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colunista_AlexandreMorgadoCerta vez vi um rapaz com uma camiseta com os seguintes dizeres: “Infância com quadrinhos é outra coisa”. Essa frase se aplica bem ao editor da revista “Mundo Dos Super-Heróis”, Manoel De Souza. Manoel, que desde criança lia e fazia os seus próprios gibis, cresceu lendo de tudo: Disney, Turma da Mônica, DC e Marvel. Além de fazer seus próprios quadrinhos, Manoel também produziu o seu próprio fanzine chamado “Ovo”.

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Mundo Nerd 311830118_765865703521893_1219777400_nTrabalhando a mais de 20 anos na Editora Europa, conseguiu realizar um dos seus sonhos de criança, ao editar a sua própria revista sobre quadrinhos. Além da revista Mundo dos Super-Heróis, que já está na 70°edição, Manoel também é editor da “Mundo Nerd” revista focada em série de TV, filmes etc.

Outra publicação de sua responsabilidade é a edição especial da MSH, Grandes Artistas, que teve como estreia um dossiê sobre “Stan Lee”. Nessa entrevista, Manoel conta detalhes da sua vida de colecionador, da sua trajetória profissional, seus gostos pessoais e outras curiosidades!

Onde você nasceu?
Em São Paulo, SP, mais precisamente na Freguesia do Ó, em outubro de 1973. Em 1980 minha família se mudou para Franco da Rocha, na Grande São Paulo, e só voltei a me fixar na capital em 1997. Desde então, moro no Butantã, próximo à Rodovia Raposo Tavares e pertinho da sede da Editora Europa, onde trabalho há 21 anos.

Como começou seu fascínio pelos super-heróis?
Isso vem de muito, muito tempo. Desde minha infância sempre curti gibis e lia bastante coisas da Mônica e da Disney. Mas fiquei viciado para valer no assunto a partir de 1985, quando tinha 11 anos e alguns amigos da escola me apresentaram as revistas da Marvel/Abril. Dali em diante, não parei mais e comecei a ler de tudo: Marvel, DC, europeus, quadrinhos nacionais, underground…

Sei que você fazia seus próprios gibis. Você ainda tem essas suas criações?
Sim, estão todos bem guardados em um baú. Tenho o maior carinho por essas revistinhas feitas à lápis em papel sulfite. Foi o começo de tudo que sou hoje.

Primeira revista 1987 blackout 9 Primeiras HQs 1986a Primeiras HQs 1986b

Você também já produziu fanzines?
Sim, durante o período em que cursei Desenho de Comunicação na Escola Técnica Carlos de Campos, no Brás, entre 1989 e 1992. Junto com uns amigos, criei o fanzine Ovo, que teve seis edições e publicou umas 200 páginas com nossos quadrinhos, cartuns, desenhos da época. O fanzine era todo PB, impresso em xerox. Foi algo tão bacana na vida dos envolvidos que muitos desses amigos do colégio hoje são colaboradores da Mundo dos Super-Heróis.

blog-mundo-01E como surgiu a oportunidade de editar a Mundo?
Bem, a história é longa e tenho até um texto pronto para explicá-la. É esse aqui: quando comecei a desenhar em 1985, já bolava minhas próprias revistinhas. Nunca separei as coisas, pois gostava de tudo: roteiro, desenho, edição. Depois virei fanzineiro no começo dos anos 1990, quando editava o Ovo. Depois que me formei no colégio técnico em 1993, trabalhei um tempo como ilustrador e depois caí de cabeça no design gráfico de revistas, pois gostava muito daquele universo. Mesmo não trabalhando diretamente com quadrinhos, fiquei anos planejando uma revista sobre o tema. Por volta de 2003, isso ficou mais sério, pois consegui convencer os diretores da Editora Europa, onde eu já trabalhava desde 1994, a criarmos uma edição especial da Revista dos Curiosos, publicação editada pelo jornalista e escritor Marcelo Duarte. Na tal edição, chamada de Mundo Pop, eu falaria sobre cinema, séries de TV e – é claro – quadrinhos. Esse foi o embrião da Mundo. Infelizmente, a Revista dos Curiosos foi descontinuada e meu projeto ficou de lado. Dois anos e pouco depois, consegui convencer os mesmos diretores da Europa a lançar um especial sobre o Superman para pegarmos rabeira na estréia do filme do Bryan Singer. Fiquei meses desenvolvendo o projeto, mas rolou outro problema: de repente não pareceu uma boa ideia criar uma revista inteira focada apenas em um personagem. Isso poderia gerar problemas com os direitos autorais e licenciamento. Como consequência, um mês antes do lançamento, tive que reestruturar completamente o projeto. Na hora fiquei muito frustrado, mas hoje vejo que foi uma oportunidade de ouro para deixar a revista do jeito que eu sempre sonhei, com seções bem diversificadas sobre heróis e artistas de diversas épocas. Em resumo: criei a revista que eu gostaria de ver nas bancas e não encontrava. Isso foi há nove anos e o projeto deu certo.

Mundo69 Poster 2 versoA Mundo, que já está na edição 69, é a única revista impressa mensal que fala de HQs. Como é possível, nos dias de hoje, um título que atende um nicho tão específico concorrer com a internet?
Sempre digo que a internet mostra as peças do quebra-cabeça. Nós o entregamos montado. Nossos diferenciais são matérias mais aprofundadas e a qualidade do serviço prestado ao leitor. Temos sorte também que nosso público, na faixa dos 30 aos 45 anos, ainda é fissurado pelo impresso e ainda não se rendeu totalmente ao digital.

Mundo69 MultiversityA partir da edição 26, a Mundo deu uma mudada editorial, introduzindo também séries de TV, filmes, animes… e, a partir da edição 42, voltou a focar mais nos quadrinhos. Foi por causa dessa mudança que nasceu a revista Mundo Nerd?
Sim. A ideia inicial a partir da edição 26 era deixar a Mundo com uma gama bem maior de assuntos. Mas o resultado ficou meio bizarro, pois uma edição tinha o Batman, a outra o Hobbit, a outra 007… Com universos tão distintos, ficava difícil fidelizar o leitor. Por isso, decidimos criar duas revistas que se completam. A Mundo voltou às origens, aos super-heróis, e focou em assuntos que estão em evidência no momento e explora o passado dos personagens. Já a Mundo Nerd também faz esse trabalho, mas tem um pé principalmente nas franquias nerds do cinema e da TV.

Alguns personagens fora do universo Marvel e DC nunca tiveram uma matéria de capa na Mundo. Personagens como Juiz Dredd ou outros, dos universos da Valiant e da Image Comics, por exemplo. Como fazer com que nosso mercado de quadrinhos seja bem sucedido se, às vezes, nós mesmos não colaboramos?
Bem, nossas capas são escolhidas pelo potencial de venda, não para ajudar o mercado ou agradar determinadas editoras ou certos nichos de leitores. A melhor colaboração que posso dar ao mercado é criar uma revista que perdure nas bancas e continue mostrando aos leitores como o mundo dos quadrinhos é fascinante. E isso só será possível se tivermos boas vendas. Se eu colocar o Dredd ou algum herói da Image ou Valiant, a venda despencará. Ah, já fizemos sim uma capa da Image: The Walking Dead, na Mundo 31.

Manoel e Steve Englehart
Manoel e Steve Englehart na Fest Comix 2015

Você se declara mais marvete que decenauta. Por que?
Tenho bom gosto (rs). Na verdade, fui capturado pela Marvel quando lia os formatinhos da Editora Abril. Por isso, sempre vejo a Marvel de uma maneira especial. E, cá para nós, atualmente a DC não tem ajudado muito a mudar minha opinião.

Você já visitou a Comic-Con. Conte como foi participar do evento?
Visitar uma Comic-Con é sempre chegar à conclusão de ter nascido no país errado (rs). Visitei a convenção de San Diego em 2008 e a de Nova York de 2011, 2012 e 2013. Adorei todas elas e fiz algumas matérias na Mundo contando essas incríveis experiências. Pretendo encarar mais uma convenção em breve.

Manoel e o grande Jim Steranko na Comic-Con

Quais são suas HQS preferidas de super-heróis?
A lista é enorme. Não caberia aqui. Mas posso dizer que atualmente estou viciado no Demolidor do Mark Waid.

E fora do mundo dos heróis, quais HQS você mais gosta?
Bom, essa lista é maior ainda e tem muita coisa brasileira. Para resumir, eu colocaria tudo que foi publicado pela Circo Editorial de 1984 a 1989. O material desse período é sensacional e comecei a respeitar ainda mais os caras quando tive chance de trabalhar rapidamente com eles no segundo semestre de 1990, quando fui assistente do cartunista Luiz Gê. Considero a Chiclete com Banana e a Circo as melhores revistas brasileiras de quadrinhos já criadas. Em segundo lugar vem a O Bicho, da década de 1970.

Você também é colecionador? O que você tem de raridade na sua coleção?
Sim. Antes de lançar a Mundo, meu tempo livre era bem maior e vivia organizando e catalogando minhas revistas em Excel e tal. Mas hoje a coisa está meio bagunçada e basicamente guardo os quadrinhos que foram especiais em algum momento da minha vida e os que podem ser úteis em matérias na Mundo e Mundo Nerd. Aliás, tenho uma história curiosa sobre coleção. Quando eu lia as revistas da Abril no meio dos anos 1980, nunca consegui ter dinheiro suficiente para montar uma coleção. Muitas vezes eu vendia papel e lata para um ferro velho e aí conseguia comprar uns gibis usados numa banca no centro de Franco da Rocha. E sempre que eu conseguia juntar dois gibis, voltava na tal banca e trocava por um. Fiz isso por muitos anos e, por isso, nunca consegui montar uma coleção. Muito tempo depois, em 1997, eu estava em Jundiaí esperando minha namorada sair do trabalho e vi um anúncio no jornal de um cara vendendo uma enorme coleção da Abril, Ebal, Bloch… Tudo por R$ 1 cada revista. Fui lá com o fusquinha do meu pai e comprei uns mil gibis de uma vez. Lotei o fusca de revistas e tive que levar tudo escondido para casa pois minha mãe não ia gostar nada de saber que eu tinha gasto tanta grana de uma vez. O pior é que voltei uns tempos depois na casa do tal vendedor e lotei o fusca de novo. O cara tinha muitas raridades, como dois exemplares intactos de Heróis da TV e Capitão América 1, da Abril.

Mundo69 dossie Homem-Formiga 1Dos atuais filmes da Marvel e da DC, qual você mais gostou?
Dos últimos anos para cá, Guardiões da Galáxia e Capitão América 2. Entre os da DC, só os do Batman do Nolan.

Conte sobre a pesquisa para seu livro Loucuras dos Seriados da TV. Foi muito difícil pesquisar e reunir tantas curiosidades?
Pesquisas desse tipo são meio cansativas, mas curti bastante o processo. Aquele livro, lançado no final de 2004, foi um ótimo laboratório para eu melhorar meu texto e meu olhar de editor. Na época eu já escrevia matérias para revistas, mas ainda trabalhava a maior parte do tempo como editor de arte. Com isso, meu texto ainda não estava bom o suficiente. Outra coisa: com o lançamento desse livro, ganhei visibilidade e segurança para investir na criação da Mundo. Uma coisa levou à outra.

colunista_AlexandreMorgado
Alexandre Morgado
Coleciona quadrinhos desde sempre, ama John Byrne e mais uma penca de artistas!!!

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