O Investigador do Pesadelo e Eu

A época era o início da década de 1990. O local era uma fria cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul, com cerca de cinco mil habitantes. O personagem era eu, um menino esquisito que contrapunha o marasmo interiorano injetando fantasia na sua mente também esquisita através de filmes de terror e aventura que assistia na televisão – em um saudoso período em que havia boa programação na TV aberta – e nas pouco práticas fitas VHS.

cartaz classicoContudo, a minha grande paixão eram as histórias em quadrinhos, sempre compradas em lugares como Porto Alegre ou Caxias do Sul, porque na minha cidade natal sequer existia banca de revistas. Embora gostasse de ler aventuras do Batman, do Monstro do Pântano, do Hulk e do Homem-Aranha, desde que ganhei de um amigo um exemplar amarelado e empoeirado de Zagor, publicado pela extinta editora Vecchi, este se tornou de imediato meu herói favorito. Por sorte, aquele era um momento muito especial na história das publicações do personagem no Brasil, pois suas aventuras estavam sendo lançadas mensalmente pela editora Record em edições caprichadas, em formato italiano e como capa plastificada, mesmo tratamento destinado a vários outros personagens da Sergio Bonelli Editore, como Martin Mystère e Mister No. Definitivamente, eram bons tempos.

E foi assim, vendo anúncios nas revistas do “Espírito da Machadinha”, que tomei conhecimento do lançamento por parte da Record de uma HQ de terror italiana chamada Dylan Dog, e que teria em seu número de estreia uma história intitulada “O Despertar dos Mortos-vivos”. Como eu já era fã de quadrinhos de terror, lendo habitualmente publicações da editora D-Arte, como Calafrio e Mestres do Terror, e da Bloch, como Drácula e Histórias Reais de Lobisomem, fiquei bastante interessado. Certo, dia, chegando a uma banca em busca da nova edição do gibi do “Justiceiro de Darkwood”, lá estava, ao seu lado, o nº 1 de Dylan Dog. Como meu pai estava de bom humor, me deixou levar para casa as duas revistas.

capa 01 recordA qualidade dessa primeira aventura do “Investigador do pesadelo” me agradou bastante, não só pelo enredo, que prendia a atenção do inicio ao fim, mas principalmente pelo ritmo cinematográfico. Na minha mente juvenil, era como se eu estivesse desfrutando de um bom filme de terror transposto para as páginas de uma revista. E por falar em filmes de terror, eis aí mais um elemento que me fez virar fã de Dylan Dog: ele não apenas vai ao cinema assistir os clássicos filmes de zumbis do diretor George Romero, como ainda cita a obra-prima licantrópica Um Lobisomem Americano em Londres, dizendo já ter assistido o filme 14 vezes. Oportunamente, esse clássico de John Landis é o meu filme de terror favorito e, consequentemente, o que mais vezes assisti até hoje. Foi afinidade na primeira leitura!

A edição nº 2, intitulada “Jack, O Estripador”, me cativou pela sempre envolvente premissa de se tentar descobrir qual entre a lista de suspeitos é o assassino, e a nº 3, cuja aventura recebeu o título “As Noites da Lua Cheia”, me arrebatou de vez, não só pela presença dos lobisomens – seres mitológicos que sempre me fascinaram – mas também pelo arrasador final surpresa.

turmaCom passar do tempo, fui aprendendo a apreciar cada vez mais as características do personagem-título que eram delineadas a cada edição: ex-membro da Scotlan Yard, investigador particular especializado em assuntos bizarros desacreditado pela mídia, irônico, ex-alcoólatra, meio depressivo e muito sedutor. Fomos também apresentados aos personagens recorrentes da série, sendo o principal dele o assistente Groucho, sósia do ator homônimo norte-americano, famoso pelo seu trabalho humorístico com os demais irmãos Marx e que, como tal, possui sempre uma piada infame na ponta da língua, embora consiga, na maioria das vezes, mais irritar do que divertir os que estão ao seu redor. O outro que merece menção é o Inspetor Bloch, que, ao contrário da maioria dos demais policiais, manteve a amizade com Dylan após a saída deste da Scotland Yard, e ainda confia em suas habilidades investigativas a ponto de seguidamente pedir sua opinião acerca de casos estranhos que se desenrolam pelos recantos sombrios de Londres, local onde se passam a maioria das histórias.

capa 01 conradDesde o início de sua publicação na Itália, em meados da década de 1980, o personagem criado por Tiziano Sclavi angariou um séquito de fãs que só cresceu com o passar do tempo, atingindo seu auge nos anos 90, aonde chegou a vender cerca de um milhão de exemplares por mês, entre a série regular – ainda em andamento – e edições especiais. Atualmente, apenas Tex vende mais do que Dylan Dog entre os títulos da Sergio Bonelli Editore em sua terra natal.

No Brasil, porém, o personagem não teve a mesma sorte. Apesar de arrebanhar fãs fiéis, o número destes nunca foi o suficiente para assegurar vendagens que garantissem a publicação regular de Dylan Dog por muito tempo. Como razões para o insucesso por aqui, especula-se que a principal seria a falta de predisposição do público leitor médio para digerir os roteiros muitas vezes complexos que pontuam a série com finais inconclusos e pontas soltas deixadas para serem atadas pela própria imaginação de quem lê. De fato, aqueles que gostam de histórias com todas as explicações mastigadas ao seu final, provavelmente terão dificuldades para absorver a ambiguidade que é marca registrada de Dylan Dog.

capa 01 mythosEntre 1991 e 1993, a Editora Record publicou 11 edições com as aventuras do personagem em ordem cronológica e mais duas especiais, sendo uma deles um crossover com Martin Mystère, intitulada “Última Parada: Pesadelo” e a outra “Incubus”. No mesmo ano em que a Record parou de publicar Dylan Dog, a Editora Globo incluiu uma história colorida na obra Fumetti: O Melhor Dos Quadrinhos Italianos – Em Cores, que contava ainda com aventuras de outros heróis bonellianos. Em 2002 a Conrad Editora publicou uma série de seis edições que posteriormente foram compiladas em um box de luxo. Ainda em 2002, a Editora Mythos assumiu o personagem e levou às bancas 40 edições, encerrando a publicação em 2006. Depois disso, tivemos ainda histórias curtas publicadas nas cinco edições de Tex e Os Aventureiros, da mesma editora. Em seguida, o personagem entrou em um hiato de mais de dez anos longe das bancas brasileiras até que agora, em 2017, a Editora Lorentz anunciou a publicação de três edições capa 01 lorentzespeciais em comemoração aos 30 anos da estreia do personagem, completados em 2016. A primeira delas, intitulada “Retorno ao Crepúsculo” saiu no mês de abril.

Enfrentando criaturas clássicas do imaginário fantástico, como vampiros, zumbis e lobisomens, seres oriundos de outros planetas, criações mentais originadas da loucura e do delírio, ou simplesmente o mal advindo do próprio coração das pessoas, o fato é que Dylan Dog vivencia suas aventuras nos proporcionando uma leitura de qualidade ímpar, com ritmo envolvente, roteiros inteligentes e frequentes reviravoltas desconcertantes, sem nunca deixar de lado a ambiguidade de um personagem que, mesmo ao investigar o pesadelo, se conserva cativantemente humano.

 André Bozzetto Jr
Graduado em História e Mestre em Letras, tem como um de seus hobbies colecionar histórias em quadrinhos. É fã dos personagens clássicos da Sergio Bonelli Editore, em especial de Dylan Dog, o Investigador do Pesadelo.

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