04-05-2015

Por

Los 3 Amigos

Exatamente 20 anos atrás. 04 de Maio de 1995. Fiquei sabendo que eles, “Los 3 Amigos”, lançariam um álbum justamente em um dos bares que eu mais tinha “batido cartão” desde os anos 80 – o Jazz and Blues, em Santo André.

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O nome já escancarava: a casa sempre pautou suas apresentações ao vivo nestes dois gêneros musicais e pelo seu palco passaram monstros instrumentistas como o guitarrista Buddy Guy – que fez uma pequena canja surpresa depois de seu show em São Paulo – e incendiários brasileiros como André Christovam, Faíska e a turma do Blues Etílicos.

Era uma questão de juntar o ótimo ao agradável: um bar perto de casa, com uma trilha sonora impecável, recebendo nada mais nada menos que três quadrinhistas dos mais considerados em minha lista pessoal. Ah, sim, faltou apresentar “Los 3 Amigos” para alguns mais novos ou desavisados.

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Essa trinca, formada por Angel Villa, Laerton e Glauquito – personagens caricaturados dos próprios autores Angeli, Laerte e Glauco – surgiu na cabeça de Angeli, logo depois de assistir a comédia de John Landis, “Three Amigos”, estrelada por Steve Martin, Chevy Chase e Martin los3amigosShort em 1986.

Primeiramente o trio virou capa da cultuada revista Chiclete com Banana, capitaneada pelo próprio Angeli desde 1985 pela Circo Editorial de Toninho Mendes, e que já trazia a participação incisiva dos amigos citados, todos titulares de tiras em quadrinhos na Folha de S.Paulo.

A boa ideia logo se transformou em histórias feitas a seis mãos, publicadas na própria Chiclete e no caderno FolhaTeen e daí para os álbuns, foi um pulinho. Um tabloide foi lançado em 1990 pela Circo Sampa. O livro que estava sendo lançado no bar era o volume 2, “Los 3 Amigos- Más Sexo, Más Drogas y Mas Guacamoles”, “publicado pela Editora Ensaio no ano anterior – o primeiro volume saiu em 1993. Aliás, desde 1994 o trio incorporara outro componente às suas fileiras, Adão Iturrusgarai, remetendo ao exemplo do quarto integrante D’Artagnan dos clássicos Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas.

Por circunstâncias do destino, cheguei cedo ao local , bem no momento em que os quatro amigos papeavam despreocupadamente no grande balcão do bar.

Como a timidez nunca fez parte do meu repertório, sentei ao lado deles e engatei um papo animado, com direito a risadas e algumas cervejas Sol, devidamente brindadas com Angeli e mais um ali que também bebia cerveja (passados 20 anos, a memória falha. Não me perguntem o teor da conversa nem a quantidade de cerveja ingerida).

Só sei que naquele instante comprovei que os artistas que eu tanto admirava desde a Chiclete com Banana e as tiras da Folha de S.Paulo (e indo um pouco mais pra trás, no caso de Angeli, Laerte e Glauco, desde o caderno Folhetim, do mesmo jornal), eram tão espirituosos no papel como in loco, acrescentando aí despojamento, bom humor e simplicidade. Uma noite inesquecível que acabou registrada nos desenhos inéditos com dedicatória que os quatro autores deixaram nas páginas do meu exemplar.

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Cada qual no seu estilo, especialmente para a ocasião: os indefectíveis hippies do Angeli/ o antológico palhaço mudo do Laerte/ o próprio Adão no “trono”/ e incorporando seu personagem Geraldão, Glauco e seu companheiro um tanto “guacamolento”.

Duas décadas depois, olho para esses desenhos tão lépidos e percebo como o tempo passa e nos atravessa: embora Angeli, Laerte e Adão continuem firmes e fortes na Folha e seus álbuns sejam lançados sempre com muita festa, “Los 3 Amigos” nunca mais poderão se reunir: Glauco, que talvez tivesse o humor mais seismaosbobascapadireto e sem rodeios entre eles ( seguido de perto pelo Adão), infelizmente se foi em 2010, assassinado por um fanático, que também vitimou seu filho.

Uma perda irreparável para as tiras nacionais de humor, terreno em que Glauco reinava com naturalidade e desenvoltura. Seu humor, seus desenhos, permanecem, na mente e nas prateleiras dos colecionadores e nas coletâneas ainda disponíveis.

E pra contradizer o que eu disse acima, alguns lançamentos ainda conseguem, pelo menos no papel, unir os três artistas, como os recentes “Seis Mãos Bobas”, Humor-Paulistano-Capacoletânea da Devir que reúne 17 histórias deles publicadas nas revistas Chiclete com Banana e Geraldão entre 1985 e 1989 – além de fotos da época e o processo criativo de cada um – e a monumental edição “Humor Paulistano – A Experiência da Circo Editorial – 1984-1995”, lançada pelo Sesi-SP , organizada pelo Toninho Mendes – a própria Circo em pessoa – e escrita por seis jornalistas, com uma seleção do melhor que a editora publicou, incluindo aí HQs de Alcy, os irmãos Caruso, Luis Gê e claro, Angeli, Laerte e Glauco, molas mestras do período.

Arriba, Los 3 Amigos!

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Marcos Massolini
Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

2 comentários em “Los 3 Amigos

  1. Conhecer o Glauco é um privilégio ainda mais se lembrarmos que ele era o menos assíduo neste tipo de evento do trio.

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