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Esse título acima foi exatamente a impressão final que tive ao deixar o Clube Homs em pleno coração da Avenida Paulista no domingo último. “Descolado” aqui eu usei no sentido de “solto”, “leve”, “intimista”.

Festival-GdQO festival, criado na “unha” e na “alma” por Edson Diogo para ser extensão do site homônimo e um grande encontro de colecionadores ávidos por novidades e raridades desse universo tão peculiar que é o das HQs, continua me emocionando depois de tanto tempo – na verdade desde o primeiro, quando ainda era chamado de “Mercado de Pulgas”.

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Foi nesse evento que conheci grandes amigos colecionadores como Renato Frigo – criador deste blog -, Wilson Simonetto, André Luiz Aurnheimer, Peter Mihajlovic, Cláudio Juris, Dedy Edson, José Braga, entre tantos outros; pude trocar figurinhas com criadores excepcionais como Will, Flavio Luiz, Marcatti, Carlos Herrero, Daniel Esteves, Laudo; e claro, levei pra casa dezenas de gibis raros e lançamentos com descontos, das prateleiras abarrotadas do “Celsão” Comic Hunter às fileiras infindáveis da Empório HQ  – para citar os mais constantes -, às grandes e pequenas editoras presentes em todos as edições.

festguia4

digitalizar1380Desta vez não consegui ir no sábado, o dia mais propício para encontrar “moscas brancas” e revistas lendárias, pois tive que ir a um casamento no interior de São Paulo bem no meio do dia. Mas tive a honra de cobrir o evento pelo menos por algumas horas – sim, eu tinha compromisso neste dia também – pelo Colecionadores de HQs, com direito à cartão de visita feito especialmente digitalizar1378para a ocasião pelo Renato Frigo, que foi no dia anterior.

Adentrei o Clube Homs um pouco antes do meio-dia, acompanhado pelos meus filhos/escudeiros Letícia, 15 anos e Gabriel, 17 anos. Já de cara fiz questão de cumprimentar o “culpado” por tudo isso, Edson Diogo, pelos 10 anos do site Guia dos Quadrinhos, um projeto que alcançou números impressionantes e é considerado o maior banco de dados e acervos de capas de gibis publicados no Brasil.

festguia5Vale acrescentar que o Edson tem uma equipe formidável que o ajuda na produção e conta com “braços direitos” em todo o processo, como Mauricio Muniz, Will e Wilson Simonetto, entre outros. No pouco tempo que tinha disponível, consegui conversar com muita gente, tirei fotos (menos do que devia, pois me empolguei nos bate-papos), colhi depoimentos e entrevistas e tive momentos inesquecíveis. Vamos a eles:

Wilson Simonetto e o tempo

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Wilson e sua batcaverna. Fonte: VejaSP

Considero o Wilson Simonetto um dos caras mais generosos que tive o prazer de conhecer nesse meio dos quadrinhos. Além de colecionador dos mais vibrantes (vejam aqui um pouco da sua coleção) é colaborador do site Pastel Nerd e Revista Mundo dos Super Heróis e está em todas quando o assunto é Quadrinhos (não à toa tem o apelido de “homem-evento”). Tal qual a primeira vez que nos conhecemos a uns bons anos atrás, continua com seu abraço caloroso, sua falta de arrogância e como eu, com seu filho por perto. Sua frase recente para uma reportagem sobre o festival na Veja SP dá bem a medida do seu jeito: “O barato de colecionar é poder fazer amigos que se interessam pelo mesmo assunto” (a matéria da Vejinha, aqui). Na frente de seu estande, constatamos que o tempo passa muito rápido, depois de vermos nossos filhos chegando à fase adulta – o dele com 19 anos e meu Gabriel às vésperas dos 18 – sendo que quando nos conhecemos em um dos primeiros ‘Mercado de Pulgas’, ambos eram pré-adolescentes.

Mas tudo ficou menos grave quando eu – ou foi ele? – fechou com a frase: “As Histórias em Quadrinhos nos rejuvenescem”. Essa verdade absoluta lacrou a saborosa conversa.

O livro do Alexandre Morgado

livromorgadoUm dos livros mais aguardados do ano, “Marvel Comics – A Trajetória da Casa das Ideias no Brasil” (Editora Laços) foi lançado no evento e eu fiz questão de pegar na mão, sentir a gramatura, folhear, cheirar as páginas e tudo o mais que se faz com uma obra tão esperada. A capa ficou ótima! E a disposição das capas em miniatura de várias edições cruciais na história, por várias editoras, à parte no final do livro foi uma das sacadas inteligentes da edição. Já estou lendo/devorando o calhamaço de 300 páginas, devidamente autografado. A linguagem direta e sem enrolação de Morgado faz a leitura fluir que é uma beleza.

digitalizar1379O livro era a grande atração, mas pra mim ficou um gosto ainda mais substancioso esse encontro, pois embora eu já tivesse conversado muito com o Morgado nas redes sociais e tenha uma grande parceria com ele aqui mesmo no site Colecionadores, ainda não o conhecia pessoalmente – em uma das edições anteriores do Mercado de Pulgas eu o avistei, mas não consegui alcançá-lo: enquanto eu entrava no evento ele saía com uma pilha gigantesca de gibis nas mãos, esbaforido, atravessando a rua! Enfim nos vimos – tinha que ser no Festival Guia dos Quadrinhos! – e de início já fiquei lisonjeado com a menção ao meu nome nos agradecimentos da obra. Um livro de fôlego, primordial para quem estuda os quadrinhos a fundo ou quer entender algumas passagens de personagens icônicos da Marvel pelas editoras brasileiras. Que venham outros, bravo Morgado!

Para quem não viu, o Renato Frigo entrevistou-o recentemente no CdHQs

A energia de Dedy Edson

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Rever o altivo e elétrico Dedy Edson, um dos maiores colecionadores de pôsteres de cinema e do personagem Fantasma é sempre um evento à parte! Sua energia e entusiasmo contaminam e animam qualquer um, além de ter sempre uma palavra de incentivo e otimismo na manga! Do alto de seus 79 anos, vem se dedicando com afinco ao universo dos cosplays, com direito à performances no palco e muita disposição. Neste ano participou inclusive da Parada Cosplay na Avenida Paulista que fazia parte das atrações do evento. Entre suas últimas façanhas, conseguiu lançar no ano passado seu livro “Dedy Edson Sespede: Fotobiografia” (Editora Matarazzo) , com 350 fotos. Estou em uma delas, ao seu lado,  exatamente durante uma edição do Mercado de Pulgas. Não tinha outro lugar pra ser!

A mala do Helio Guerra
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Da esquerda para a direita: André Luiz Aurnheimer, Luciano Lino, Paulo Maffia, Wilson Simonetto, Kendi Sakamoto e Helio Guerra. No centro: Alexandre Morgado. Foto: Helio Guerra

E por falar em Fantasma, outro dos maiores colecionadores do personagem também estava presente: Helio Guerra, presidente da Confraria do Gibi e um dos mais ativos entusiastas da nona arte. No animado estande da confraria, que tem seu QG oficial encravado na famosa feira de antiguidades da Praça XV no centro do Rio de Janeiro, estavam presentes também Carlos Arafatt, André Luiz Aurnheimer, Luciano Lino e Wagner Schwarz, entre outros. Uma pena que não pude conhecer pessoalmente o Edno Rodrigues – irmão do saudoso artista Edmundo Rodrigues – que estava no evento com a confraria apenas no dia anterior!

Depois de uma longa e divertida conversa, eis que Helio apanha de baixo da mesa uma mala enigmática, parecida com aquelas vendidas no Beco Diagonal dos filmes do Harry Potter e espalha no balcão parte de seu conteúdo: impecáveis números de O Globo Juvenil dos anos 40, tijolinhos da mesma época, Zé Carioca nº 1 (na verdade o nº 479 de 10 de janeiro de 1961), edições infantis raras e uma curiosa revista retangular com formato maior que aquelas do tipo “talão de cheques”. Tinha mais raridades naquela mala, mas acabei tão vidrado nos suplementos recheados de Brucutu, Lil’Abner (Ferdinando) e Fantasma que quando me dei conta, ficara mais de meia hora à beira daquela mala mágica, como que enfeitiçado. Gibis da Era de Ouro tem esse efeito em mim…

Mais Confraria: Wagner Schwartz, escapadas e uma linda homenagem!

polo machado1Encontrar a Confraria do Gibi nestes eventos de quadrinhos é uma verdadeira festa! A empolgação de seus membros contagia o ambiente e faz com que as conversas se estendam e as risadas se propaguem. Desta vez fui apresentado ao Wagner Schwartz, colecionador intrépido, principalmente em itens Disney – e outro que eu conhecia só pela internet. Discorremos sobre várias facetas do colecionismo e ele mencionou que voltou à ativa somente em 2015, quando decidiu reaver as maravilhas Disney de sua infância, desde os fascículos, álbuns e manuais até os almanaques e revistas mensais. E relembrou aqueles tempos em que para adquirir uma edição nova em banca, acabava sacrificando a merenda do dia! Para ele,  um hobby que vale qualquer esforço, pois comprovadamente a grande maioria que coleciona quadrinhos fica longe do mundo das drogas e do crime. Bem colocado, caro Wagner!

Quando fui conversar com mais calma com o chapa André Luiz Aurnheimer soube pelo Helio Guerra que ele e mais alguns confrades deram uma escapada do evento para algumas “visitas pré-estabelecidas” à cidade, em busca de itens raros e preciosos. Isso significa mochilas cheias na volta ao Rio de Janeiro e novidades na próxima feira da Praça XV!

Além do espírito festivo, a Confraria do Gibi preza também pelos laços de amizade que se formaram em torno de sua história. Polo Machado, artista expressivo, de uma simplicidade cativante, e muito atuante no grupo, faleceu em março deste ano de infarto fulminante e teve merecida homenagem, especialmente confeccionada para o evento.

A grande presença do João Spacca

festguia3 A edição 2017 do evento trouxe os artistas convidados Daniel HDR, Omar Viñole, Cristina Eiko e Paulo Crumbim e também diversos autores e desenhistas espalhados pelos estandes como Flavio Luiz, Marcatti, Laudo, Will, Daniel Esteves, Joel Lobo, entre outros. Consegui trocar breves figurinhas com quase todos eles. João Spacca, desenhista e roteirista de proa e um dos que injetam qualidade e conteúdo em tudo que faz há três décadas,  marcou sua presença no evento com a discrição e o foco que lhe é peculiar.

selva1Observar o Spacca trabalhando é realmente um ato que acalma a alma. Quando tive oportunidade, me apresentei a ele e o avisei que a entrevista do saudoso Renato Canini para o Sábados da Memória foi recentemente disponibilizado na página do HQMixTV – sabendo eu de sua participação na plateia naquela ocasião (a entrevista, de 2010, na íntegra aqui).

Ele agradeceu o toque e eu aproveitei para dizer que o acompanho sempre, desde os anos 80, no Pasquim, na Folha, na revista Níquel Náusea, até agora, em suas adaptações literárias e charges digitais. João Spacca faz parte de minha memória afetiva nos quadrinhos.

Um papo com Joel Lobo

lobofstguia O simpaticíssimo ilustrador, editor e quadrinhista Joel Lobo fez uma entrevista rápida e direta com exclusividade para os Colecionadores de HQs. Vamos a ela:

CdHQs – Joel, como foi o seu início nos quadrinhos?
JL – Eu sempre curti quadrinhos, desde sempre – mesmo antes de ler – e trabalhei com quadrinho empresarial e institucional durante muito tempo. Eu sou ilustrador há 25 anos e nesse tempo todo fiz muitos quadrinhos para agência, empresa de segurança, indústria farmacêutica. O primeiro trabalho autoral que eu lancei foi em 2015 com o Mauricio Muniz – o “Kris Klaus” – que é uma união inusitada das linguagens do terror com o infanto-juvenil, e logo em seguida a gente concebeu a “Selva”, que é uma revista mix, onde a gente chama vários autores para fazer várias histórias diferentes no espírito das revistas mix de antigamente, como Metal Hurlant, Pilote. O negócio é dar um espaço para mostrar gente nova para outros públicos.

Kris-Klaus-CAPACdHQs – Bem interessante. E a Selva, pelo perfil do projeto, terá uma continuidade então?
JL – A intenção é que ela seja periódica. A gente lançou o primeiro número na Quanta, uns dois meses atrás e o próximo número provavelmente sairá na Comic Con Experience no final do ano.

CdHQs – E há outros projetos, além deste?
JL – Sim. Estou cheio de projetos, mas infelizmente ainda não posso contar quais são…rs. Tem dois projetos grandes, um de 60 páginas e outro de 120 páginas que estão sendo produzidos agora.

CdHQs – Numa próxima ( muito próxima) você passa pra gente mais informações…
JL – Com certeza! No momento certo, eu passo pra vocês…

CdHQs – Obrigado, Joel Lobo!
JL – Eu que agradeço!

José Braga e a arte de colecionar quadrinhos

Outro grande amigo que arregimentei nesses anos é o digníssimo José Braga, do Castelo de Caixas, contumaz participante de eventos de quadrinhos e colecionador das antigas. Ele também deu seu depoimento, com foco na nossa grande paixão, o colecionismo de HQs:

CdHQs -Caro José Braga, o que é ser um colecionador de HQs?
JB – Colecionador de HQs é guardar um pedaço da infância; guardar um bom momento; melhorar um fim de semana; satisfazer uma ambição; é saber que você tem a coleção completa; é não dormir porque você não tem a coleção completa…rs; é cultura, diversão; é pra todas as idades; é pra vida inteira. Isso tudo é ser colecionador de HQs!

CdHQs – E desde quando você é um colecionador de quadrinhos?
JB – Começo dos anos 60! Eu comecei com Disney. Não tenho mais esse gibi da infância, mas o consegui depois – O Pato Donald com a história do Carl Barks chamada “A Balsa Alegre”. Eu não sabia ler ainda, só sabia ver!

CdHQs – Eu também fui alfabetizado com os gibis Disney…
JB – Exatamente. Depois as amigas da minha avó nos visitavam e traziam gibis. Para as minhas irmãs traziam Disney, Bolinha, Luluzinha e pra mim Superman e Batman. A primeira história que eu li do Superman foi quando o Clark Kent entrou para o Planeta Diário! Rsrs. A partir daí comecei a ler… os gibis da EBAL eram muito legais para começar a ler pois trazia a gramática que se ensinava na escola, não era coloquial… era literário! Aí não parei mais!

CdHQs – Muito bom! Obrigado por esse depoimento, Braga!
JB – Valeu!

Kirby e Mitsunaga

OS_MUNDOS_DE_JACK_KIRBYOs dois grandes homenageados desta edição do FGQ foram Jack Kirby, “The King”, e Lilian Mitsunaga, uma das primeiras mulheres que desbravaram o mercado como letrista, quando a profissão ainda não era reconhecida. Lilian participou de um grande bate-papo com o público no sábado, contando os bastidores da redação de super-heróis na época da Editora Abril, entre outras curiosidades. Kirby completa 100 anos em 2017 e foi homenageado no evento com exposição inédita baseada em páginas do livro “Os Mundos de Jack Kirby: Um Tributo ao Rei dos Quadrinhos”, com 100 artes exclusivas de artistas brasileiros homenageando o mestre. No evento, alguns artistas participantes do projeto estavam autografando exemplares – a obra, produzida e idealizada pela organização do Festival Guia dos Quadrinhos está arrecadando recursos pelo Catarse. A outra exposição paralela, “50 Anos da Marvel no Brasil”, foi baseada no já citado livro  “Marvel Comics – A Trajetória da Casa das Ideias no Brasil” (Editora Laços), de Alexandre Morgado.

Até o próximo!

Não pude rever os amigos que foram no sábado – Renato Frigo, Francisco Ucha, Marcelo Alencar, Gonçalo Junior, Adriano Rainho – e meu tempo no domingo foi curto; além dos citados na matéria, cumprimentei rapidamente o Paulo Maffia (a postos na super banca da Abril), o pessoal da Comix, Guilherme Kroll da Balão Editorial e Manoel de Souza da Mundo dos Super Heróis. Estava “durango kid” e pela primeira vez evitei mergulhar nas prateleiras em busca de relíquias. Mas no fim das contas, por tudo que narrei até aqui, valeu a pena! Levei pra casa o livro da Marvel (claro; imperdível) e alguns gibis que adquiri em trocas (de noite sonhei com os “Globo Juvenil” do Helio Guerra…rsrs). Ah, vale lembrar também dos lindos cards com capas da Marvel, criados especialmente para a ocasião e oferta da casa.

Abracei meus filhos e rumei para o Grande ABC, com aquele tipo de alegria no coração que só os colecionadores e apaixonados pelas HQs conseguem sentir. Valeu Festival Guia dos Quadrinhos! Até o próximo!

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Marcos Massolini
Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

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