Miller, Milazzo, Minolta e Murphy na terra dos Césares!

colunista_PeterMihajlovicNo já distante 1994, tempo de Plano Real, URV e Romário, tive a oportunidade de residir por cerca de 08 meses em Roma (Itália) e ali pude participar de duas comicons chamadas Expocartoon organizadas pelo mesmo pessoal da mítica Feira de Quadrinhos de Lucca.

Descobri a existência da mesma, lembremos que eram tempos pré-Internet, ao ver um anúncio do evento em um gibi especial do Conan da editora Comic Art que republicava as famosas histórias por Barry Windsor-Smith. Reparem na foto deste artigo que usavam o mesmo Yellow Kid dos prêmios toscanos para o anúncio romano! O primeiro evento foi em maio de 1994 e lá fui eu ao mesmo, em um local de eventos chamado Fiera de Roma, onde se organizam feiras industriais e eventos como o salão do automóvel local.

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Ao chegar ao evento, corri primeiro ao stand de Ken Parker, na época estavam terminando a republicação pela Parker Editore os 59 números originais e dali poucos meses retornariam seu Ken Parker Magazine aos braços de casa Bonelli. Entre pilhas das edições originais organizadas como torres pelo stand, com muita emoção peguei autógrafos da dupla (vejam a foto com autógrafos) Berardi e Milazzo e arrisquei um “anglo-italiano” com o Berardi que, simpaticíssimo, confessou-me que levou anos para viajar à América em alguns daqueles lugares de seu mais famoso personagem e que tem uma série de livros sobre a geografia daquele canto do mundo para dar mais precisão e realismo aos seus episódios.

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No calor da emoção, pedi aos mesmos uma foto básica com os dois, que, como descobrirás nos próximos parágrafos, perdeu-se nas pradarias do desconhecido mundo da falta de sorte !

Depois de circular pelos vários stands com lojas e sebos de cidades de toda Itália e muitos da própria Roma, em locais que nem mesmo os moradores frequenta (alguns visitei pessoalmente depois do evento e realmente era uma aventura chegar a estes lojistas e outra aventura para sair vivo de suas suspeitas redondezas!). Depois de horas rodando os dois pavilhões do evento, que incluía até uma réplica da “campainha que grita ao ser tocada” do gibi Dylan Dog, parei para saborear um panini (sanduíche) italiano com uma Coca-Cola, a “inimiga número 01” da culinária romana! Enquanto comia, peguei um folheto que me deram na entrada com a programação do evento, e, entre tantas atividades, percebi que naquele sábado de maio de 1994 iria conhecer um dos maiores mitos dos comics: FRANK MILLER!

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Curiosamente, não havia exatamente um “auê” pela vinda dele ao evento. Sim, no momento em que ele apareceu a sala de cerca de 300 lugares estava cheia, mas, se um desavisado andasse no evento e não lesse o folheto da programação, JAMAIS descobriria que o Golden Boy de Vermont estaria ali! Comecei a vasculhar os diversos stands em busca de algo dele para ter meu valioso autógrafo pós-palestra. Felizmente achei um número de Sin City que quebrou meu galho, ainda mais pela capa predominantemente branca, própria para autógrafos (vide fotos). A palestra em si foi “meia-boca”, pois os organizadores falavam um péssimo inglês e havia uma certa bagunça por parte do público mais interessado em fotos e autógrafos que em ouvir um ícone dos comics. Só lembro do momento em que alguém perguntando sobre a Morte do Superman, que recém-ocorrera, e ele fez um sorriso malicioso seguido por um rosnar de um cão bravo (“Rrrrrrrrrrrrrrrr”!) com os rumos da indústria dos comics.

20160828_130916Terminada a confusa palestra, uma imensa fila, de umas 200 pessoas se formou e ali se via de tudo: Devil (nome italiano do Demolidor); um lindo encadernado do Cavaleiro das Trevas pela editora Rizzoli; outro da mesma editora do Ronin com a cena do “duplo harakiri dele com o Demônio”; entre outras coisas. Fiquei batendo papo com um italiano , que conhecia o Maurício de Sousa “de nome” (“lembra um Walt Disney brasiliano, no?!”) e aí chegou minha vez, pedi para o italiano, cujo nome se perdeu na memória (Gianni? Marco? Dino? Cazzo!) , para tirar uma foto minha frente a frente com o mito. Ao dar meu exemplar a tio Frank, disse meu nome e ele soltou um “Peter? Oh, it sounds familiar to me! I know how to write your name!”. Peguei o autógrafo, em caneta dourada e todo feliz fiquei imaginando como seria a revelação das fotos: Milazzo aqui; Miller acolá; povão no evento, ótimas lembranças.

Mas, então, surgiu um super-vilão chamado Murphy – sim, aquele mesmo da famosa lei – e, dias depois, ao revelar o rolo de filme (sim, amiguinhos, em 1994, smartphone era coisa dos Jetsons!), descobri que a maldita câmera da marca Minolta que usei, batia a foto, fazia o barulhinho do motor do rolo de filme girando dentro da mesma e…. NADA DE FOTOS!

Sim, até hoje fico muito , muitoooooooooo puto com esta situação, ainda que minha boa memória se recorde de quase tudo. Para compensar um pouco, teve a segunda edição em novembro daquele ano, onde deu para tirar algumas fotos com uma máquina Kodak descartável, como a entrada do evento e uma exposição de originais de Marvels do Alex Ross (vejam fotos), que infelizmente não esteve ali. Ainda não conhecia este outro mito dos comics, e, o curioso é que, logo que voltei ao Brasil no fim daquele ano, saiu a versão original de Marvels pela editora Abril e pude me orgulhar de ter visto algumas daquelas pranchas mágicas antes de ler a boa história de Kurt Busiek.

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ross5Bom, a imperfeição existe, mas foi minha primeira grande experiência de comicon estrangeira em um país como a Itália que equilibra bem a produção local com a de seus pares europeus com boas republicações de quadrinhos americanos, incluindo clássicos como Flash Gordon e Popeye.

Até hoje existe um evento ali em Roma, não mais com o nome de Expocartoon, mas com o mesmo espírito que vi em 1994. Altamente recomendado !

 

Auguri per tutti !

colunista_PeterMihajlovic
Peter Mihajlovic
Perde mulheres, bens, até amigos, mas sempre fiel à sua coleção de gibis(…)!

4 comentários em “Miller, Milazzo, Minolta e Murphy na terra dos Césares!

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