14-10-2016

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A saga do Monstro do Pântano por Alan Moore – O início

colunista_RobertoFreitas

Em todas as formas de arte, quando se fala nos artistas que devem ser tomados como referência, é sempre possível identificar dois tipos: o mestre, aquele que define o parâmetro a ser seguido, o que melhor utiliza o ferramental teórico e prático para produzir o resultado quase perfeito que vai se tornar o cânone daquela mídia e o inovador, que desafia os cânones dos mestres e está sempre alargando os limites impostos, de forma irreverente e crítica, propondo novos modelos e novos parâmetros de criação.

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SAGA OF THE SWAMP THING
(A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO)
Roteiro: ALAN MOORE
Arte: STEPHEN BISSETE E JOHN TOTLEBEN
Publicação em 6 Volumes – Vertigo 2012
Publicação Original : DC em janeiro de 1984
Gênero: Terror / Ficção Científica

O problema com o inovador, é que, uma vez tendo sucesso, aparecem os imitadores e, pela repetição, estes são logo seguidos pelos diluidores, tornando lugar comum o que antes era ousadia. Na perspectiva do tempo nem sempre é possível recuperar o frescor de novidade de determinado trabalho; só a comparação com o que era produzido na época pode resgatar um pouco do impacto de determinada obra. Mas alguns poucos artistas, apesar da diminuição do impacto, conseguem marcar de tal forma sua mídia de atuação que preservam o status de inovadores. E, nos quadrinhos, poucos se igualam a Alan Moore neste papel.

Sua carreira profissional começou em 1980, com 27 anos, quando começou a trabalhar na 2000AD, revista de quadrinhos inglesa e berço dos maiores talentos de lá. Os primeiros trabalhos de Moore para essa revista foram “A Holiday in Hell”, publicado no número especial de ficção científica de junho de 1980, “The Killer in the Cab”, no número 170, e “The Dating Game”, na edição 176, este último a primeira colaboração de Moore com Dave Gibbons, um de seus melhores e mais apreciados parceiros. (Mas sua grande criação no selo foi a heroína Halo Jones de 1984 a 1985 e que ainda será objeto da coluna). Apesar da limitação de páginas, e da rotatividade de desenhistas, seu sucesso foi imediato, o que o levou a ser contratado para produzir trabalhos também para a Eagle, Doctor Who Weekly e Scream!. Como a Doctor Who era editada pela Marvel inglesa, Moore acabou ficando responsável tambémpelo Capitão Bretanha a partir de 1982 (isto durou até 1984 e sempre com o artista Alan Davis).

2Como se não bastasse, neste mesmo ano passou a colaborar também para a revista Warrior, onde recebeu uma inédita liberdade criativa, e foi responsável pelo enredo de Marvelman (posteriormente rebatizado como Miracleman, devido a questões de direito autoral) e V de Vingança, dois de seus melhores trabalhos (também iremos falar destas duas publicações por aqui). Assim, no início de 1983 o inesgotável Alan Moore já era um dos nomes mais conceituados da Inglaterra no ramo dos quadrinhos.

Enquanto isto, do outro lado do Atlântico, Len Wein retornava à DC em 1982 e era designado como editor da recente reintrodução de um de seus antigos personagens – O Monstro do Pântano – na revista Saga of Swamp Thing. As vendas não passaram do razoável e, lá pelo número 19, o autor contratado Martim Pasko caiu fora e Wein teve que achar um novo escritor. Moore não foi sua primeira escolha e após falhar em contratar algum artista americano, resolveu ligar para um que já vinha acompanhando na Warrior inglesa. Moore bateu o telefone na cara de Wein, achando que era trote. Quando soube que seria contratado para escrever sobre o Monstro do Pântano, pediu alguns dias e retornou com a sugestão de mudar a concepção do personagem, no que Wein concordou.

Como o artista que fazia o título Tom Yeats também pediu para sair, seus assistentes Steve Bissette e John Totleben imploraram para ficar com o trabalho e assim estava formado o time que levaria A Saga do Monstro do Pântano a ser uma das mais inovadoras e bem sucedidas séries dos quadrinhos.

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Por quatro anos, Moore trouxe uma sofisticação temática e formal inédita nos quadrinhos mainstream, com sua prosa fluída, diálogos muito bem construídos, “timing” no desenvolvimento dos arcos das histórias e personagens desenvolvidos como na melhor literatura. À medida que a série avança e a criatura vai tomando consciência do seu poder – na versão de Moore quase uma deidade do verde – as histórias também ampliam seu horizonte geográfico, dos pântanos da Louisiana até os confins da América, em seguida o mundo (até a Amazônia!) e daí até atingir os mais afastados recantos do universo – e temático, passando pelo terror, comentários sociais, sexo, preconceito, filosofia e ficção cientifica. E ainda fez a recatada DC romper com o famigerado Comic Code.

A arte da dupla Bissette / Totleben, presente na maior parte da série, também foi importante para seu sucesso, pela inovadora composição dos quadros, pelas linhas detalhadas e por alguns trabalhos magníficos como “A Halo of Flies” , “Rite of Spring” e “Loving the Alien”.

É também nesta série que Moore introduziu um de seus personagens mais amados, o mago John Constantine, coadjuvante que aparece no número 37, dentro do arco “American Gothic”. Ele se torna o mentor do monstro, revelando as suas novas capacidades enquanto o manipula para enfrentar ameaças sobrenaturais.
Em comparação com a produção de seus contemporâneos, Moore fez todos parecerem infantis, melodramáticos e pueris. Este trabalho acabou mostrando para vários artistas o potencial dos quadrinhos e para a indústria a possibilidade de oferecer material para plateias mais exigentes. Foi o tremendo sucesso de vendas desta série que levou a DC a criar o selo Vertigo, de histórias mais adultas, e promover uma verdadeira invasão inglesa: Gaiman, Ennis, Ellis.

Em 1986 Moore iniciou a publicação de Watchmen, que o levaria a patamares ainda mais altos e, com pouco tempo para se dedicar ao Monstro do Pântano (e de saco cheio com a DC), acabou saindo no ano seguinte. Mas seu trabalho permanece como um divisor de águas nos quadrinhos americanos.

Infelizmente, com o tempo vieram os inevitáveis diluidores, confundindo sofisticação linguística (lembrem-se que Moore é inglês) com palavrório desnecessário e pedante, temas relevantes e dramas pessoais dos personagens com uma uniformidade de tratamento que enquadra qualquer personagem como “sombrio”. Para evitar esta turma recomendo: VÁ DIRETO PARA O ORIGINAL!

Continue aqui:
>>> A saga do Monstro do Pântano por Alan Moore – Livro 1 >>>
>>> A saga do Monstro do Pântano por Alan Moore – Livro 2 >>>
>>> A saga do Monstro do Pântano por Alan Moore – Livro 3 >>>
>>> A saga do Monstro do Pântano por Alan Moore – Livro 4 >>>
>>> A saga do Monstro do Pântano por Alan Moore – Livro 5 >>>
>>> A saga do Monstro do Pântano por Alan Moore – Livro 6 >>>

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Roberto Freitas Soares
Viciado em HQ desde a infância, ainda fugindo do Rehab.

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