Itens históricos da EBAL e diários de Renato de Biasi

colunista_MarcosMassoliniHá mais de três anos atrás, num momento de muita sorte, consegui adquirir de um antiquário vários itens históricos ligados aos primórdios da EBAL (Editora Brasil America Ltda). A emblemática editora carioca, de propriedade do sr. Adolfo Aizen, por pelo menos duas décadas (50 e 60) foi a maior editora de quadrinhos do Brasil.

 

O convite é pré-editora: data de 1936, ano em que o Suplemento Juvenil, primeiro veículo de quadrinhos de Aizen e pioneiro no país em historietas americanas de aventuras, completava dois anos de existência e era publicado pelo Grande Consórcio de Suplementos Nacionais (GCSN) .

Vem assinado por Renato de Biasi, um dos “juvenilistas”, que convida para a festa no Edifício de “A Nacção” (jornal que foi responsável pelo lançamento do suplemento como encarte em 1934 e local onde ficava a redação de Aizen). A partir dessa corajosa publicação, que arriscou um novo nicho no Brasil e desde o início se tornou um sucesso, Adolfo Aizen arregimentou experiência e uma boa equipe para abrir a EBAL em 1945.

Em tempo: Renato de Biasi, que nessa época era um pré-adolescente, logo se tornou secretário do Suplemento Juvenil e mais tarde diretor em diversas publicações, como em A Noite (que açambarcou O Lobinho do GCSN) e O Cruzeiro.

Outro item interessante é o folheto de visita ao edifício da EBAL no bairro de São Cristóvão, Rio, datado de 31/08/1960 e com três assinaturas presentes: J.P. Batista, Paulo Adolfo Aizen (filho de Adolfo Aizen) e uma última que parece ser do próprio fundador.

Nessa época, a editora bombava no mercado como líder em revistas em quadrinhos e fazia questão de organizar excursões escolares às suas dependências – principalmente ao seu incrível Museu dos Quadrinhos -, além de visitas ilustres de políticos, clérigos e intelectuais (nessa ocasião específica, a turma do Instituto de Educação foi contemplada).

Um destaque interessante desse documento é a presença do famoso Pernalonga, aqui chamado de “Pernalonga, o Farofeiro”, protagonista de Mindinho, revista de sucesso da casa.

O próximo item é um cartão de visita do Sr. Paulo Adolfo Aizen (que como já citei, era um dos filhos de Adolfo Aizen), executivo que acabou apagando as luzes da empresa junto com seu irmão Naumin, quando esta encerrou suas atividades nos anos 90, depois de uma longa crise administrativa e editorial.

Já os diários que aparecem aqui são de propriedadede Renato de Biasi. Ao todo são três cadernos – um de 1937 e dois de 1938, numerados – nºs 9, 10 e 14, o que significa que existem pelo menos 10 diários anteriores.

O jovem Biasi (nessa época com 17, 18 anos) é pragmático ao extremo na escrita e quase todo o conteúdo de suas recordações diárias foca em seu cotidiano familiar, escolar e sentimental – em suas linhas sempre é descrita a hora exata que acordou, que tomou café, que foi tomar banho e quando foi dormir.

Renato de Biasi

Essa é a impressão geral, mas conforme vou esmiuçando os escritos (sim, depois de tanto tempo, ainda não li na íntegra os diários) munido de uma boa lupa, pois o autor tinha letra microscópica, percebo que alguns trechos isolados citam rapidamente seu cotidiano profissional e podem servir de painel sobre os trâmites, as ferramentas e a logística em torno da edição/produção do Suplemento Juvenil e do Mirim.

Abaixo, transcrevo duas passagens, uma em 13/10/1937 (uma quarta-feira), sobre a mudança de redação do Suplemento Juvenil e outra de 19/10/1937 (uma terça-feira), onde pela primeira vez é citado O Lobinho , que sairia só em abril de 1938 (1ª série, em formato standard – 08/04/1938).

“Saí às 8 e 5, dirigindo-me à redação do Suplemento Juvenil. Continuo preparando as últimas cousas para a mudança da redação. O caminhão levou mais alguns móveis. Adiantei outra edição do Juvenil e levei um pequeno “carão” do Sr. Aizen , por ter atrazado (sic) duas capas. Depois fui com ele e o Machado às oficinas. Levamos estereotipias. Passamos pelo depósito e fomos ao novo prédio da rua Sacadura Cabral . O meu escritório deve ficar formidável! Voltamos à redação.”

“Fiquei traduzindo um novo conto para Mirim. Depois vesti o uniforme e fui trabalhar na nova redação do Suplemento, à rua Sacadura Cabral. Aprontei um número do Mirim e arrumei minhas cousas. Falta-me somente a mesa, que deverá chegar amanhã ou depois. Tenho uma sala ampla, no terceiro andar, onde tratarei do Suplemento Juvenil, do Mirim e do Lobinho. Agora pretendo lançar muitas novidades…”

Parece muito pouco, mas com paciência, trechos aparentemente banais como estes podem ajudar futuramente a montar parte dessa grande epopeia erigida pelo pioneiro Adolfo Aizen.

Para saber mais sobre a história da EBAL e do Suplemento Juvenil, dos juvenilistas e consequentemente a trajetória de Adolfo Aizen e seus filhos, a pedida mais certa é a leitura de “Guerra dos Gibis”, do pesquisador Gonçalo Jr. As próprias revistas da EBAL são fontes importantes de pesquisa, pois suas seções de cartas (“Conversa do Diretor”) sempre traziam detalhes preciosos sobre as publicações, eventuais visitas e movimentações da lendária editora.

colunista_MarcosMassolini
Marcos Massolini

Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

Deixe uma resposta