04-10-2016

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Os companheiros do crepúsculo:
leitura obrigatória!

“Diz-se que esta durou cem anos.
Como o granizo e a peste, a guerra se abate sobre os campos quando o trigo está maduro e a moça bonita… Mariotte é bonita.
O crepúsculo, da noite ou da manhã, se estende entre luz e sombra, entre o cão e o lobo. O Cavaleiro é um lobo. Esses dois mereciam um companheiro fiel.
Mas Anicet é um covarde…”

companheiroscrepusculo_capa-225x300E assim começa cada um dos três arcos que formam a saga “Companheiros do Crepúsculo”, obra prima do artista completo Bourgeon. Talvez, dos quadrinhos franceses como um todo. Ou até, para algumas pessoas, dos quadrinhos mundiais.

E se essa introdução ainda não te fez deixar o que estiver fazendo e correr para a livraria mais próxima, atrás de uma que ainda tenha essa magnifica edição – em acabamento primoroso da Editora Nemo, suprema na publicação de quadrinhos europeus aqui em terras tupiniquins- não se preocupe. Eu conto mais.

Primeiro, deixe eu eliminar sua primeira preocupação: Não, aqui não teremos colants, capas coloridas ou super poderes para enfrentar os perigos do dia. Não que isso seja um problema, mas uma batalha entre marombados sorridentes não honraria um texto introdutório como aquele ali de cima.

Não, aqui temos pessoas normais, cheias de defeitos, sonhos despedaçados e esperanças singelas, tentando entender o mundo à sua volta. E esse mundo não poderia ser mais belo, se fosse desenhado por qualquer outro, que não o mestre francês. Situado na Guerra dos Cem Anos, entre a França e a Inglaterra, nossa história acompanha os três protagonistas, que o texto de Bourgeon já apresentou tão bem. Mas que eu, sendo teimoso e um pouco arrogante, tentarei descrever um pouco mais. Minhas desculpas, de antemão.

Mariotte é o que, hoje, poderíamos chamar de bruxa. Não, nada de chapéus pontudos ou um rosto virulento, mas uma jovem recém tornada adulta, com cabelos de fogo, sardas bem colocadas e um rosto angelical. Porém independente e de temperamento forte, que mora com sua avó fora da cidade, e nas palavras de seus conterrâneos “(…)Viveis no bosque, trilhando a mata e fuçando nos arbustos. Sabeis tudo das ervas e nunca sois vistas na igreja… Não é à toa que sois alvos de maledicência, não acha?”

O autor dessas “sábias” palavras é nosso segundo protagonista, o já taxado de covarde, Anicet. Com seus cabelos negros e aparência petulante, poderia ser facilmente transformado em vilão na mão de um criador mais inseguro. Aqui, porém, desperta nosso amor e ódio na mesma medida.

Principalmente em seus diálogos e castigos ministrados pelo cavaleiro sem nome, o último dos personagens que nos guiam pelas terras ao mesmo tempo realistas e oníricas de Bourgeon. Um homem duro, sofrido, e que carrega em seu rosto as maldades do mundo que os cerca. Com uma origem misteriosa, que se revela no decorrer da trama, pouco se sabe sobre ele quando clama para si o senhoria dos dois jovens.

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Três protagonistas, para vagar pelas terras governadas pelas três forças. A força Branca, a força Vermelha e a força Negra, cada uma responsável por elementos que guiam nossas vidas, do nascer ao crescer. E ao morrer.
E o número três percorre toda a história, se tornando divertido, com o tempo, procurar suas inúmeras referências, que vão desde os cabelos de Mariotte, Anicet e do cavaleiro sem nome, à praticamente tudo a sua volta. Três forças, três arcos. Três vidas e três cidades.

É pra deixar qualquer um pirado. Assim, todos seguem, pelos mais variados motivos, os anseios do cavaleiro, que há anos jurou encontrar e se vingar da força Negra, por uma razão que… bem, não vou contar.

Porém, não se engane. O que nos aguarda não é uma demanda como aquela do Um Anel, ou ainda uma sequência de batalhas épicas, escrevendo a história com sangue, como nos excelentes romances de Bernard Cornwell. Aqui, tudo é subjetivo, tudo é figurativo. A própria fantasia que, sim, se apresenta, é feita de maneira tão perfeita que nem você saberá se ela realmente existe.

Ou se, na verdade, você simplesmente não sonhou com gnomos e magia enquanto lia…
Cada capitulo é, entretanto, regado num realismo até assustador, tanto nas situações como nos diálogos e, especialmente, nos cenários. São de cair o queixo, mas também pudera: Bourgeon, na sua minuciosidade, chegou ao ponto de construir maquetes dos locais, para captar com perfeição como as luzes e sombras reagiriam antes de pô-las no papel.

É nessa mistura de real e imaginário, sonho e cotidiano, pavor e beleza, que o cavaleiro nos leva, junto com seus dois recentes criados. Num universo tão complexo que exigirá, com certeza, mais de três leituras para ser plenamente captado. E um número infinito de vezes para ser compreendido.

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Mas, antes de encerrar, transcreverei aqui as palavras dele para o acovardado Anicet, quando questionado sobre o destino que os aguarda:

“Não há nada de justo no fim do nosso caminho! Nada de lógico e nada de razoável! O que alguns chamam de fatalidade, e outros de vontade divina não é mais, caro donzel, do que o imprevisível capricho daquele a quem nos dirigimos. Tens que se acostumar com essa ideia.”

Não há muito mais que possa acrescentar.
A não ser, o pedido sincero de que não perca a chance de conhecer essa obra prima da arte sequencial.

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Ah sim. E Mariotte é, realmente, bonita.

D. G. Oliveira
Nerd, colecionador, roteirista, viciado em: HQs, cinema e custons. 

 

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