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Fui conhecer o Zalla tarde demais. Na verdade, conheci ele muito cedo. E não saquei qual era o tamanho da importância daquele senhorzinho sério, quieto, ali no canto.

É triste constatar que quando você resolve trabalhar com algo que ama, seja lá o que for, é muito fácil que aquilo ali se torne apenas sua profissão, sem muito tesão. Talvez seja meio como o casamento, ou até mais intenso. Mas isso é assunto pra outro dia.

Nos anos 1990 já estava enfronhado nos quadrinhos até o pescoço, me preocupando com prazo, gráfica, direitos autorais e a magia que deveria estar a nossa volta ficava cada vez mais etérea. Não lembro exatamente a data, mas por volta de 1999 conheci pessoalmente Rodolfo Zalla. Muito prazer. Foi o máximo que disse na época.

Zalla, Eugênio Colonnese, Álvaro de Moya, Julio Shimamoto, todos eles viviam por ali, com aqueles páginas amareladas que davam um trabalhão pra escanear e retocar. Lembro que eles eram tratados com muita reverência pelo povo da Opera Graphica, principalmente pelos mais velhos. Mas a molecada estava em outra…

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fonte: http://www.guiadosquadrinhos.com

Aí em 2002 pintou a edição comemorativa da Calafrio, aquela com a reinterpretação da capa da Calafrio número 1 feita pelo Renato Guedes. Lembro bem, porque o Roberto Guedes editou e eu cuidei da arte. Foi ali que conheci de verdade o Zalla. Só ali eu comecei a entender a importância daquele senhor que falava meio enrolado e desenhava histórias de terror.

darteArgentino que fez carreira no Brasil, fundou junto com o italiano Colonnese na década de 60 o Estúdio D-Arte que é até hoje referência quando falamos em produção de quadrinhos no país.

Os caras chegavam a criar 300 páginas por mês! Só tinha gente “mais ou menos” trabalhando por lá: Luis Meri, Rubens Cordeiro, Maria Helena Fonseca, Osvaldo Talo, entre outros. Os caras eram os mais profissionais do mercado na época e foram pioneiros em dar um jeito de criar “quadrinhos educativos”, publicados aqui e na Europa.

zorroDepois do fim do estúdio, Zalla trabalhou na Editora Abril desenhando Zorro e alguns personagens da Hanna-Barbera. Mas não durou muito e nos anos 1980 a D-Arte ressurge como editora, onde, na minha opinião, o editor Zalla brilhou mais, juntando uma equipe de colaboradores talvez nunca igualada no país: Flávio Colin, Júlio Shimamoto, Mozart Couto, Rubens Cordeiro, Ota, Luiz Antônio Sampaio, Jayme Cortez, Watson Portela, Gedeone Malagola, Edmundo Rodrigues, Lyrio Aragão, Wilson Vieira, entre outros. E claro, ele próprio e Eugênio Colonnese também produziam muitas histórias nos títulos Calafrio, Mestres do Terror e Johnny Pecos (título de faroeste).

O mercado brasileiro estava descobrindo os quadrinhos de terror e guerra, impressos em papel barato.

Era a época do gibi descartável, ninguém guardava pra depois tirar foto da estante. Era ler e passar pra frente. Isso quando não virava forração de gaiola do passarinho.

O material era tão vagabundo que depois de um tempo elas se desfaziam na mão. Por isso hoje em dia algumas edições de Calafrio ou Mestre do Terror são tão raras, mesmo não sendo tão antigas. Mas se você colocar as mãos em alguma, tá liberado tirar foto e postar no Facebook, ok?

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A Calafrio fazia tanto sucesso na época que chegou a ser publicada em forma de tiras no jornal Notícias Populares. Bem pertinente inclusive (diziam que se você espremesse esse jornal, ele soltava sangue, de tão sensacionalista que era).

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Roberto Guedes, Rodolfo Zalla, Eugênio Colonnese e Marcio Baraldi. Foto: Roberto Guedes (acervo).

Ao_mestre_com_ca_4fac02e8ed0b4Além de Zalla ser “A” referência em quadrinhos de faroeste, guerra e terror, ele ganhou o troféu HQ Mix na categoria “Grande Mestre” e Angelo Agostini “Mestre do quadrinho nacional” ambos em suas primeiras edições.

O Marcio Baraldi (autor de Roko Loko, Adrina Lina) produziu um documentário fundamental: Rodolfo Zalla – Ao Mestre com Carinho. Altamente recomendado (abaixo você pode ver o trailer).

Zalla merecia um prêmio com o nome dele, vocês não acham?

 

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Em 2011, a Editora CLUQ voltou a publicar a revista Calafrio, editada pelo próprio Zalla, a partir do número 53, continuando assim a numeração da D-Arte. Porém dessa vez a tiragem era menor, com um papel e acabamentos bem superiores se comparados com as revistas da década de 1980.

operaZalla se foi em 19 de junho de 2016, aos 85 anos. Na minha estante ficaram além da edição especial de Calafrio, 20 anos depois, A arte magnífica de Rodolfo Zalla (um sketchbook meio que mostrando seu processo de trabalho), No Reino do Terror (álbum com HQs de Rubens Francisco Lucchetti) e Filho do Urso e outras histórias (álbum de HQs de Flávio Colin que Zalla editou em conjunto com Roberto Guedes).

Vendo assim, até parece que eu tive um grande contato com ele, mas minha estupidez não tem limites. Acho que além do “muito prazer” devo ter dito no máximo alguns “bom dia” ou “boa noite” pra ele. No máximo.

Fico imaginando o que um editor e desenhista do nível dele poderia ter me ensinado. O que ele tinha de experiência em um dedo, eu não vou conseguir nem se viver três vidas.

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Aí você fica velho e aprende, se arrepende e tenta compensar um pouco as burradas da juventude. No próximo 28 de janeiro, Dia do Quadrinho Nacional, durante o 33º Troféu Angelo Agostini será lançado um álbum da editora CRIATIVO (em parceria com a AQC) com a participação de mais de 160 artistas homenageando o mestre. Só fera. Menos um: o tosco aqui rabiscou em uma das páginas. E parece que imprimiram mesmo assim! Claro que isso não vai compensar a minha falta de noção, mas talvez só de ter desenhado uma (singela) homenagem eu tenha ficado um pouquinho menos bobo.

Antes tarde do que nunca: Obrigado Zalla.

 

SKETCHBOOK CUSTOM TRIBUTO A RODOLFO ZALLA
Editora CRIATIVO (http://editoracriativo.com.br)
Formato: 21 x 28 cm  | Valor: R$39,90 | 80 páginas

Autores: Adão de Lima, Adauto Silva, Agata Desmond, Al C, Alexandre Jubran, Alexandre Silva, Allan Lex, Álvaro de Moya, Alves, Amorim, André Hernandez, Angelo Nogueira, Antero Leivas, Antonio Lima, Arthur Garcia, Astor Borges, Betania Dantas, Bira Dantas, Biratan, Bispo Xines, Brum, Bruno Aziz, Byrata, Carlos Alberto Kenai, Carlos Araujo, Cesar Carrizo, Cesar Cavelagna, Cival Eisten, Claudio de Oliveira, Claudio Duarte, Claudio Ellovitch, Dadí, Daniel Ponciano, Daniel Vardi, Dario Chaves, Denison, Denilson Reis, Diego Novaes, Douglas Nogueira, Duartte, Eder Santos, Ediel Ribeiro, Eduardo Schloesser, Eduardo Vetillo, Elson Souto, Ernani Cousandier, Evandro Luiz, Fabio Moraes, Fausto Bergocce, Fernando dos Santos, Flávio Luiz, Flavio Roberto Mota, Floreal, Franco de Rosa, Fredson, Gau Effe, Gazy Andraus, Gervásio, Gian Danton, Gilmar Machado, Giovanni Voltolini, Gonçalo Junior, Gualberto, Guidacci, Gustavo Machado, Guto, Henrique de Farias, Jal, Jayme Cortez, JBosco, João Antonio Buhrer, João Zero, Julio Emilio Braz, Julio Magá, Julio Shimamoto, Kendi Sakamoto, Klebs Junior, Klévisson Vianna, Latuff, Laudo, Lucas Libanio, Luciano Magno, Luis Carlos Fernandes, Luiz Antônio Sampaio, Luiz Carneiro, Luiz Iório, Lula Borges, Marcatti, Marcelo Herbst, Marcio Baraldi, Marcio César, Marcio XKid, Marco Muchão, Marcos Venceslau, Marcus Ramone, Maria Rita, Mario Latino, Melado, Moacir Torres, Moretti, Morettini, Mozart Couto, Murilo Moutinho, Nana, Natalia Forcat, Nei Lima, Nico, Nivaldo Wesley, Nobu Chinen, Octavio Aragão, Ohi, Omar Viñole, Osnei Roko, Osvaldo da Costa, Osvaldo Pavanelli, Osvaldo Sequetin, Ota, Paffaro, Patati, Paulo Batista, Paulo Capilé, Paulo Emman, Paulo Miguel dos Anjos, Paulo Monteiro, Paulo Ramos, Paulo Sergio, Pomba Claudia, Primaggio, Rafa Campos, Rafael Portela, Rafael Spaca, Raphael Fernandes, Riba, Ricardo Leite, Ricardo Soares, Rice Araujo, Rico Martins, Roberta Cirne, Roberto Elídio, Roberto Guedes, Rod Tigre, Rodolfo Zalla, Rodval Mathias, Rogério Faria, Rubens Francisco Lucchetti, Sebastião Seabra, Sergio Campelo, Sergio Ingres, Sérgio Más, Spacca, Suze Elias, Tako X, Tony Fernandes, Trilho, Uenderson, Ulisses Azeredo, Vasqs, Vilachã, Wagner Moloch, Waldomiro Vergueiro, Walmir do Amaral, Watson Portela, Will, William, Worney Almeida de Souza, Xalberto


André Hernandez
Já desenhou, editou e odiou. Agora está voltando a amar.

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