Entrevista | Flávio é o Cabra… Quero dizer, Flávio é o cara!

Na verdade, Flávio Luiz Nogueira é tudo isso e um pouco mais. Criador de vários personagens, como Jayne Mastodonte, Aú o Capoeirista e O Cabra, Flavio vem se destacando com seus trabalhos independentes a mais de 20 anos. E sempre com muita qualidade.

Nessa entrevista, Flávio Luiz conta um pouco da sua história, de como começou sua carreira e ainda mostra o primeiro desenho que fez aos três anos de idade.

Flávio e sua obra
O artista Flávio Luiz Nogueira e sua obra.

Pra começar, Flávio, meu cabra, de onde você vem?
Sou baiano de Salvador, mas moro desde 2008 em São Paulo. Cidade que eu amo!

Como e quando você começou a desenhar?
Desde os três anos eu já desenhava. Meu pai guardou por anos (hoje está em minhas mãos) um desenho de um “carro engraçado”, pois o sol atrás dele tinha rosto… rsrsrs. Era pra eu ser quadrinista, né?

Você já lia quadrinhos nessa época?
Eu comecei a ler HQ com seis anos. Lembro-me do primeiro quadrinho que compraram pra mim… Namor. Saia pela EBAL. Meu irmão saiu comigo no colo pra comprar acarajé e eu pedi. Acabei achando anos depois. Você deve ter: Tem o Namor e o Triton dos Inumanos na capa, e uma aventura do Hulk.

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Super X 33 tenho sim kkkkk Quem são os artistas em quem você se inspirou?
T. K. Ryan, autor de Kid Farofa; Jack Davis da Mad; Ibañez de Mortadelo e Salaminho; Uderzo de Asterix e John Byrne por conta do Punho de Ferro. Agora mais recentemente o Bruce Timm!

E como foi a sua decisão de se tornar um profissional?
Eu me arrependo de não ter feito arquitetura como sonhava desde menino. Como sempre, colecionei gibis e fazia meus próprios quadrinhos quando era pequeno. Acabei trabalhando como ilustrador publicitário e programador visual de blocos de carnaval em Salvador. Depois de ganhar alguns prêmios como cartunista e trabalhar feliz como chargista para um jornal de Salvador, acabei criando meus próprios personagens. E tive que partir pra publicação independente, pois estava fora do eixo produtor de HQ, que era RJ-SP. Hoje isso não existe mais. Enfim, sempre desenhei e apesar do caminho duro e muitas vezes inglório, tenho tido um retorno alentador do publico consumidor de HQ em relação ao meu trabalho. Acabou sendo o que me dava grana e apesar de administrador formado, meu negócio é desenhar HQ mesmo.

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Qual foi o seu primeiro trabalho de quadrinho publicado?

Tirinhas do Jab, o Lutador para o jornal Bahia Hoje. Depois fiz a revista da Carla Perez em quadrinhos, que esgotou em Salvador em 1997. Mas oficialmente, meu primeiro titulo de HQ foi o livro de tirinhas Jab, o Lutador/Rota 66. Depois a Jayne 1 e 2, o Aú 1, O Cabra e o Aú 2. Fora algumas colaborações em revistas mix.

unnamed (5)É fácil ser um profissional de HQ no Brasil? Quais são as maiores dificuldades?
Hoje está melhor. Mas eu não diria fácil. Poucos são os que conseguem viver só de HQ. Eu mesmo tenho que me virar como ilustrador publicitário. Mesmo com as ótimas vendas do Aú (mais de 9 mil do primeiro número) eu não tive apoio pra ser lançado por editora. Acabei partindo para o Kickante. Maiores dificuldades… Acho que a parte de distribuição e o interesse da grande mídia por outros autores e linhas editoriais que precisam de maior visibilidade. Público pra todos os gêneros nós temos. Haja vista o sucesso de vendas dos autores independentes na CCXP.

Você tem lançado seus trabalhos de forma independente. É melhor ou pior em relação a uma editora?
Eu acabei como independente, por estar fora dos grandes centros, como já falei. E por ter um estilo fora do que se procurava na época (estilo Image de Super Heróis). Não descarto trabalhar pra editoras. Mas como independente, tenho um maior controle e liberdade sobre meus trabalhos. Acho que tudo depende do estilo de conduzir a carreira de cada um. Certos autores preferem editoras, outros acabam como independentes por acreditar no próprio trabalho mesmo sem oportunidade e interesse das editoras.

Festivais como o Guia dos Quadrinhos, FIQ, GibiCon, etc, propiciam um número maior nas vendas, não é mesmo? Como fazer pra que os quadrinhos tenham visibilidade e vendam mais, sem esses eventos?
Sim. Os quadrinhos brasileiros se tivessem um sistema de distribuição que possibilitasse ao pequeno editor ou autor independente ter seu trabalho visto por esse contingente de leitores seria mais fácil. A existência dos eventos aproxima o autor de um público potencial e isso ajuda muito a continuar acreditando no trabalho e no sonho de viver de HQ no país. Acho que a internet ajuda muito, e vemos a grande quantidade de bons trabalhos que são lançados todos os anos. Acontece que a maioria não tem uma estrutura, nem talento, tempo e conhecimento de gerir a carreira como editor, empresário, distribuidor de si próprio e esbarrar nessa dificuldade de ser não visto. E por conseguinte, consumido por quem poderia garantir esse meio de vida.

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Você acha que a grande mídia ainda deve boas matérias sobre o mercado nacional?
A grande mídia devia estudar mais sobre o assunto, pra não cometer erros absurdos que o mercado acaba tomando conhecimento por falta de aprofundamento na divulgação do atual momento dos quadrinhos brasileiros. Ficam ainda na historia de que HQ é coisa de criança e de super-heróis. Já somos bem mais do que isso. Somos um mercado pequeno comparado com o europeu e americano, mas já temos vícios e problemas que esses mercados maiores não têm… as panelinhas, o jogo do “não sei quem é você “se você não é meu amigo, acabam prejudicando todo mundo. A mensagem do “união faz a força” devia ser mais praticada por aqui. Eu acho que o momento está ótimo, mas a distribuição mais interessada ajudaria a solidificar mercados, títulos, consumos de derivados das nossas criações, e isso ajudaria muito.

Você lançou o Aú 2 em forma de financiamento coletivo. Foi a primeira vez que você fez dessa forma? Valeu a pena?
Valeu a pena, mas é um trabalho que precisa de um planejamento prévio. Se a rede de contatos do autor não for grande o suficiente, ele não consegue emplacar… Ter o nome associado a um grande projeto ajuda muito! Eu não sei se farei de novo.

unnamed (3)Vamos falar sobre O Cabra. Primeiro sobre o formato gigante… Por que esse formato?
Eu sou antes de tudo, um criador de personagens: a Jayne, a tirinha da Rota, o Jab, o Aú. Como eu queria mostrar que não sou só um autor de humor, ou infanto juvenil (apesar de eu achar que o Aú é mais pra toda família), eu tinha o personagem O Cabra já algum tempo, e resolvi produzir seu titulo. O tamanho tem a ver com o fato de eu estar lendo a Wednesday Comics na época em que estava desenhando as páginas e por fazê-las também no local onde trabalhava, alguns colegas perguntaram se seria naquele formato. Por ser um autor independente e “doido” resolvi apostar no formatão… kkkk. Muitos adoram, outros condenam veementemente.

unnamed (4)Eu particularmente adorei. Gostaria de ver o próximo também no “formatão”.
Sim, Será!

Você também coleciona quadrinhos, né? O que você tem de bom na sua coleção?
Minha coleção é pequena, comparada com outras que já vimos por aqui, mas é eclética. Tenho muita coisa europeia, Marvel, DC, Dark Horse, americanos, brasileiros, muitas tirinhas, quadrinhos independentes e os formatinhos da infância, que sobreviveram às inúmeras vendas que já fiz. Já tive pra mais de 5 mil. Porém, hoje não chega a mil. Você viu que aqui tem uns “filés mignons”? Quase tudo do Eisner, do Byrne. Algumas coleções completas, muita coisa novíssima da Europa.

Qual HQ você gostaria de ver publicado por aqui?
Nightworld, Captain America: Truth, Lobster Johnson, Beowulf.

Spirou é uma grande influência pra você, não?
Sim! Tome e Janry… Franquin.

Flavinho, meu Cabra, obrigado pela oportunidade.
Obrigado a você meu amigo por tanto respeito e amizade. Você vale ouro!

Para conhecer mais sobre o trabalho do Flávio – http://www.facebook.com/flavioluiz.nogueira.5

colunista_AlexandreMorgado
Alexandre Morgado
Coleciona quadrinhos desde sempre, ama John Byrne e mais uma penca de artistas!!!

2 comentários em “Entrevista | Flávio é o Cabra… Quero dizer, Flávio é o cara!

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