04-04-2016

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“Maus” de Art Spiegelman por Roberto Freitas

colunista_RobertoFreitasA polêmica suscitada pelo recente vencedor de filme estrangeiro “O Filho de Saul” me fez lembrar (e reler) o Maus de Art Spiegelman. As questões ali enfrentadas são as mesmas. Como representar o Holocausto, após tudo que já foi filmado ou escrito sobre ele? Como falar do inominável sem banalizá-lo? Como representar o horror nazista?

r2 Spiegelman fez uma escolha pessoal difícil ao retratar, na verdade, o filtro que tem sobre o evento, que é o testemunho de seu pai, sobrevivente de Auschwitz. Isto significou se expor no processo de uma maneira nunca vista antes no meio dos quadrinhos, ao relatar além dos horrores nazistas, sua difícil relação com o pai e o próprio desenvolvimento da ideia do livro. Mesmo temas dolorosos para ele como o suicídio da mãe e seu ressentimento do irmão não conhecido morto na guerra, emergem do texto em sua brutal realidade. Ninguém aqui é poupado, como se não coubesse nenhuma amenização para tratar deste tema. Seu pai não é retratado como herói, mas um sobrevivente, tendo que negociar a cada dia sua sobrevivência, usando todo tipo de expedientes. E suas atitudes mesquinhas, racistas e avarentas são mostradas sem pudor.

Como ficamos sabendo ao longo da história, na infância Spiegelman era acordado várias vezes a noite pelos gritos de seus pais, assombrados pelos pesadelos (algo comum em muitos sobreviventes dos campos de concentração). E ele achava que isto era uma coisa comum dos adultos! Para lidar com seus traumas, mergulhou primeiro na leitura compulsiva e depois no desenho e na produção de quadrinhos. Como muitos de sua geração, embarcou nas drogas na adolescência e achou especial consolo no LSD. Uma bad trip, no entanto, o levou a ser internado em um sanatório. Três meses após sua saída, em 68, sua mãe se suicidou. Este momento pungente resultou em um de seus primeiros trabalhos nos quadrinhos underground, que é reproduzido em parte em Maus, quando seu pai lê seu trabalho pela primeira vez.

r1MAUS – Art Spiegelman
Edição brasileira: Quadrinhos na Cia
Publicação: 2005
Publicação original: RAW Magazine – 1977
Gênero: Biografia
Nº de páginas: 296
Prêmios: Pulitzer (1992)

Inspirado pelo trabalho de Will Eisner, Spiegelman e sua mulher Françoise Molly criam a pequena editora Raw Books and Graphics, que publica a revista Raw de quadrinhos alternativos de forma artesanal e irregular. Nela, a partir do segundo número no final dos anos 70, inicia o projeto de contar a história de seu pai na Polônia sob o domínio nazista, e em pequenos capítulos. Sua intenção era enfrentar seus demônios e sua conturbada relação com o pai. O trabalho ficou conhecido e, em 1986 a editora Pantheon Books adquiriu os direitos da obra e publicou os seis primeiros capítulos em um único volume.

O sucesso foi imediato, com o livro frequentando os primeiros lugares da lista dos livros de ficção, até Spiegelman protestar que a história do Holocausto que ele relatava não tinha nada de ficcional.

Um segundo volume só foi publicado em 1991, agraciado no ano seguinte com o prestigioso prêmio literário Pulitzer, que teve que acomodar a obra em uma nova categoria pelo seu formato “não usual”. E seu sucesso abriu novas oportunidades para as “narrativas gráficas” serem consideradas a 9ª arte. Presença constante em qualquer lista dos 10 melhores “comics” de todos os tempos, esta é realmente uma obra que merece o título de essencial.

ANIMAIS

r3Uma questão também com alguma polêmica foi a opção de representar as nacionalidades dos personagens como animais. Esta caracterização dos personagens permite uma rápida identificação e nos ajuda a lidar com os horrores narrados. O uso da metáfora de ratos (maus em alemão) para os judeus, além da associação deles como “carregadores de pragas” (usada pelos nazistas para criticar até Mickey Mouse, citada no livro), também está ligado ao uso do gás Zyclon B (um veneno para ratos), nos campos de extermínio. A escolha de gatos para os alemães então se torna óbvia, mas r4a escolha de porcos para os poloneses (por serem Góis que entregaram os judeus?) já se mostrou fonte de reclamações. Os americanos se saem melhor na fita como cachorros, “inimigos” também naturais dos gatos. Este recurso de representação é particularmente eficaz em dois momentos, primeiro ao mostrar Vladek e a esposa usando máscaras de porcos quando tentam se passar por poloneses. O outro, um dos momentos mais marcantes da série, logo no início da segunda parte, onde Art ressentido com o sucesso de Maus, e se sentindo culpado por explorar a história de seu pai, desenha a si mesmo usando uma masca de rato e com os corpos dos judeus mortos empilhados em seu estúdio.

r5NARRATIVA

A forma narrativa é clássica e rigorosa, em um P&B sem artifícios, com quadros pequenos, sem muita variação de tamanho. Spiegelman diz que tentou desenhar os personagens de forma mais expressionista nos seus primeiros esboços, mas desistiu por achar que estava manipulando os sentimentos do leitor.

Assim optou por estilo mais sóbrio, como se a história tivesse sido desenhada por um dos sobreviventes, nos próprios campos de concentração. Um dos poucos artifícios usados é a forma de representar as passagens de tempo, alternado os fatos narrados na época da guerra com as conversas com o pai, que são retratadas no próprio formato dos quadros, normalmente sem contorno ou fora do alinhamento quando se trata do presente.

colunista_RobertoFreitas
Roberto Freitas Soares
Viciado em HQ desde a infância, ainda fugindo do Rehab.

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