03-06-2015

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Entrevista | Marcelo D’salete: A voz das ruas

Marcelo D’salete é um artista completo. Marcelo é graduado em Artes Plásticas e mestre em História da Arte pela Universidade de São Paulo. Além de quadrinista e roteirista, Marcelo trabalha também com ilustrações, principalmente para livros infantis. Já trabalhou com animação em stop motion e participou de várias exposições pelo mundo, mostrando um pouco de sua arte.

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Publicou a sua primeira história em quadrinhos em 2001 na revista “Quadreca”, revista que reunia vários autores. Seus trabalho com quadrinhos têm sido publicado em diversas revistas brasileiras. Além da “Quadreca”, podemos conferir um pouco de suas histórias em várias outras publicações, como “Contos Bizarros”,”Front”, “Graffiti”, entre outras.

noite luz capaLançou em 2008 o primeiro trabalho solo, onde escreve e desenha: “Noite Luz”, publicado pela Via Lettera. Em seguida, “Encruzilhada”, publicada pela Leya em 2011, onde Marcelo conta um pouco de suas experiências em relação a cidade em que nasceu – no caso a cidade de São Paulo.

Depois foi a vez de “Cumbe”, publicado em 2014 pela editora Veneta. Cumbe é um trabalho que começou a ser produzido em 2006, quando Marcelo leu as histórias sobre”Palmares”, trabalho esse que exigiu muitas pesquisas em torno desse período da escravidão. “Cumbe” foca no ponto de vista e na resistência dos escravos, na época do Brasil colonial.

Após “Cumbe”, Marcelo publicou o seu último quadrinho, “Risco”, lançado pela editora Cachalote, que segue mais ou menos a mesma linha de “Encruzilhada”.

Nessa entrevista, Marcelo conta com exclusividade o seu próximo projeto, entre outras coisas!

Onde você nasceu?
Nasci em São Bernardo do Campo e quando menor morei em São Mateus e Artur Alvim, zona leste de São Paulo.

quadreca-n12-13970-MLB3818086240_022013-FQual foi o seu primeiro trabalho publicado nos quadrinhos?
Minha primeira publicação foi na “Quadreca” nº 12 em 2001. Era uma HQ baseada num conto do músico e cineasta Kiko Dinucci. O trabalho do Kiko já tinha algo que apreciava e muito, que é tratar de conflitos bem urbanos.

Além de quadrinista, você também é ilustrador de livros infantis. Você tem alguma preferência, ou o prazer é o mesmo na hora de desenhar?
Fiz diversos livros infantis. Este é um bom formato para trabalhar com cores. É algo diferente dos quadrinhos. Gosto de fazer os dois trabalhos, mas acabei me dedicando mais aos quadrinhos ultimamente.

Você acha que o seus desenhos ficam melhores em preto e branco?
Aprecio demais desenhos em PB. Provavelmente por causa de autores como Alberto Breccia, Muñoz, Flávio Colin, Hugo Pratt etc. Mas tenho planos de no futuro usar cores também.

Sobre a animação que você fez com os músicos do Metá Metá…como surgiu esse projeto?
O Kiko Dinucci é um velho amigo com um trabalho musical excelente. Ele me convidou para participar do projeto e não pude recusar. Foi um experimento de animação em stop motion interessante.

Várias de suas histórias foram publicadas em diversos títulos durante os anos. Na revista “Front”, na “Graffiti”, “Quadreca”, entre outros. Você já pensou em fazer um compilado desse material ?
Não. Esses trabalhos foram feitos em momentos bem específicos. Não considero interessante publicá-los agora.

Você participou de algumas exposições: em “Consecuencias do Injuve” na Espanha, no “Festival Internacional de Historietas de Buenos Aires”, Argentina, em “La Bande Dessinée d’Alger”, Argélia. Como foram essas experiências pra você?
É ótimo poder participar de exposições e eventos em outros locais e países. Nesses eventos, conheci excelentes artistas. E todo artista comunica-se, de uma forma ou de outra, com as obras que vê ao seu redor.

Vamos falar sobre “Cumbe”. Como foi o estudo que você fez pra desenvolver essa HQ?
“Cumbe” surgiu a partir de uma vasta pesquisa sobre o Brasil colonial e a escravidão. Me interessei principalmente pelos casos mais particulares sobre o tema. As histórias do livro “Cumbe” surgiram inicialmente a partir disso. Mas foi preciso estudar muito cumbesobre os traços culturais desses povos africanos que chegaram aqui no passado, principalmente bantos. O escritor Allan da Rosa ajudou-me bastante a perceber as possibilidades de uso da linguagem neste contexto.

Em “Cumbe”, você contou a história sobre o ponto de vista dos escravos. Você concorda que esse é um dos maiores pontos positivos desse seu trabalho?
Tentei levar o foco para os personagens negros escravizados. Não foi algo simples. Mas sim, este é um dos elementos mais interessantes da narrativa. Alem disso, é possível observar que eles atuam e sobrevivem em diferentes contextos da sociedade escravista brasileira.abertura-cumbe-dsalete-c2

risco_capaA HQ “Risco” é sobras de “Encruzilhadas”, ou é apenas uma continuidade da temática?
A primeira versão da HQ “Risco” fiz logo depois do livro “Encruzilhada”, em 2011. Depois de um tempo, revi a história para publicá-la pela Cachalote. Não é uma sobra, é uma HQ que traz diversos elementos comuns as minhas histórias mais urbanas.

capa_encruzihada-mSeus trabalhos abordam os contextos urbanos em nossa sociedade como conflitos sociais, discriminação e racismo. Na sua visão, como podemos lutar por uma igualdade justa para todos? O que pode ser feito para acabar com a desigualdade social?
Uma sociedade que tem como princípio o lucro desenfreado não pode beneficiar a todos. Imagino que seja preciso pensar em outro tipo de estrutura social. O racismo foi algo criado por essa sociedade e ele pode acabar, mas com certeza isso não é algo fácil e rápido.

Você acha que falta mais quadrinhos que abordem esses temas?
Quando menor, lembro que havia poucos quadrinhos abordando esses temas. Hoje tem um pouco mais, mas ainda é preciso uma maior discussão sobre o assunto. A forma de representação dos grupos marginalizados da sociedade, por exemplo, ainda merece muita reflexão. É importante problematizar e superar os estereótipos midiáticos sobre raça, gênero etc. As HQs podem colaborar na discussão dessas formas e possibilidades de representação.

Uma das maiores expressões de voz dos excluídos é o graffiti. Você acha que os quadrinhos podem se tornar voz tão forte?
São formas diferentes de arte. Operam em suportes diferentes. Mas os quadrinhos podem trazer discussões tão fortes quanto o graffiti ou as demais artes. É um meio de grandes possibilidades.

Quais são os artistas que mais lhe inspiraram?
Katsuhiro Otomo, Peter Kuper, Mutarelli, MIchelanxo Prado, Flávio Colin, Mattotti, Alberto Breccia, Laerte, Michael Haneke, Takeshi Kitano, Spike Lee, Mahamat-Saleh Haroun, Toni Morrison, Plínio Marcos, entre muitos outros.

Você está trabalhando em uma nova HQ? Teremos alguma novidade em breve?
Estou desenvolvendo uma HQ com cerca de 350 páginas, sobre o Quilombo dos Palmares, batalha que aconteceu no século XVII do Brasil colonial. Este é, com certeza, meu maior projeto no momento. Pretendo ter tudo pronto até o final de 2016.

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Alexandre Morgado
Coleciona quadrinhos desde sempre, ama John Byrne e mais uma penca de artistas!!!

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