Entrevista | Eduardo Carlos Pereira: O grande “Edú”

colunista_MarcosMassoliniConheça o trabalho do artista Eduardo Carlos Pereira, o Edú, que entre outras coisas é o responsável pela criação de personagens como o Praça Atrapalhado e o Dr. Estripa, publicados pela Editora Super Plá e Saber, de São Paulo. Também criou inúmeras capas para estas editoras, em títulos como Brucutú, Família Buscapé, entre outros.

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CdHQs – Para começar a conversa, conte um pouco sobre você: local e data de nascimento, suas influências nos quadrinhos e qual o personagem ou revista que mais lhe chamou a atenção em seus primeiros anos. E pra falar ainda mais das suas referências, qual foi seu primeiro trabalho ligado ao desenho? Detalhe, por favor, a sua fase profissional inicial, quando ainda estava tateando na área.

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CdHQs – A partir de 1971 sua assinatura – Edú – começou a aparecer nas capas de diversas revistas ligadas ao grupo Fittipaldi – Super-Plá, Saber, Fittipaldi, Paladino, Interpolar. Como foi o seu primeiro contato com essa empresa?
Profissionalmente comecei, em 1965, com 18 anos, no Diários e Emissoras Associadas. Era chargista. E, lá criei meu primeiro personagem, O Arbustinho, com tiras semanais. Infelizmente, anos depois, com o fechamento do jornal, houve o extravio de todo o material publicado. Como freelancer, procurava trabalho, andava muito, fazia inúmeros contatos mostrando meu portfólio e, um dia, entrei na editora Saber. Conheci, então, o irmãos Savério e Bértolo Fittipaldi. Era o ano de 1970 e, eu estava com 23 anos.

CdHQs- Você tem ideia aproximada de quantas capas produziu nesse fértil período?
Não sei dizer quantas… foram muitas! Além dos meus personagens, haviam várias outras publicações.

Fonte: Guia dos Quadrinhos
Fonte: Guia dos Quadrinhos

CdHQs – Desses personagens que ilustrava para as capas – Brucutú, Família Buscapé, Mandrake, Recruta Zero, Fantasma, Dick Tracy, Brick Bradford, entre outros – qual você gostava mais de desenhar?
Sem dúvida, O Recruta Zero!

CdHQs – Logo no primeiro número do suplemento Super-Plá, da editora homônima, ainda em 1971, seus personagens Dr.Estripa e Praça Atrapalhado já mostraram a cara, ao lado de grandes clássicos da King Features. E assim foi enquanto durou o suplemento. Esses personagens foram encomendados pela editora especialmente para esse projeto ou foi ideia sua publicá-los?
Percebi que o mercado carecia de material novo, nacional. Criei, ofereci e, aceitaram.

CdHQs – Dr. Estripa era mulherengo, baixinho e politicamente incorreto. Como foi a repercussão desse personagem na época?
Muito boa! O baixinho, causava e, sem dúvida, como novidade, o pessoal curtia muito.

-raridades_etc-praca-atrapalhado-15CdHQs – Já o Praça Atrapalhado, seguindo a tradição dos militares atabalhoados como Recruta Zero e Recruta Biruta (sendo esse de 1942, ou seja, mais velho que o Zero) era um soldado raso sempre metido em confusões. A influência do Zero é explícita, mas o fato de ser brasileiro e negro e o enredo ter como cenário o Brasil não lhe deu características marcantes que o diferenciaram de seus pares estrangeiros?
Não sei. O fato é que, no Brasil, não se podia opinar ou falar de nada. Era perigoso! Então, jocosamente, através dele brinquei, dei meu recado e muita risada.

  -raridades_etc-dr-estripa-04CdHQs – Os dois personagens tiveram revista própria. Dr. Estripa pela Super-Plá com poucos números e O Praça Atrapalhado em duas fases: com poucos números também pela mesma editora, e depois, com um fôlego maior na Saber, onde sua revista atingiu o nº 15. Como se deram as produções dessas publicações?
Foi uma fase, muito feliz, em que meu trabalho começou a aparecer, reconhecido na mídia e, tornei-me pai pela primeira vez. Porém, toda essa felicidade, todo esse trabalho, nao fechavam as contas. Aí, precisei tomar decisões que foram fundamentais para minha carreira e meu futuro.

CdHQs – Logo após a Saber, você fez parte da equipe Disney na Editora Abril. Como foi essa experiência?
O mundo Disney ajudou a abrandar, um pouco, a tristeza do afastamento de meus personagens. O que mais estranhei, foi a falta de liberdade para criar e desenhar. Nada poderia ser diferente dos manuais americanos. Era, sem dúvida, muito desgastante. O lado bom, é que conheci pessoas maravilhosas e experientes que me orientaram e me ensinaram a ser mais tolerante. Desenhei, também, personagens de Hanna e Barbera, e Pantera Cor-de-Rosa. Nestes, tínhamos mais liberdade. Era muito legal!

Big Musculus (1)CdHQs – Em 1972, outra criação sua teve uma edição única via Saber: Big Músculus. Esse personagem é citado até hoje por profissionais da área como uma ótima referência do quadrinho nacional no período. Conte mais sobre esse super herói “sui generis”…
Em 1972, com 25 anos, estava com a cabeça cheia de ideias e, na editora Saber, tinha total liberdade de criação. Já produzia o Praça e o Dr Estripa, senti que faltava um super personagem que juntasse humor, ação e… porrada!
Depois de inúmeros esboços, consegui conceber a criatura. O roteiro, foi sendo criado na hora. Ia desenhando e diagramando as páginas como se eu estivesse vivendo e participando da história, junto ao personagem. A diagramação nada convencional, pra época, resultou em muito movimento e ação, necessários ao perfil do personagem. O resultado nas bancas foi, segundo os editores, muito bom!

CdHQs – Consta no Inducks Brasil algumas histórias inéditas desenhadas por você, como “Netos de Boi-de-Pé” com Havita e “Desordeiros Natos” com Tico e Teco, ambas de 1974. Você se lembra dessas histórias? Por que não foram publicadas?
Sim, lembro-me vagamento, mas desconheço o motivo da não publicação.

Untitled-1CdHQs – Eu tenho em meu acervo um livro didático de inglês da IBEP publicado nos anos 70 que utiliza a linguagem dos quadrinhos e inclui você no expediente como ilustrador ao lado de Rodolfo Zalla e Osvaldo Sequetin. É consenso que a área de livros didáticos foi uma saída mais rentável para alguns artistas da época. Como você se inseriu nessa atividade?
Rodolfo Zalla, amigão e grande mestre. Sequeta, também, amigo talentoso… Nesta coleção, “Progressive English”, tive a oportunidade de mostrar o meu forte, a HQ. Mas, a coleção “Horizontes História”, 5 a 8 séries da Profa Marlene Ordoñes, para mim, é a favorita entre todas que ilustrei para a editora IBEP.

luminosoCdHQs – A partir de 1973 a Editora Ática começou a publicar uma coleção juvenil que iria alcançar mais de 100 títulos e marcaria várias gerações nos anos seguintes: a Coleção Vaga-Lume. Conte-nos sobre sua relação com o mascote da série, o vagalume Luminoso, que em certo momento passou a protagonizar histórias em quadrinhos nas orelhas dos livros onde repassava a sinopse da história em conversa informal com o leitor.
Criei o personagem Luminoso para a série vaga-lume, em 1973. O pedido, partiu do próprio dono da editora Ática, o saudoso prof. Anderson. Ao longo do tempo, o personagem evoluiu e, enquanto durou (25 anos), foi muito prazeroso e divertido.

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CdHQs – A revista Pancada, da Editora Abril, nos moldes da Mad, também teve você como colaborador. A edição nº 13, de maio de 1978, por exemplo, publicou “Cenas Pancada de Filmes Famosos” com a sua assinatura. Conte-nos mais sobre essa fase na revista de humor.

Participei muito pouco da revista Pancada. Confesso que nem lembrava…

Untitled-3CdHQs – A partir de 1981 você criou seu próprio estúdio de design gráfico, o Lápis Mágico, em atividade até hoje. São 35 anos de História! Cite alguns trabalhos que você considera inesquecíveis dentre tantos criados pelo estúdio?
Apesar de ter ilustrado, vários títulos, com a mesma determinaação, dedicação e carinho, há sim um que se destaca, No Tempo da Escravidão no Brasil, da coleção Crianças na História de Maria Lúcia Mott, lançado pela editora Scipione.

Untitled-2CdHQs – Entre os anos 80 e 90, você fez capas para Bang Bang em Quadrinhos pela Fittipaldi e voltou a desenhar capas com Recruta Zero e Fantasma para a série Edição Histórica da Saber. Como foram essas participações pontuais?
Curti demais! Foi a convite do Hélio Fittipaldi, filho do Sr. Savério, que voltamos a trabalhar juntos já na era digital (1994 a 1999).

CdHQs – Como é a demanda em seu estúdio para jobs que utilizam a linguagem das HQs?
Aqui, no estúdio, estarei sempre aberto aos clientes. Porém, mesmo atuando de forma intensa, ao longo de 40 anos, o mercado parou comigo, ou talvez, eu tenha parado com ele. Mas torço, pelos jovens talentos que, sem dúvida, conquistarão seu espaço assim como, um dia, conquistei o meu.

CdHQs – Pra finalizar nosso papo, gostaria de saber sua opinião sobre a produção atual dos quadrinhos no Brasil.
Por experiência própria, quanto mais HQ fazia, melhor ficava. Só assim, adquiri habilidade e confiança suficientes para achar um estilo e consequentemente evoluir. Ainda hoje, falta estrutura e respaldo profissional para alavancar a carreiras de nossos artistas e mantê-los, felizes, só produzindo HQs, de qualidade.

CdHQs – Muito obrigado, Eduardo, por essa entrevista! É muito bom poder conversar com quem tanto batalhou e produziu para a nossa HQ nacional. Valeu pela paciência e gentileza! E agora vamos mostrar um pouco mais do seu trabalho para os leitores do blog! 😉

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Marcos Massolini
Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

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