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colunista_MarcosMassoliniEu sempre me considerei um colecionador daqueles que enfrentam ônibus, poeira, labirintos e caminhos tortuosos para adquirir itens desejados para a coleção ou mesmo encontrar algum tesouro escondido no fundo de uma prateleira abarrotada de itens superficialmente banais. Em ambos os casos tenho momentos inesquecíveis para relembrar.

Desde pequeno, já entrava com grande sede ao famoso sebo Mickey (ou Mikei, como se lê em sua fachada) no centro de Santo André (o mesmo citado pelo Adriano Rainho em sua coluna e já com 43 anos de atividade) em busca digitalizar0365principalmente de itens Disney e Hanna-Barbera – quase 40 anos depois, ainda passo por lá, na ânsia de reviver as descobertas mágicas dos anos 70. Ainda em Santo André, pude mais tarde encontrar verdadeiras pérolas do terror nacional em um sebo localizado no segundo andar de um prédio bem antigo do centro, chamado simplesmente “Sebo das Revistas”: lá, com preços ínfimos e várias revistas penduradas nas paredes como quadros, achei gibis de editoras clássicas como La Selva, GEP, Taíka, Outubro…até um número da difícil revista Chico de Ogum (Minami & Cunha). Uma pena que essa loja encerrou suas atividades anos atrás.

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Banca Mikei em Santo André. Crédito: Blog Porque Eu Amo o ABC (2010)

modestyblaiseNuma certa tarde dos anos 90, no calçadão da mesma cidade, “farejei” quadrinhos em uma insuspeita pequena loja que vendia bolsas e tinha um carrinho de pipoca com bexigas bem na porta. O sinal de alerta veio de um garoto saindo dali com um álbum do The Spirit da L&PM em mãos, uma cena descaradamente incomum. Ao entrar no pequeno recinto, quase caí duro. Numa prateleira escondida, entre doces e artefatos de festa junina, surgia solene uma fileira de álbuns portugueses, todos por menos de R$5,00, entre eles, Corto Maltese, Antologia da BD Clássica, Manara, Jerry Spring, Sargento Kirk, Modesty Blaise e Barbarella. Que grande momento!

Santo André ainda é uma cidade apinhada de sebos, mas como em toda parte, os gibis que realmente interessam aos colecionadores estão sumindo das prateleiras e estantes físicas e virando estoques direcionados para os braços virtuais das lojas.

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Livraria Muito Prazer.
Crédito: Flávio Calazans

Na cidade de São Paulo, onde iniciei minhas atividades como jornalista, ainda podia-se encontrar entre os anos 80 e 90, uma grande variedade de raridades dando sopa em livrarias tradicionais e estabelecimentos de publicações usadas. O “centrão” era o caminho natural para as “caçadas” da hora do almoço, em points como Livraria Muito Prazer, Banca Antiga, Ventania, Ao Gaúcho, Livraria Martins Fontes (até hoje na Rua Dr. Vila Nova, onde encontrei muitos álbuns portugueses) e os antigos sebos da região da Sé e Praça João Mendes. A antológica Muito Prazer, fundada em 1978, foi um dos locais mais frequentados por admiradores e estudiosos da nona arte, tanto por seu acervo que contemplava todos os gêneros de HQs como pelo papo “filosófico” e recheado de referências do proprietário Valter (Valter da Silva Fernandes), que podia durar horas. Lá consegui muitos exemplares de Brucutu, Ferdinando, Príncipe Valente (um ícone inconteste para o Valter), álbuns importados, Heavy Metal, Batman Bi, Homem Aranha da Ebal, entre tantos outros itens. E lá também colecionei histórias e momentos inesquecíveis. Em um deles, já no final dos anos 90, uma equipe da TV Cultura foi fazer uma reportagem sobre a livraria e acabou me pegando para um depoimento. Eu, na empolgação, acabei comentando sobre a última moda do Valter, que era utilizar cera de carnaúba para melhor preservação dos gibis de capas plastificadas, mas acabei me confundindo e na hora de falar troquei cera por graxa! Claro, que minha fala teve que ser cortada e só me restou uma breve participação muda na edição final, alcançando um exemplar de “Família Buscapé” da Saber em uma prateleira.

Um pouco depois disso, a Muito Prazer se mudou da Avenida São João por um tempo e quando voltou, já estava descaracterizada e sem o Valter à frente. Há uns três anos atrás, adentrei o recinto perguntando por ele, e a moça detrás do balcão, rispidamente, me informou que ele estava afastado e que nunca fora dono da livraria, mas só o gerente. Bom, de qualquer maneira, independente do cargo dele, a livraria com certeza perdeu sua alma com este afastamento. Que o digam antigos frequentadores como Marcelo Alencar, Flávio Calazans e toda a turma de estudiosos de quadrinhos da USP.

O já extinto Ao Gaucho, próximo onde hoje se encontra a famigerada cracolândia, eu frequentei pouco, mas a tempo de ver seus famosos varais com muitas revistas de terror e faroeste. Mas pensando em momentos que me surpreenderam realmente como colecionador, tive dois lances mágicos nas idas ao centro: um quando encontrei em um sebo sem nome, no segundo andar de um prédio próximo à Praça João Mendes três encadernações de Sesinho do início dos anos 50 – e eu lembro que minha emoção era tanta que fui cheirando as páginas durante todo o trajeto do digitalizar0691trem na volta para casa – e já adentrando o novo século, quando descobri a incrível banca próxima ao TeatroMunicipal chamada “As Mil e Uma Leituras”, um dos locais com mais raridades por centímetro quadrado que pude botar os olhos. O dono, chamado Diogo, costumava ser um pouco desconfiado com clientes novos e não mostrava todos os tesouros escondidos dentro da banca, mas quando se acostumava, não só era muito atencioso com o cliente como ia atrás dos itens faltantes, se necessário. Embora seus preços não fossem tão convidativos, consegui números baixos de Aventuras do Anjo, um Almanaque de O Tico Tico e vários exemplares de Pererê. A banca infelizmente foi uma das que sucumbiram à lei do ex-prefeito Gilberto Kassab, que promoveu um grande arrastão em comércios desse tipo no centro.

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Ainda vou esporadicamente na região, e sempre que possível entro no velho Sebo do Messias e outros da vizinhança. Também gosto de uma grande loja especializada em revistas usadas, próxima à famosa esquina da Ipiranga com a São João, onde é possível encontrar bons itens (formatinhos da Abril, graphics novels, antigas da EBAL, Pato Donald) mas também um grande volume de O Cruzeiro, Vamos Ler, X-9, Manchete, Pasquim, Detective. Para quem gosta de revistas em geral, é um paraíso.

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O novo século me pegou trabalhando em outra parte da cidade, mais precisamente na região de Pinheiros, onde logicamente me certifiquei em conhecer todos os sebos e assemelhados da área. Um pouco antes, numa fase de carona com a noiva até a Vila Olímpia, conheci boas casas do ramo no vizinho bairro Itaim, como as conhecidas red starBagdá Books e Nuvem Nove. No famoso Red Star (também presente no centro), em Pinheiros, embora eu sempre ficasse com um pé atrás em relação à sua política de preços, consegui certa vez o raro Zé Carioca da Melhoramentos, lançado em 1945 com quadros do filme “Alô Amigos”, filme de 1942 com o papagaio ciceroneando o Pato Donald no Rio. O truque, que usei na ocasião e sempre quando posso uso, é olhar minuciosamente as prateleiras de livros infantis – vira e mexe tem algum item em quadrinhos perdido ou livros raros com personagens Disney, principalmente da EBAL e Melhoramentos. Foi numa dessas que encontrei no mesmo sebo um exemplar de “Era Uma Vez” uma das primeiras revistas infantis a publicar ZeCarioca1material do Ziraldo. Também passava quando podia no Eric, famoso por seus discos raros, mas com uma interessante loja de livros e quadrinhos na mesma calçada. Há cerca de um ano atrás, vendo-a fechada, perguntei na loja de discos e me informaram que a livraria estava lacrada por tempo indeterminado por conta de uma infestação grave de cupins. Muito triste!

Como disse no início da coluna, ainda me considero um colecionador que vai atrás de “achados” em prateleiras físicas, embora saiba que os tempos são outros e os sebos virtuais, sites de vendas e leilões em redes sociais vieram pra ficar. Mas não deixarei jamais de mapear sebos em cidades que visito por esse Brasil afora. Essa insistência ainda me rende bons frutos, como nesses exemplos mais recentes que me vem à cabeça:

– Um raro Agente Secreto da Editora Aliança de 1954, que eu achei perdido numa baciada de gibis do Mauricio de Sousa, em um sebo na cidade de Embu das Artes/SP (já fechado).

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– Exemplares de Coelho Valente e Grande Otelo e Oscarito (ambos da La Selva) que negociei em São Thomé das Letras/MG em uma pequena livraria sebo, depois de negociar por um bom tempo com a dona que descobri ser colecionadora de quadrinhos.

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– Uma dezena de Patota (Editora Artenova) e alguns exemplares da Ideia Editorial (Tico e Teca, Mister Magoo), todos por R$5,00 ou menos, que garimpei no sebo do meu amigo Carlinhos no bairro Liviero (Zona Sul de São Paulo).

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– Exemplares de gibis clássicos de terror escondidos em uma prateleira a mais de dois metros do chão, atrás de enciclopédias e livros de receita. No caso, vi parte de uma Luluzinha escondida e resolvi pegar uma escada e conferir. Meu radar estava certo: consegui pelo menos meia dúzia de exemplares de Noites de Terror (Novo Mundo) e Terror Negro (La Selva) ainda da primeira fase (as capas podem ser conferidas aqui e na seção Capas). Esse sebo chama-se Empório das Letras, fica na região do Brooklin (São Paulo) e ainda ostenta um bom número de gibis e álbuns em quadrinhos.

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Como podem ver, esse mundo dos quadrinhos ainda consegue render momentos de muita emoção e adrenalina. Com bom faro, sorte, saúde e teimosia crônica, ainda se pode desfrutar de um bom oásis. Ou sebos, como nós, colecionadores de HQs os chamamos.

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Marcos Massolini
Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

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