Entrevista | Felipe Nunes: ninguém segura esse garoto!

Felipe Nunes é um dos mais novos quadrinistas talentosos em ascensão no nosso mercado nacional. Nunes, que tem 20 anos e desenha profissionalmente desde os 15, já é bem mais do que uma simples promessa. Ainda mais tendo como “padrinhos” os irmãos Fabio Moon e Gabriel Bá, com quem trabalha desde 2014.

10995334_885269508191846_7740858996332445701_n

Além de quadrinista, Nunes também trabalha com ilustrações. Contribuindo para várias revistas, entre elas Runner’s World e Mundo Estranho! Nunes é um dos nomes mais fortes dessa nova geração. Ele, que já publicou trabalhos independentes como “SOS”, “Orome”, e o trabalho coletivo “Loki”.

“Loki” foi um trabalho que contou com apena uma edição e com a contribuição de vários outros autores jovens com a mesma média de idade. Depois disso, Nunes lançou o seu primeiro trabalho não independente chamado “Klaus”. “Klaus” foi lançado em 2014 pela Balão Editorial e é um trabalho onde percebe-se toda a evolução e maturidade desse jovem artista, tanto nos desenhos quanto na história. Felipe Nunes é a prova de que pode haver esperança no talento dessa nova juventude. É o tipo de artista que, com certeza, ainda vai dar muitas alegrias para o nosso mercado de quadrinhos. Torcemos muito para que ele tenha uma grande carreira pela frente. Esse garoto vai longe!

Primeiro me fala um pouco sobre você. Felipe Nunes por Felipe Nunes.
Vou tentar falar do Nunes, que é o artista. O Felipe é o que paga o aluguel. Tenho 20 anos, comecei a desenhar pra valer em 2010 e desde então venho tentando, entre gibis independentes e anos intercalando os estudos e os desenhos, ser um autor de quadrinhos. Nasci em Ubatuba, no litoral de São Paulo, mas atualmente moro em São Paulo, onde trabalho e faço faculdade

Como foram os seus primeiros contatos com quadrinhos?
Não sei te dizer exatamente o PRIMEIRO contato que tive… Por uns bons anos, se limitavam em Turma da Mônica e Disney. Em um armário da casa da minha avó, tinham vários gibis antigos que foram dos meus tios, e cheguei a ler todos umas boas vezes. Mas conforme fui crescendo, fui achando entre esses alguns que eram mais legais que os anteriores, como umas coletâneas do Niquel Náusea dos anos 80, uns Asterix e Calvin. Foi um processo importante porque nunca fui tão fissurado em ler quadrinhos, era sempre quando eu estava entediado. Mas desenhar e inventar histórias era algo muito recorrente, mais que diário. Como sou filho de professora de artes, fui muito incentivado desde muito novo e chegava a pedir papel canson e canetinhas nos meus aniversários.

Você trabalhou com os irmão Fabio Moon e Gabriel Bá. Como vocês se conheceram, e como tudo isso aconteceu?
Eu ainda trabalho, na verdade. Começou em 2012, quando recebi um email de ambos (que já me conheciam de eventos e de amigos em comum, como o Gustavo Duarte e o Marcelo Braga) perguntando o que faria naquelas férias de julho e se gostaria de passar uma semana trabalhando lá, arrumando uns originais dos dois pra levarem pra SDCC (San Diego Comic-Con). E parou aí. Pra 2014 eles iam estar sobrecarregados de trabalho e precisariam de alguém lá, pra ajudá-los com todas as coisas que tiram a atenção e o foco do trabalho principal (fazer quadrinhos) e lá estou desde então.

Qual trabalho dos “Irmãos” você mais gosta?
Sempre gostei muito das coisas dos dois, era muito fã do “Crítica” até ler o “Daytripper”. O “Daytripper” foi um gibi que na época mexeu muito comigo, principalmente por sentir uma evolução incrível do jeito de contar histórias que os dois já tinham. É como quando a gente acompanha uma banda que tem uns anos de estrada lançar um disco masterpiece, com tudo melhorado. Mas acho que atualmente meu favorito é o “Dois Irmãos”. A histórias não é deles, é uma adaptação do romance do Milton Hatoum (e que é espetacular), mas quando entrei no estúdio, o livro ainda estava sendo desenhado, e foi um processo diário por uns bons meses escanear, tratar e limpar as páginas. Isso fez minha admiração pelo trabalho do Bá crescer demais, não só graficamente, mas na narrativa e na dedicação como quadrinista. Eles levam isso muito mais a sério do que todo mundo por aqui.

Além do Moon e Bá, quem são os artistas que mais lhe inspiraram?
Cara, se você me perguntasse isso três meses atrás, ou seis, iam ser respostas diferentes. Na época do “Klaus” estava imerso no Jeff Smith e no Frank Miller (li a série toda e alguns Sin City enquanto fazia) e isso me ajudou muito no estilo. Hoje, acho que minhas maiores influências são o Christophe Blain (francês que fez o Isaac, o Pirata e o maravilhoso Gus & His Gang, ainda inédito por aqui), que é um cara que trabalha de uma maneira muito diferente do tipo de quadrinho que estava habituado a ler e tem uma narrativa espetacular. Tem o Jason , que é o meu storyteller favorito (e olha que li uns quatro livros dele) um enredo, ABSURDOS , desses de dar inveja mesmo. O Cyril Pedrosa, por exemplo, continua sendo dos meus favoritos anos depois. Adoro o desenho do Bastién Vivés e tem muito ilustrador que me ajuda muito no estilo, como o Uwe Heidschotter. Difícil traçar um mapa de referências máximas…rs.

Quais foram as maiores contribuições que os gêmeos deram a você?
loki_capaCara, acho que a maior contribuição é a convivência diária. As conversas, os palpites, as dicas. Eles me ajudaram muito a resumir em palavras minhas vontades com os quadrinhos, por exemplo. Me apresentaram o Bone e o Frank Miller, que citei lá em cima. Me convenceram de que eu devia usar o pincel pra arte-final… Tudo o que sei hoje tem uma boa parte da ajuda desse ano e tanto trabalhando lá.

Como foi que aconteceu o coletivo “Loki”?
A “Loki” acabou sendo uma continuação do “Trapezistas de Estrada”, projeto que tinha com o Pedro e o Jopa em 2010, quando começamos. Esse grupo foi expandindo, fomos conhecendo outras pessoas de nossa idade, fizemos um stand no FIQ 2011… eu e o Montanaro eramos os que menos tinham contato com o grupo num geral, mas em junho de 2013 o Pedro teve esse surto de adolescente em crise cheio de frescura e fez uma antologia em quinze dias, assim, no pulo. Virou, né? Foi até indicada ao HQMIX. Mas era uma fase…não sei dizer se hoje um de nós faria uma “Loki 2”. Faz dois anos… é questão de momento. Gente certa no lugar certo.

capaMuitas pessoas apontam que “Klaus” é a sua primeira HQ. Mas o seu primeiríssimo trabalho solo em Quadrinhos foi a HQ chamada “Orome”, estou certo?
Hahaha, não… Impresso foi o “SOS”, que era um resultado de um ano e meio de muita vontade de fazer quadrinhos; só fazia histórias curtas e a empolgação daquele começo passando… foi o que consegui. Hoje em dia acho tudo horrível, mas acho que foi importante pro meu processo e ainda vejo coisas de lá que encaixam com minhas coisas atuais. O “Orome” veio em seguida, pra ser uma HQ de aventura e de novo muda. O fato de todas elas serem mudas foi bom e ruim pra mim. Ruim porque perdia muito na falta de bagagem na hora de fazer. Bom porque como o “Klaus” foi a primeira história impressa com texto (depois da “Loki”) as pessoas se surpreendiam mais…rs.

Vamos falar sobre “Klaus”. Como foi a ideia e a concepção desse trabalho?
Bom, o Klaus nasceu num pensamento durante uma prova específica do vestibular da Unesp, no fim de 2012. Era o ano de prestar vestibular e eu estava achando muito engraçado ter tanta gente diferente em uma sala de aula, concorrendo pra mesma coisa. Na volta, no carro, fiquei pensando em como seria difícil a readaptação – cidade nova, casa nova, pessoas novas. Mas percebi que eu já tinha meio que vivido isso, naquele mesmo ano. 2012 foi o ano da minha redescoberta social, foi o ano que mudei de escola e foi onde realmente fiz bons amigos, que perdi umas dezenas de quilos, que me formei, que comecei a ir em festas. Eu era atrasado, claro, mas a transição já tinha acontecido. Foi nesse ano que percebi como do primeiro ao último mês do ano minha vida virou de ponta cabeça. E nessas me veio o pensamento: imagina ser MUITO, mas MUITO diferente dos outros? Daí veio o “Klaus”. 2012 foi um ano onde os quadrinhos ficaram totalmente em segundo plano. Eu fiz o “Orome”, mas desencanei de correr atrás de trabalho (continuava ilustrando periodicamente pra Recreio, mas só) e era importante pra mim ter esse desafio de querer fazer uma história que realmente se identifica com meu eu.

Klaus

“Klaus” tem mais de 100 páginas. Você levou muito tempo pra fazer a HQ ou não?
Então… a idéia inicial foi no último mês de 2012: comecei a escrever em março de 2013 e acabei, junto com todos os thumbnails, em agosto de 2013. Olhando agora eu acho que demorou tempo demais essa etapa, mas foi importante. Não lembro de ter lido nada sensacional que tenha mudado meu jeito de escrever, mas foi o tempo que a história levou, o tempo que ela precisava.

Faz parte. Nesse meio tempo, tentei começar a desenhar duas vezes (umas dez páginas nas duas). Inscrevemos no ProAc, e não deu. Não era a hora. Em fevereiro de 2014 eu me empenhei em realmente começar a desenhar. Aí fiz todo o lápis (das 100 páginas) até maio e fiz toda a arte final até o comecinho de agosto. Foram quase dois anos.

Alguns comentários nas redes sociais mostravam algumas pessoas que leram “Klaus”surpresos pelo fato de você ter 19 anos. Você já é um artista pronto, isso é um fato. Mas, como você vê tudo isso?
Então, sou novo sim né? hahaha, isso é claro, inclusive pra mim, que já entrei na minha badvibe por ter feito 20 anos. Ah, eu acho normal. Não me acho tão novo porque comecei a desenhar profissionalmente muito cedo (aos 15) então sempre lidei com essa responsabilidade financeira, prazos, metas. Isso me ajudou a amadurecer. Mas eu não quero me limitar a nada: fico imaginando que ainda posso errar umas vezes antes de tudo dar certo. Fico feliz que passando dos 20 não me sinto mais com o fardo de “prodígio” rotulando todos os meus movimentos do mundo dos quadrinhos. Uma boa parte da minha geração, que começou lá no começo de 2010, influenciado pela iniciativa do Montanaro, em sua maioria, acabou parando. Fazem faculdade, tocam, atuam. Sobrou pouca gente daquela época. Mas ainda tem muita gente boa saltando aí que meio que regula comigo, como o Pedro Cobiaco (nosso “orgulhinho”), o próprio Montanaro, a Julia Balthazar, o Gustavinho (Borges)…O mais importante é que ninguém se preocupe com a minha idade, e sim com meu trabalho.

klaus04

Você gostou do trabalho editorial que a “Editora Balão” fez com Klaus?
A Balão é malandra. Em 2011, no FIQ, o Cláudio, editor da Zarabatana, comprou meu gibi (“SOS”) porque esse é o trabalho de editores: garimpar coisas. No dia seguinte sugeriu ao Guilherme Kroll que comprasse, e esse leu de um dia pro outro e já me abordou com a proposta de apresentar uma ideia pra eles. Achei legal demais. A Balão estava muito mais interessada no autor do que no projeto. E até tentei pensar em algo durante 2012, mas esse tempo cozinhando foi ótimo. A Balão é muito querida porque é uma editorinha composta por três pessoas e o Guilherme fez o papel de editor que eu esperava de verdade: acompanhou desde o comecinho, leu todas as versões do roteiro, deu palpites, acompanhou as páginas ruins, opinou em textos teóricos… Sinto falta de gente com esse carinho por aqui. E né, o “Klaus” não teria feito o barulho que fez se eu tivesse feito sozinho, distribuindo por conta própria e tudo mais.

O que você tem lido que mais lhe agradou ultimamente?
Olha, tenho lido poucos quadrinhos, num geral. No começo do ano eu finalmente li o “1984”, do George Orwell, por exemplo. Não tinha idéia do que acontecia e foi maravilhoso pra mim, um baita livro. Agora, depois dele, emendei no “Cem Anos de Solidão”, do Garcia Marquez. E caramba, foi a melhor coisa que li na minha vida. De longe. O jeito de contar, o modo como conduz os personagens, os detalhezinhos… é de chorar. Nos quadrinhos, sou fã demais da adaptação do “Dois Irmãos”; gostei muito do “Anya’s Ghost”, da Vera Brosgol; o “Left Bank Gang”, do Jason, que é maravilhoso! Um nacional que fiquei encantadíssimo que é o “Cuidados de Rafaela”, do Marcelo Saravá e do Marco Oliveira. O desenho é torto, a história é densa, tudo conversa de um jeito bom… mas 2014 foi um ano acima da média pra gente, acredito. O “Tungstênio”, do Quintanilha, por exemplo, é a melhor coisa nacional que leio, sei lá, desde o “Daytripper” ou o “Cachalote”. Ou o “Cumbe”, do D’Salete, outro baita livro.

O que você promete para o futuro? Já está trabalhando em alguma nova HQ?
No presente momento estou desenhando minha HQ desse ano. É menor que o “Klaus”, mas é grande do mesmo jeito. Tô tentando conciliar com as outras coisas, mas tá indo. É uma história muito mais pessoal, menos pretensiosa e muito mais possível (em partes). Essa sim, é bem mais autobiográfica que a outra. Mas ainda segue a linha do quadrinho-fraternal-fantástico. E tenho sentido confiança na história… gosto disso. Gosto de me sentir à vontade nas minhas coisas.

Que conselho você pode dar para os jovens que querem ser desenhistas ou quadrinistas?
Bom, corre atrás! Mesmo novinho, quando comecei ainda era o nascimento do Facebook por aqui. Hoje você consegue criar uma network imensa e atingir muito mais gente que admira. Faça um blog, poste desenhos, leia de tudo, copie todo mundo, mande suas coisas pra todo mundo, peça palpite. Orgulho infelizmente é a nossa pior herança, então tente se soltar dele o quanto antes! Tenha certeza: sempre tem alguém melhor do que você. Aquele desenho do Quarteto Fantástico parece idiota hoje, mas em cinco anos vai ser foda. Não se preocupe com estilo, com jeito próprio: isso aparece com o tempo, com uma coleção de experiências. Não tente traçar um caminho das pedras vendo OUTROS caminhos. Cada um faz o seu, de jeitos diferentes. “Cê” consegue!

colunista_AlexandreMorgado
Alexandre Morgado
Coleciona quadrinhos desde sempre, ama John Byrne e mais uma penca de artistas!!!

Um comentário em “Entrevista | Felipe Nunes: ninguém segura esse garoto!

  1. Felipe, muito interessante sua trajetória, todos os seus incentivos e sua evolução de tão pouco tempo. Seu traço é maravilhoso, as multicores e linguagem incríveis, parabéns e sucesso adiante! Abraço.

Deixe uma resposta