11-05-2015

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Entrevista | Camilo Solano: um caipira entre nós

Camilo Solano nasceu em São Manuel, cidade do interior de São Paulo. Praticamente já nasceu desenhando.
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Desde pequeno, ele já mostrava talento na hora de expressar no papel toda a sua arte. Com a ajuda do seu pai, que escrevia algumas histórias para que ele desenhasse, Camilo criou jeito para escrever e de contar as suas próprias histórias. Seu primeiro trabalho “Inspiração deixa entrar sol nesse porão” foi o seu T.C.C (Trabalho de conclusão de curso). E na minha modesta opinião, um baita “gibi” de estréia.

Por seu trabalho “Inspiração”, Camilo foi indicado ao 26° Troféu HQMIX, por novo talento roteirista e novo talento desenhista!

Para este ano, o artista promete o seu mais novo trabalho “Desengano”. Como artista, Camilo tem uma mente bem insana. Prova disso está em todos os seus trabalhos. Ele que gosta de fazer vídeos no meio do mato para divulgar seus trabalhos e de fazer brincadeiras com as palavras – acredito eu, que ainda deva sonhar com a palavra “Mix”até hoje.

Camilo, tira sarro de si mesmo e adora isso. E nós também. Talvez esse seja o grande mérito em seus trabalhos. Como o próprio artista disse ” As histórias em quadrinhos,para mim nunca precisaram dizer nada de mais. Não precisa ser grandiosa e com universos fantásticos. Sinto que preciso ler quando quero relaxar, quando preciso me distrair”. E com essa simplicidade, Camilo conquista a todos nós!

capafrentergbO seu primeiro trabalho Inspiração foi o seu T.C.C, como foi a repercussão desse trabalho na faculdade?
Inspiração foi uma surpresa de repercussão de uma maneira geral para mim. Na faculdade todo mundo que me conhecia já sabia que faria alguma coisa relacionada a Quadrinhos no meu T.C.C. e creio que foi uma ótima maneira de começar uma carreira e um bom jeito de terminar a faculdade, com um projeto pronto e que vai além do fato de ser apenas mais um projeto de conclusão de curso.

Inspiração levou dois anos para ficar pronta, e você preferiu não redesenhar as primeiras páginas.Você acha que isso foi um ponto positivo, em relação a HQ?
Acho que foi sim um ponto positivo, pois como era minha primeira história, eu me dei ao luxo de experimentar e de produzir um material que promovia um diálogo entre processo e projeto em si. Como é uma história que fala dela mesma, seria legal que esses “erros” e evoluções fossem retratados também como parte do produto.

Você realmente conheceu o Sr Lourenço Mutarelli do jeito que você conta na HQ?
Sim, conheci sim! Tudo o que acontece em “Inspiração”, “Onde eu tavo?” e “Captar” são momentos que realmente aconteceram em alguma hora da minha vida. Eu gosto muito de contar histórias reais e vejo que essa linha de escrita tem me dado bons resultados. Meu próximo trabalho que sai no final de 2015 é a primeira história que faço inteira de personagens fictícios, mas é uma mistura de muitas histórias reais que dei uma romantizada.

Mutarelli é o artista que mais te inspirou a desenhar? Quem mais te inspirou?
O Mutarelli me inspirou mais a escrever do que desenhar. Sou apaixonado por todos os livros que ele lançou. Também sou grande fã dos seus quadrinhos, embora a produção tenha diminuído muito. Minha maior influência de desenho é o Robert Crumb, há mais de dez anos que tive o primeiro contato com o trabalho dele e me fisgou de uma maneira que nenhum outro artista fez até então. Will Eisner me inspirou há muito tempo a largar as canetas e me aventurar com o pincel e sou grato demais por isso. Hoje só desenho com o pincel e foi o álbum New York que me fez fazer essa escolha.

Qual trabalho do Mutarelli você mais aprecia?
“O Natimorto” e “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa” foram os livros que mais mexeram comigo, pois tem aquela escrita fluida e que em meia hora você termina o livro em pé enquanto folheia na livraria. Eu adorei essa dinâmica que ele trouxe para a literatura e o seu estilo acaba se assemelhando a roteiros de teatro e que com certeza atraiu muita gente por conta disso.

capa_captar_low_rgbInspiração, é uma HQ bem engraçada, confesso que há muito tempo eu não gargalhava lendo algo. Principalmente na parte em que você conta a história dos dois caras a beira da morte. Você tem uma mente bem insana não?
Hahaha não sei se eu agradeço ou me preocupo com essa afirmação. O que eu acho curioso é que antes de lançar “Inspiração” eu não fazia ideia se as pessoas iriam rir ou iriam se emocionar com as histórias. Porque muitas vezes eu não quero contar uma história engraçada, mas ela acaba virando uma tragicomédia ou coisa do tipo.

Eu gosto de escrever. Não é sempre para as pessoas rirem, mas acho que tenho um jeito de escrever que o humor tem uma força meio inconsciente sabe… “Captar”, por exemplo, muitas pessoas vieram falar para mim que morreram de rir e outras vieram falar que se emocionaram. Teve gente que realmente chorou lendo. As histórias sempre são um pouco mais profundas e se você analisar os detalhes vê que em todas elas o que mais existe é o fato de haver muita solidão e questões pessoais a serem resolvidas. Mas eu gosto de rir.

capafinal150ppi“Onde eu tavo”, saiu logo na sequência. Essa HQ é um tipo de continuação de Inspiração?
Eu fiz “Onde eu tavo” para lançar no FIQ de 2013. A resposta de Inspiração estava tão legal na época que resolvi fazer mais alguma coisa para agregar aos novos leitores que iria conhecer em BH. Imprimi uma tiragem muito pequena e levei. Esgotou lá mesmo no terceiro dia do evento. Estava conversando com um amigo esses dias e ele comentou que se eu continuar fazendo histórias biográficas, quando eu ficar velho dará para lançar um compilado em sequência das melhores histórias da minha vida. Todas as histórias que lancei até hoje são meio que inevitavelmente uma sequência das anteriores. “Captar” também é sequência de “Onde eu tavo” e “Inspiração”. Em “Inspiração”, algum determinado momento eu digo que não sei se quero mudar pra São Paulo, se preciso ou não, em “Onde eu tavo” eu já estou de volta para São Manuel e em “Captar” mostra como foi o começo dessa mudança para a capital paulista. Portanto, é sim uma sequência.

Você optou por fazê-la colorida, você gostou do resultado?
Sim, eu gostei do resultado, embora goste muito de HQ em preto e branco, o colorido (se bem usado) pode acabar sendo uma ferramenta de narrativa e de clima na história. “Desengano” será meu primeiro grande trabalho em cores. Penso em fazer uma história só com colorização tradicional qualquer hora, apenas na aquarela. A dificuldade de fazer colorido é o custo. Imprimir um gibi colorido é bem mais caro do que em preto e branco.

panini_mad77Você fez alguns trabalhos para a revista Mad. Como você foi parar lá?
Foi um convite do editor da revista, o Raphael Fernandes precisava de alguém para fazer aquelas paródias clássicas da revista, era sobre Breaking Bad. Ele me convidou e rolou tão bem que acabei fazendo várias outras coisas para a revista. Atualmente não tenho feito por conta de “Desengano” que tem me tomado muito tempo e muita dedicação exclusiva.

“Captar” foi feito em parceria como Thobias Daneluz, como foi pra você fazer essa HQ em conjunto com um outro artista?
Foi uma experiência interessante e muito rica para mim. Conheci o Thobias no FIQ de 2013 e lá mesmo enquanto a gente ia se conhecendo a gente decidiu que tinha que fazer alguma coisa junto. A gente se identificou demais em algumas coisas e vimos que dava para produzir algo diferente. Nossos traços são bem distintos entre si, mas casou de uma maneira muito eficaz em Captar. Foi muito bom e espero um dia repetir.

Você gosta de brincar com os trocadilhos com os títulos dos seus trabalhos?
Na verdade, eu gosto de brincar com a palavra. E meu tesão por escrever vem daí sabe, do jeito que dá para brincar com as palavras para elas terem mais de um sentido ou direcionar para uma ideia sem precisar dizer uma palavra específica. Juntando isso ao desenho, dá para fazer o que quiser. Mas sim, a parte do título é o momento onde eu consigo brincar muito com a forma das palavras.

Sei que você já está produzindo um novo trabalho, você pode dar algum detalhe?
Claro! A próxima HQ se chama “Desengano” e vou lançar no final de outubro. Também pretendo lançar no FIQ e na CCXP. É a primeira história onde não sou o protagonista. Será uma história que falará das mudanças que a gente passa pela vida, sejam as mais simples e singelas que muitas vezes passam despercebidas.

E será de forma independente também?
Sim! Mais uma vez decidi fazer de maneira independente.

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Página inédita da HQ “Desengano”

É bom pra sua carreira ficar desenhando os seus amigos nas suas HQS? Você faz HQ pra agradar aos seus amigos, ou por um impulso artístico? Ou você acredita que possa ser uma maneira de fazer com que os outros promovam o seu trabalho?
Não faço HQ’s para agradar os amigos não, na verdade, faço esses quadrinhos para exorcizar de alguma maneira o meu dia-dia. Foi a mídia que eu escolhi para me expressar e dizer tudo o que eu penso sabe… Ou seria nos quadrinhos ou seria na música, acabei escolhendo o desenho como profissão, mas não consegui largar a música. Os amigos quando se encontram nas histórias gostam muito. Foi um caminho natural para mim sabe, contar coisas da minha vida e me expor da maneira que acabei me expondo, proporcionou alguns momentos de exposição de outras pessoas que estão a minha volta.

Sei que você gosta de música, qual o seu tipo preferido? O que você gosta de ouvir?
Música brasileira! Tenho um amor imenso pela canção brasileira, basta ser boa! Tento me desvencilhar dos rótulos para não me restringir a um estilo apenas. Mas a preferência mesmo é a MPB, os sambas antigos e tal. Porém a música internacional também me deixa louco muitas vezes. Fui criado ouvindo Beatles do lado do meu pai e Caetano e Chico do lado da minha mãe, então é bem misturado. De som nacional que eu ouço mais atualmente sem dúvida é Lenine. Tudo que ele tem feito dialoga comigo e os dois últimos álbuns dele são fantásticos. De internacional o que eu ouço muito é o Sean Lennon, Derek Trucks, desses mais recentes. Beatles todo dia pelo menos uma vez.

captarrVocê pretende fazer algum trabalho com esse tema?
Todas as minhas histórias tem alguma conexão com a música sabe. Desde Inspiração, onde o título e o subtítulo são trechos de uma canção do Pedro Luís e a Parede do álbum Vagabundo que foi feito em parceria com o Ney Matogrosso. Eu acho muito difícil tentar mesclar as mídias, ainda não encontrei um caminho que me agrada para fazer essa junção mais literal de música e quadrinhos sabe. Os meus ensaios são roteiros baseados em canções ou em álbuns. Postei recentemente no meu blog uma história que escrevi toda baseada no disco “Chão” do Lenine. É uma história que provavelmente nunca farei em quadrinhos, mas eu gostei muito daquele resultado. Eu penso demais em fazer algo assumidamente musical em quadrinhos, mas ainda não encontrei o caminho. Quem sabe, um dia.

O que você tem lido ultimamente que você mais gostou?
Tenho lido bastante quadrinho nacional, dos meus favoritos, cito Lavagem do Shiko que acabou de sair pela editora Mino. Adoro o trabalho dele e para mim é o maior autor nacional da atualidade. Gosto muito de L’Amour do Luciano Salles, também publicado pela editora Mino, essa editora só tá fazendo coisa boa. Agora tenho que citar dois novos quadrinhos que acabaram de sair que são de autores independentes e que já entraram na minha lista de melhores de 2015. A primeira é Aokigahara do André Turtelli Poles e do Renato Quirino. Essa HQ foi financiada pelo Catarse e é um álbum muito pesado mas ao mesmo tempo muito singelo. Ele trata do tema suicídio de uma maneira bem diferente. A outra é um pouco mais recente e se chama Anderdogue do Bruno Dinelli. Ele acabou de lançar também de maneira independente, mas ele mesmo que bancou a tiragem e é uma HQ espetacular. Também é o primeiro trabalho dele. Assim como eu, ele fez essa história como TCC da faculdade e já lançou simultaneamente para vender. É uma história silenciosa e de fases. Das fases e dificuldades de momentos específicos da vida. Recomendadíssimo!

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Alexandre Morgado
Coleciona quadrinhos desde sempre, ama John Byrne e mais uma penca de artistas!!!

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