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colunista_MarcosMassoliniMuitas vezes, algum tema ou personalidade tende a aparecer com assiduidade e insistência, mesmo que não esteja necessariamente em nossa mira de pesquisa. Foi o que aconteceu comigo neste ano, quando estava a procura de um possível suplemento de quadrinhos na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional e acabei topando com um achado surpreendente, totalmente sem querer.

O veículo era a Tribuna da Imprensa, jornal carioca do inflamado e polêmico Carlos Lacerda e o período, 1950 a 1953. Ao folhear as primeiras páginas da edição do dia 12/07/1951, deparei com uma tira de quadrinhos no alto da folha do noticiário geral que me chamou a atenção de cara. Sem balões, com desenhos bem soltos, dispostos em três quadrinhos e com o título “Seu Tribulino”. Então fui ler quem assinava e quase caí pra trás: Hilde Weber!

A mesma Hilde daquele desenho dos anos 50 que encontrei sem querer em um livro! Explico: no ano passado ganhei uma grande coleção de livros e dentro de um prosaico diário oficial dos anos 90 me deparei com duas artes originais incríveis (fotos abaixo), um achado que acabou se desdobrando em dois posts em meu blog (link1 e link2).

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original-2-livioA chargista pelo jeito gosta de surgir de repente em minhas buscas! Logo que descobri a tira do Seu Tribulino, resolvi pesquisar mais a fundo o acervo da Tribuna da Imprensa da BN e acabei descobrindo as origens do personagem no jornal. Cheguei em 18/07/1950 – um pouco depois da autora ser contratada como ilustradora e chargista fixa do jornal – dia em que aparece o resultado do concurso com os leitores que acabou batizando o personagem; e no dia seguinte (19/07/1950) a primeira tira já é publicada com pompa e circunstância. Percebe-se no personagem (que tem sempre um título do dia ao lado do nome da tira) respingos político-econômicos da charge diária assinada pela Hilde no mesmo jornal (o cotidiano “atribulado” do Seu Tribulino inclui feiras livres, contas a pagar, armazéns e atropelos urbanos) e também gags bem ligeiras e espirituosas.

Os desenhos se mostram livres, soltos, sintéticos, como era desde sempre o Getúlio Vargas desenhado pela artista e tão espinafrado pelo diário de Lacerda, a essa altura um ex-comunista com bom trânsito entre os católicos. Mais uma vez recorri à professora Maria Augusta Fonseca da USP, nora da Hilde e especialista da sua obra, que me respondeu que a artista já fazia quadrinhos na Alemanha!

Infelizmente não há material coletado desse período, mas sabe-se que ela estudava artes gráficas em Hamburgo, aos 17 anos já desenhava para os jornais Hamburger Anzeiger e Hamburger Fremdenblatt e mais tarde chegou a mencionar que entre suas grandes influências estava Wilhelm Busch, criador de Max und Moritz – Juca e Chico por aqui. Se ela chegou ao Brasil em 1933, com 20 anos, então desenhava HQs antes disso, com 19 anos ou menos!

Até onde li sobre a biografia de Hilde, não lembro de terem citado “Seu Tribulino” e tampouco sobre qualquer incursão sua aos quadrinhos no Brasil (se alguém leu qualquer citação a respeito, por favor, mande pra mim, e eu adiciono ao post). Em sua longa carreira, chegou a experimentar as artes plásticas ( pinturas impressionistas e arte em azulejos, por exemplo), ilustrações em livros – como em “Aventuras de Xumburi”, de Antônio de Pádua Morse, da antiga série da Melhoramentos “Alegria da Infância”, o raro “Silvia Pélica na Liberdade”, de Alfredo Mesquita pela Edições Gaveta, e “O Melão do Seu Glicério” da Editora do Brasil, de 1988 – e também a participar de antologias de contos infantis (“Uma História de Fadas”) e de humor – como no célebre álbum “Seis Desenhistas Brasileiros de Humor” (Massao Ohno – 1962), muito bem exposto em artigo do João Buhrer no saudoso Bigorna.

A maior contribuição de Hilde Weber (1913-1994) para as artes brasileiras, indubitavelmente, foi mesmo nas charges dos jornais, onde labutou a carreira toda, entre 1933 e 1989. Do início tímido, nos Diários Associados de Chateubriand, ilustrando para Rubem Braga – e uma breve mas brilhante passagem como capista de A Cigarra (1933-1934), passando pela primeira fase paulista entre 1943 e 1950 e o subsequente período carioca na Tribuna da Imprensa tratado aqui (em que intercalava ilustrações para revistas, como O Cruzeiro, Manchete e Noite ilustrada), voltou triunfalmente à São Paulo a partir de 1962, já famosa pelo seu peculiar Getúlio Vargas, onde consolidou seu estilo no Estadão e permaneceu até seus últimos anos de atividade, mantendo ainda esporádicas contribuições para outros veículos impressos (Visão na década de 70 foi uma delas) e exposições cada vez mais constantes.

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O livro “Brasil em Charges 1950-1985”, lançado pela Circo Editorial em 1986, dá um bom panorama desses anos. Essa longeva e ativa participação na imprensa nacional de Hilde, redescobre-se agora, teve também a presença legítima de um cidadão comum chamado Tribulino.

O valioso material iconográfico a seguir (com exceção da charge da Tribuna) foi cedido gentilmente pelo solidário João Antonio Buhrer e seus “Arquivos Incríveis”. As tiras de “Seu Tribulino” (acervo da Biblioteca Nacional), destaque do post, seguem na sequência.

Matéria em O Cruzeiro de 16/09/1933, com a chegada de Hilde Weber em Santos
(e desenhos seus especialmente para a ocasião) 
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Getúlio Vargas e Lourival Fontes, ex-chefe da censura do Estado Novo (Tribuna da Imprensa)
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Ilustrações do livro “Silvia Pélica na Liberdade” de Alfredo Mesquita (Edições Gaveta)

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Ilustrações da antologia de contos infantis “Uma História de Fadas” (SAI – 1946)

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Ilustrações do livro “Aventuras de Xamburí”, de Antônio de Pádua Morse (Melhoramentos)

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Capa do livro “o Melão do Seu Glicério” – Alfredo Mesquita (Editora do Brasil)

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Manchete (13/10/1956)

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O anúncio do batismo do personagem e as primeiras tiras
publicadas no jornal Tribuna da Imprensa.

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Hilde Weber com o artista Paulo Rossi Osir (em pé) – 1942

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Marcos Massolini
Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

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