29-10-2015

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Paulo Leminski e a bagagem cultural dos quadrinhos

colunista_MarcosMassoliniEu leio muito sobre HQ, e muitas vezes me deparo com personalidades da cultura, literatura e artes que receberam influência dos quadrinhos em suas formações. Jards Macalé, Lygia Fagundes Telles, Ruy Castro, Joel Rufino dos Santos, Ivan Lessa… a lista é grande.

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Um trecho sobre o grande poeta curitibano Paulo Leminski no livro “Guerra dos Gibis 2 – Maria Erótica e o Clamor do Sexo – Imprensa, Pornografia, Comunismo e Censura na Ditadura Militar”, do incansável pesquisador Gonçalo Júnior, colocou-o nesta minha lista de “intelectuais e artistas” influenciados pelos gibis. E pelo visto, muitas personalidades deixaram de ter vergonha de citar as HQs como uma das influências culturais em suas vidas. Forças externas (igreja, governo, pais, escola) sempre colocavam a nona arte como vilã, má influência e subliteratura.

Da minha geração ,nascida na segunda metade dos anos 60, de cada 40 contemporâneos (e a minha velha turma da rua tinha por volta disso mesmo), cinco liam quadrinhos às vezes e outros cinco liam com frequência. 30 deles sequer tomaram conhecimento ou não tiveram oportunidade de acompanhar as artes sequenciais impressas. Muitos pais rasgavam as revistinhas, muitos padres faziam discursos contra, muitos professores condenavam.

Eu sempre tive guarida e incentivo em casa, mas por vias das dúvidas, ao sair, levava um gibi escondido no interior de um caderno ou pasta.

Da primeira metade do século XX até pelo menos o início da década de 1980, fã de quadrinho era que nem sambista (dos anos 20 aos 50) ou roqueiro (dos anos 60 e 70) – invariavelmente tachado de vagabundo ou inútil. Gibi deixava a mente preguiçosa. Grandes fãs desta nobre arte, principalmente jornalistas e fanzineiros, conseguiram reverter essa pecha e hoje livros, graphic novels e revistas de luxo do gênero surgem triunfais nas prateleiras das livrarias.

O que precisa agora é descobrir nichos para a velha banca de jornais e um caminho viável para as revistas populares – mas essa é uma outra estória. Fiquemos com a paixão de infância de Paulo Leminski, como citei na abertura:

“… a jornalista e poetisa Alice Ruiz tornou-se editora de Horóscopo Rose, com circulação mensal, que teve em seu marido, o poeta Paulo Leminski (1944-1989), um colaborador importante e assíduo. Principalmente na produção de roteiros para histórias em quadrinhos sobre o tema. Leminski era um apaixonado por histórias em quadrinhos desde a infância. Adorava ler gibis durante a madrugada. De preferência, de terror, da La Selva. Não perdia um número de O Terror Negro, Histórias do além e Sobrenatural. “Ele tinha um certo fanatismo pelos quadrinhos de horror. Quando nos conhecemos, possuía uma pilha de gibis que vinha colecionando desde menino”, relembrou a ex-mulher. A mãe do poeta lhe contou que era comum, na alta madrugada, ela acordar e ver luz no corredor. Como dormia no mesmo quarto do irmão, Paulo não acendia a luz para não acordá-lo. Quando todos iam dormir, ele pegava os gibis e virava a noite no corredor.”
(trecho do livro “Guerra dos Gibis 2 – Maria Erótica e o Clamor do Sexo – Imprensa, Pornografia, Comunismo e Censura na Ditadura Militar”, de Gonçalo Júnior – Editora Peixe Grande – 2010).

Só para situar, esse trecho se refere ao momento em que a Grafipar, famosa editora de Curitiba, estava iniciando sua produção nos quadrinhos e em pouco tempo faria história nesse gênero. Leminski e Alice Ruiz colaboraram com a editora nesse período. E é essa produção do casal, finalmente compilada, que chega este mês às livrarias e lojas especializadas, pela Editora Veneta.

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No livro intitulado “Afrodite – Quadrinhos Eróticos de Alice Ruiz e Paulo Leminski”, estão reunidas as histórias publicadas entre 1978 e 1979 para revistas como “Rose” e “Eros”, com roteiros direcionados para quadrinhistas tarimbados da casa, que tinha em suas fileiras mestres como Flávio Colin, Júlio Shimamoto e Claudio Seto. Os textos não eram a quatro mãos como o release da obra pode sugestionar – Alice produzia sua cota de roteiros  e Leminski fazia os seus.

A Editora Veneta não divulgou os títulos e créditos das histórias reunidas na antologia, mas confirmou através de sua assessoria que eles não fizeram textos juntos, mas Alice chegou a editar alguns roteiros de Leminski. Segundo Gian Danton, jornalista e roteirista de quadrinhos, autor do livro “Grafipar: A Editora Que Saiu do Eixo” (Editora Kalaco – 2012), Leminski admirava muito a arte de Julio Shimamoto, e fez boas parcerias com Claudio Seto e Rodval Matias na editora curitibana. Essa dobradinha antológica Leminski/Seto já tinha merecido destaque na primeira GibiCon de Curitiba, em 2011.

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Os temas das histórias variam – mitologia, terror, paranoia urbana e até um enredo inspirado em conto do escritor Dalton Trevisan- , mas sempre com base e ênfase no erotismo, a quebra dos tabus e sua faceta mais libertária e anárquica. Quanto ao título “Afrodite”, a assessoria esclareceu que enquanto Leminski às vezes usava o pseudônimo de professor Hamurabi, o pseudônimo de Alice era Urânia, de Afrodite Urânia, a Afrodite espiritual. A obra, com lançamento oficial marcado para 05/11, tem 112 páginas, capa dura e pode ser encomendada pelo site da editora.

Os quadrinhos já foram muitas vezes subestimados e inferiorizados em relação a outras expressões como o cinema e a literatura . Poetas, artistas e intelectuais que acrescentaram a leitura dos gibis em algum momento de suas vidas jamais concordariam com essa blasfêmia.

colunista_MarcosMassolini
Marcos Massolini
Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

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