os traços de Enki Bilal.

Pois bem, se o visual remete diretamente ao mundo destruído e fascinante que cerca Rick Deckard, a trama não poderia ficar para trás afim de se fazer jus à comparação inicial. E, felizmente, não fica.

2013091812101220130918121116Aqui, acompanhamos o órfão da guerra real que ocorreu em 1993, na Iugoslávia, Nike Hatzfeld – sim, como o tênis – no já não tão longínquo ano de 2026. O protagonista, que como o personagem de Harrison Ford, é ácido e um tanto pessimista, possui uma habilidade única: memória eidética perfeita, que o faz lembrar tudo desde o dia de seu nascimento, num hospital improvisado com um furo no teto, em meio as bombas de Saravejo.

Onde dividiu o leito com outros dois órfãos, poucos dias mais novos que ele próprio, porém muito menos cientes de suas condições num momento ainda tão tenro: a de que o mundo é cruel e mau. Por isso, ali, no seu décimo oitavo dia, ele jura protegê-los por toda sua vida. Esses dois personagens, tão interessantes quanto o próprio Nike, são:

– Amir Fazlagic, um mercenário e ex-atleta, que vende suas habilidades para megacorporações e sociedades obscuras, afim de se manter vivo numa Moscou consumida ambientalmente. Filho de um dos maiores atiradores de elite na guerra que o tornou órfão, Amir parece ter herdado a mesma capacidade combativa, com todos seus prós e contras.

tetralogia_monstro_destaque– Leyla Mirkovic, uma física conceituadíssima, membro de um grupo oficial super secreto localizado no Sitio da Águia, um local de pesquisa tanto espacial quanto arqueológica, que acaba se deparando com uma descoberta que pode mudar todo o conceito de história humana.

E enquanto somos apresentados a cada um deles, afastados há mais de trinta anos, conhecemos a trama que vai unir a todos, de maneira única e brilhante: uma organização religiosa – epa, já vi isso – chamada Obscurantis Order, extremamente radical – espera, isso também – , fruto de guerras antigas – ah não – resolve declarar guerra – mas, como assim? – a todo tipo de cultura e conhecimento que vá contra seus padrões morais. E vê na memória perfeita de Nike, nas habilidades bélicas de Amir e nas descobertas de Leyla, tanto ameaças quanto oportunidades para seus planos.

20130918121545Tudo isso em meio aos melhores elementos da ficção científica, como androides que desconhecem sua natureza, questões que envolvem a verdade sobre a vida e a morte, sobre a origem da raça humana, universos paralelos, viagens interplanetárias, escavações ancestrais, alienígenas e até animais sintéticos, numa óbvia homenagem ao livro que inspirou o filme, de Philip K. Dick.

Simplesmente imperdível. Completamente viciante e digna de levantar as maiores perguntas que já nos cercaram. E com respostas tão difíceis quanto aquelas ditas pelo replicante, guerreiro e poeta, no monólogo que abre essa análise.

Pois então, ai está a resposta: Se você, caro leitor, adora Blade Runner, e está com um pezinho atrás – ou não aguenta esperar – por sua já anunciada continuação, vai adorar Tetralogia Monstro, porque ela é o que temos de mais próximo, e mais belo, na nossa amada arte sequencial. E com desenhos de cair o queixo. Sério.

Boa leitura.

D. G. Oliveira
Nerd, colecionador, roteirista, viciado em: HQs, cinema e custons. 

Deixe uma resposta