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A primeira vez que ouvi o nome do Roberto Guedes, foi na época do lançamento do seu fanzine “Gibilândia”, comprada na antiga loja de São Paulo chamada ” Muito Prazer”. “Gibilândia” foi um fanzine dedicado ao universo Marvel, o Quarto Mundo de Kirby e aos 40 anos do Homem Aranha.

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Roberto Guedes nasceu em São Paulo, no tradicional bairro do Ipiranga. Assim como a maiorias de nós, começou a acompanha as histórias em quadrinhos desde criança, com as histórias de terror, Fantasma e com o universo Marvel, entre outros. Dessa época, Roberto já escrevia e desenhava as suas próprias histórias e criou personagens como Os Protetores, Guepardo, Meteoro, publicando-os de forma independente. Foi editor em várias editoras, entre elas Opera Graphica e Panini, onde trabalhou em diversos títulos.

Escreveu vários livros teóricos: “Quando Surgem os Super-Heróis” e a “Saga dos Super-Heróis Brasileiros”, ambos publicados pela Opera Graphica. E “A Era de Bronze dos Super-Heróis”, pela HQM editora. Lançou também em 2012 o livro ” Stan Lee – O reinventor dos Super Heróis”. Em breve teremos o lançamento do seu mais novo trabalho, ” A Era Moderna dos Super-Heróis”, também pela HQM.

Guedes ganhou por duas vezes o prêmio Angelo Agostini por “Melhor Editor” e o troféu Jayme Cortez, por incentivo ao Quadrinho Nacional.

Também escreveu para a Revista Wizmania da Panini. Atualmente mantém uma coluna na revista “Mundo dos Super Heróis”. Além disso, Guedes também fez uma entrevista com Stan Lee, a única feita por um brasileiro. Além de Lee, também entrevistou Marv Wolfman, Tom DeFalco e Roy Thomas (quatro ex-editores chefes da Marvel), tendo inclusive contribuído para o” Alter Ego”, fanzine de Roy Thomas.

Roberto Guedes é o homem das mil e uma utilidades. Além de colunista, escreve, desenha, edita, pesquisa e ainda mantem o seu próprio blog, o Guedes Manifesto.  Nessa super entrevista, iremos conhecer um pouco mais sobre Roberto Guedes. Tá falado!

Como foi o seu primeiro contato com as HQs?
Foi na infância, com revistas de terror da Editora Taika, feitas por autores brasileiros. Acho que por volta de 1975. Na mesma época também conheci os gibis do Fantasma, de Lee Falk, pouco antes de a RGE passar para o formatinho. Em seguida, comecei a comprar os Heróis Marvel que estavam saindo pela Bloch, e os da DC, pela EBAL, ainda em formato americano.

11282123_875126955869028_1274584425_nE como começou a sua carreira profissional nos quadrinhos?
Foi meio por acaso. Desde moleque eu criava minhas próprias histórias – escrevendo e desenhando tudo -, mas não conhecia ninguém que pudesse avaliar o material. Até que, em 1988, eu mandei uma carta pro editor Gilberto Firmino da revista Porrada – uma publicação de quadrinhos underground, da GED (Galvão Editora e Distribuidora). Ele publicou minha carta e respondeu algo como: “Guedes, você tem de matar a cobra e mostrar o pau. Traz suas histórias aqui na redação pra eu conferir” [risos]. E foi o que eu fiz. Pra minha surpresa ele comprou todas.

Fale-me sobre o selo criado por você, “Fire Comics”. Seu personagem Meteoro surgiu nessa época?
Antes do selo “Fire Comics”, eu havia criado o “Status Comics”. Ambos surgiram da minha necessidade em querer publicar quadrinhos de super-heróis. Depois da GED eu conheci os editores Tony Fernandes e Wanderley Felipe da Editora Phenix. Eles publicaram algumas HQs de humor de minha autoria, daí mostrei pra eles as do Meteoro (eu já tinha quatro delas prontas). O Tony vinha publicando revistas de super-heróis há algum tempo e curtiu muito o personagem, exceto pela arte. Aí ele passou meu roteiro pro Cláudio Vieira desenhar. Infelizmente, quando o Cláudio entregou o serviço, a editora estava fechando as portas. Foi aí que eu comecei a lançar meus personagens em revistas independentes: Meteoro, Protetores, Guepardo, etc.

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Qual foi o seu melhor aprendizado em publicar todos aqueles títulos?
Foi uma dureza, pois eram bancados com meus próprios recursos, e eu mesmo tinha de correr para distribuir as revistas em bancas e lojas especializadas. De qualquer forma foi um aprendizado, e conheci muita gente boa e talentosa – como o Joe Prado, que produziu comigo a primeira versão de Os Protetores, em 1992. Teve também o Marcelo Borba, que chegou a ganhar um prêmio Angelo Agostini por causa do Meteoro, o Reginaldo Borges, o André Valle e tantos outros caras legais.

10937582_875127572535633_1254917283_nMeteoro tem sido publicado sem uma periodicidade certa. Você tem planos para a série ser mensal?
O Meteoro esteve em vias de ser publicado por três editoras diferentes, mas nunca passou das promessas.
A única que efetivamente lançou uma revista do personagem foi a Escala, em 2002 – justamente na ocasião que a editora estava parando com suas revistas em quadrinhos. Em 2007, o José Salles me ofereceu a oportunidade de republicar HQs antigas do Meteoro pela sua independente Júpiter II. Então lançamos três edições em parceria da revista “Meteoro Comics”. Em seguida criei meu próprio selo, o “Guedes Manifesto”, e lancei o “Almanaque Meteoro”, com novas histórias do Meteoro, de outros personagens de minha autoria – e até mesmo de outros autores. Infelizmente, dada a situação econômica, não há como o gibi ter uma periodicidade mensal.

Como você vê os fanzines hoje em dia no atual mercado nacional?
Confesso que não acompanho mais com muito afinco o cenário alternativo – exceto quando alguém me envia algum material pra saber minha opinião. De qualquer maneira, pelo que constatei, continua efervescente, com muitos talentos aparecendo aos borbotões. E com a consagração das redes sociais, hoje em dia está muito mais fácil divulgar qualquer trabalho. Pena que isso não existia nos anos 1980 e 1990…

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Depois da época da Fire, você foi trabalhar na Opera Graphica, como que aconteceu esse convite?
Desde 2001 eu editava um fanzine chamado “Gibilândia”, com reportagens quilométricas dedicadas à Marvel, DC, Quarto Mundo de Kirby, etc. Toda hora eu tinha de repor exemplares nas gibiterias (Devir, Muito Prazer, Comix), até que um dia, no começo de 2002, o Franco de Rosa ligou em casa, pedindo pra eu dar um pulo na Opera Graphica e falar com o sócio dele, o Carlos Mann. Eu achava que iam me passar apenas algum serviço de tradução, mas ao chegar lá, o Carlos estava com um exemplar do Gibilândia nas mãos, e me disse basicamente o seguinte: “Parece que você conhece um pouco esses personagens, né? Quer trabalhar conosco como editor?”. Eu respondi que sim. [risos]

stripmania-01-opera-graphica-excelente-gibizada-14278-MLB47390143_8038-OUns dos primeiros trabalhos que você teve como editor foi com a revista “Stripmania”. Como foi pra você trabalhar com as histórias do Homem Aranha da dupla “Stan Lee e John Romita”? Além de outros títulos como “Livros da Magia” de Neil Gaiman, “Gerações” de John Byrne, “Batman Saga”, “Superman” do Alan Moore, entre outros?
Foi maravilhoso! A Opera era uma editora pequena, mas tínhamos muita liberdade criativa. Um dia eu disse que poderia ser legal ter nas revistas um boletim ao estilo do “Marvel Bulletins”, com uma coluna escrita pelo Franco, como a “Stan’s Soapbox”, e os chefes aprovaram na hora. Só que pra minha surpresa, o Franco disse que a coluna “Bate-Papo” tinha de ser escrita por mim – e assim o foi, até o final da editora. Já a respeito da “Stripmania”, o Franco veio com o nome e o formato, mas a sugestão pra inserir as tiras do Aranha foi minha. Algumas capas também eram esboçadas por mim, pelo Franco e pelo editor de arte, o André Hernandez, antes de passarmos pro desenhista em questão realizar o trabalho. Também me orgulho de ter editado o trabalho de vários mestres do quadrinho nacional, como Shimamoto, Colonnese, Zalla, entre outros.

Você também foi o editor dos Novos Deuses na Opera Ghaphica. Na sua opinião, por que “Novos Deuses” foi publicado com tanto atraso no Brasil?
No caso da EBAL eu só posso supor. Imagino que os editores acharam o material de Kirby hermético demais, de difícil compreensão. Tanto que dos títulos que compunham “O Quarto Mundo”, a EBAL só publicou as HQs de Jimmy Olsen, pois esse personagem já tinha revista própria pela editora. E o fato de Superman ser uma presença constante no título também ajudava. Quanto à Abril, assim que adquiriu os direitos da DC, se apressou logo em adiantar a cronologia dos personagens – nessa, Novos Deuses e Cia ficaram pra trás.

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Quem lhe conhece e te acompanha nas redes sociais, sabe que o seu personagem favorito é o Homem Aranha. Na Panini, você teve a oportunidade de trabalhar com vários títulos, entre eles alguns do Homem Aranha: “Homem-Aranha Grandes Desafios”, “Biblioteca Histórica Marvel- Homem-Aranha” e os “Maiores Clássicos do Homem Aranha. Acredito que tenha sido um sonho realizado, não?
Foi legal, mas poderia ter sido melhor. O problema da Panini é que praticamente não existe liberdade editorial. Tudo já vem mastigado da matriz italiana, e você só tem de montar a revista. É bastante profissional, claro, mas meio frustrante do ponto de vista criativo.

Qual é a sua fase do Aranha preferida de todos os tempos?
Sem dúvida nenhuma, a fase inicial de Stan Lee com Steve Ditko e John Romita.

Vamos falar sobre os seus livros. Você escreveu o “Quando Surgem os Super-Heróis”, depois o “A Saga dos Super-Heróis Brasileiros” (ambos pela Opera Graphica) e depois “A Era de Bronze dos Super-Heróis” (pela HQM Editora). Como foi o trabalho e as pesquisas por trás dessas publicações?
Pesquisar pra mim é relativamente tranquilo. Faço pesquisas desde o final dos anos 1980, quando comecei a editar meus fanzines. E ainda hoje faço isso, pra revista Mundo dos Super-Heróis. No caso específico dos livros, o primeiro talvez tenha sido o mais difícil por falta de experiência. Nos outros eu já estava mais solto. Todos me deram muita satisfação, inclusive pelo fato de poder entrevistar muitos autores que sempre admirei.

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Você pretende publicar mais algum livro seguindo essa linha das eras dos heróis?
Sim! Já está pronto o livro “A Era Moderna dos Super-Heróis”, que cobre o período de 1986 até o presente. A HQM Editora chegou a noticiar o livro em seu site o ano passado. Apesar do atraso, o editor Carlos Costa, comentou comigo que pretende lançar a obra ainda em 2015. Vamos torcer! [risos]

Quais “eras” dos heróis você mais gosta? Qual mais lhe agrada?
As minhas preferidas são as eras de Prata e Bronze.

Você acha que gibis de “Super-Heróis brasileiros” funcionam no nosso mercado nacional? Como competir com Marvel e DC, por exemplo?
Creio que sim, mas teria de ser feito da maneira certa – coisa que nenhuma editora se propôs a fazer em tempos passados. Antigamente, as histórias de heróis brasileiros traziam argumentos e diálogos fracos, e desenhos relaxados. O leitor percebia que aquilo era feito com má vontade, e não prestigiava. Hoje temos um monte de desenhistas muito bons, perdidos por aí em suas histórias mal trabalhadas – editorialmente falando. Tenho a plena convicção que se o Mauricio de Sousa se metesse a fazer super-heróis, com certeza emplacaria uma meia-dúzia de gibis. Simplesmente porque ele tem o know-how da produção e a estrutura adequada pra tocar um projeto desses.

Vamos falar sobre o Stan “The Man” Lee. Ele é a sua maior influência? O que ele representa pra você e para os quadrinhos?
Ah, sim! Ele foi o maior dos editores de super-heróis. Como roteirista, alguns até escrevem melhor do que ele, mas as HQs assinadas por Stan continuam sendo as mais legais! E, convenhamos, no final das contas é isso o que importa, não é?

Você fez uma entrevista com ele (publicada na revista “Wizmania” #50). Como foi pra você fazer essa entrevista?
Simplesmente sensacional! Na época, eu cheguei a ele por meio de um amigo em comum. Stan me disse que estava com um pequeno espaço em sua agenda, mas que poderia responder algumas poucas perguntas de maneira breve. Desde então mantenho um contato esporádico com Stan, e ele sempre é muito gentil e receptivo comigo.

roberto-guedes-livro-stan-lee-capaDepois da entrevista é que você decidiu escrever o livro “Stan Lee – O Reinventor dos Super-Heróis”, ou a ideia já existia antes da entrevista?
A ideia só surgiu anos depois, e acho que foi uma sugestão do jornalista Gonçalo Junior. Algo como: “Guedes, o que você está esperando pra escrever a biografia do Stan Lee?”. [risos]

Você colaborou na revista “Alter Ego” editado pelo Roy Thomas. Como foi essa experiência pra você?
Lá pelos anos 1990 eu era um leitor ávido das revistas da Twomorrows, e assim que a editora relançou a “Alter Ego” eu mandei uma carta pro Roy (nada de e-mail, papel mesmo), comentando que o primeiro gibi Marvel que eu tinha lido na vida era um do Namor, com roteiro dele e desenhos do Sal Buscema. Ele me enviou uma resposta enorme com várias informações adicionais. O Roy tem aquele espírito de fanzineiro. Adora falar de quadrinhos. A partir daí passei a colaborar informalmente com a “Alter Ego”, enviando imagens de gibis da EBAL, pra ele ilustrar uma ou outra matéria. Até que um dia, surgiu a oportunidade de escrever o artigo sobre as HQs dos X-Men feitas pela GEP nos anos 1960. Vale lembrar que entrevistei Roy duas vezes: pra “Wizmania”, e outra, mais recentemente, pra “Mundo dos Super-Heróis”. Roy é o cara!

Como você vê a Marvel e a DC em relação aos quadrinhos nos dias de hoje?
Com raríssimas exceções, acho que as revistas de ambas estão muito ruins. Deviam pegar os caras que produzem os filmes da Marvel pra fazerem os gibis. Eles, sim, entendem do riscado.

Roberto, obrigado pela entrevista! :-)

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Alexandre Morgado
Coleciona quadrinhos desde sempre, ama John Byrne e mais uma penca de artistas!!!

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