Entrevista | A vida imita a arte: conheça a história do colecionador, jornalista e editor Sidney Gusman

“Há muita gente produzindo e, mais, com coragem de produzir”, diz Sidney Gusman em entrevista ao Colecionadores de HQs.

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Sidney Gusman durante palestra na NerdCon (2012).

Um dos principais nomes do cenário nacional dos quadrinhos, Sidney Gusman é aquele tipo de entrevistado que o Colecionadores de HQs ficaria conversando por horas e horas. Um dos principais expoentes do cenário dos quadrinhos, Sidão – como é mais conhecido – coleciona muito mais que quadrinhos. Em seu currículo estão algumas histórias divertidas, entrevistas inusitadas e encontros com seus ídolos que lhe renderam autógrafos em edições guardadas a sete chaves em sua coleção.

“Lembro-me, por exemplo, de uma entrevista que havia agendado com o Neil Gaiman, em São Paulo. Seria uma exclusiva mas, horas antes, a assessora dele me liga e desmarca. Não aceitei aquele ‘não’ e, por meio de alguns contatos fui até o hotel onde ele estava hospedado e consegui ser atendido por ele, em seu quarto”, lembra.

No Festival Internacional de Angoulême (2014).

Sem imaginar que se tornaria um dos maiores especialistas em quadrinhos no Brasil, Sidão conta que sua paixão pelos quadrinhos começou na infância e, assim como a maioria de nós, ele também ganhou de seu pai as primeiras HQs. “O interesse seguiu com mais intensidade na adolescência”, lembra. Como todo adolescente que precisa escolher uma profissão, nosso personagem de hoje pensou em estudar algo ligado ao jornalismo esportivo, pois primeiro se formou em Educação Física. Depois disso, lá foi ele cursar jornalismo na Universidade Metodista de São Bernardo, em São Paulo.

Mas quis o destino que ele mudasse de área e ainda jovem começasse a enveredar pelo mundo da crítica sobre quadrinhos. “Meus amigos sempre me diziam que meus textos eram bons, que eu podia trabalhar com isso e pensei: ‘uma coisa é você gostar de ler HQs; outra é você trabalhar com elas e se especializar nisso. É preciso muito estudo, pesquisa e dedicação’”, comenta.

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Sidney Gusman durante palestra no FIQ (2011).

As primeiras experiências surgiram num jornal mural feito na faculdade com os amigos. O gosto pela área se intensificou e, a partir daí, ele deu início a estudos e pesquisas na área. Começou a cavar espaços nas mais diferentes revistas e jornais de São Paulo até que, em 2000, assumiu o comando do então recém-criado site Universo HQ, o primeiro sobre quadrinhos no Brasil.

Atualmente ele coordena o editorial da Mauricio de Sousa Produções e é o homem por trás da trilogia MSP (MSP 50, MSP +50 e MSP Novos 50) e do selo Graphic MSP, que já lançou sete álbuns:  Astronauta – Magnetar e Astronauta – Singularidade, de Danilo Beyruth; Turma da Mônica – Laços, de Vitor e Lu Cafaggi; Chico Bento – Pavor Espaciar, de Gustavo Duarte; Piteco – Ingá, de Shiko; Bidu – Caminhos, de Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho e Penadinho – Vida, de Paulo Crumbim e Cristina Eiko. Agora lançará o oitavo álbum da coleção (Turma da Mônica – Lições, de Victor Cafaggi e Lu Cafaggi) durante a Festcomix 2015.

revistasMSP

A seguir, você confere o nosso bate-papo com Sidão e descobre um pouco mais sobre a trajetória deste renomado profissional. Ele fala sobre sua experiência pessoais, seus projetos com Mauricio de Sousa, seus quadrinhos preferidos e, claro, sua luta para fortalecer o mercado dos quadrinhos no Brasil

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Sidney Gusman na Bienal de Quadrinhos (RJ) com Leandro Luigi Del Manto (1991).

Sidão, de onde vem essa paixão pelos gibis e como foi sua imersão no mercado de HQs?
Terminei o colegial aos 17 anos e já entrei na faculdade de Educação Física. Me formei em 1986 e, em 1988, comecei a cursar jornalismo, com a intenção de trabalhar com jornalismo esportivo – área na qual trabalhei por dois anos, como repórter de rádio. Foram tempos difíceis e não ganhava nada. Foi quando eu e um grupo de amigos da faculdade criamos um jornal mural em 1989. É claro que não tínhamos nem computador, muito menos internet. Enfim, foi neste jornal que comecei a fazer algumas críticas de quadrinhos. Era a época do boom das editoras Abril e Globo e todos os grandes jornais de São Paulo abriam páginas e páginas para falar de HQs. Como os amigos da faculdade diziam que meus textos eram bacanas, decidi usar minha boa e velha cara de pau para tentar a sorte. Munido de vários desses textos debaixo do braço, saí visitando as pessoas que escreviam à época – André Forastieri (Folha de S.Paulo), Marcelo Alencar (Estado de .Paulo), Alessandro Giannini (Jornal da Tarde), Franco de Rosa (Folha da Tarde), Rosane Pavam (Diário do Grande ABC) e Leandro Luigi Del Manto (Editora Globo).

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Sidney Gusman no HQ Mix (1996).

E você já conseguiu um emprego logo de cara?
Embora sempre tenha sido bem recebido, não rolou nenhum freelancer. Até que, certa vez, o Leandro Luigi Del Manto leu e gostou do meu texto sobre Cinder & Ashe, minissérie que ele editou ainda na Abril. Ele me perguntou se eu gostava de música, porque tinha a intenção de publicar uma matéria sobre quadrinhos e música na HQ Press, uma seção que saía nas páginas centrais dos gibis Sandman e Fantasma (um remake da DC Comics), que o Leandro editava na época. Ao sair do prédio da Globo, no bairro da Lapa, em São Paulo, olhei pra trás pra ver se não tinha ninguém e dei um soco no ar, como se estivesse comemorando um gol. Era a minha chance de entrar no mercado de quadrinhos, algo que, até então, não passava de um sonho. Quando a adrenalina baixou, percebi que a missão não seria nada simples, pois o Leandro queria sete laudas de texto (9.800 caracteres). Naquela época, eu quase não tinha material de referência e meu conhecimento sobre quadrinhos ainda não era tão grande. Foi quando liguei para a Livraria Muito Prazer (famoso point de quadrinhos em São Paulo, que já fechou) expliquei a situação e perguntei se poderia passar o dia pesquisando lá. Com uma resposta positiva, fiquei lá horas e horas, folheando centenas de HQs e anotando tudo. Foi aí que começou o meu gosto pela pesquisa, algo que sempre norteou meus textos. Escrevi 14 laudas, o dobro do que ele tinha pedido! Quando entreguei, enquanto o Leandro ia lendo, minha agonia só aumentava. Depois de um bom tempo, ele falou: “Gostei muito. Tenho que dar um jeito de publicar inteira essa matéria!”.

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Com Marcelo Naranjo e Sergio Codespoti entrevistando Ivo Milazzo (2001).

Foi aquela sensação de conquista…
Foi aquela sensação de dever cumprido e de satisfação por, finalmente, assinar minha entrada no mercado de quadrinhos. A matéria saiu nas edições # 7 de Fantasma e Sandman. Com essas revistas debaixo do braço, consegui mais freelas. Passei para jornais (o primeiro foi o Jornal da Tarde), entrei na Globo, para trabalhar como redator, escrevi para várias revistas e o resto é aquilo que os outros contam. Desde então, não passei nem um mês de minha vida sem escrever (nem que fosse uma notinha) sobre quadrinhos. Claro que, hoje, quando leio aqueles textos do jornal mural, penso “Nossa, como eu pude escrever isso?”. Mas isso é natural com qualquer profissional, em qualquer ramo de atividade, quando se recorda de seu início de carreira!

Você se lembra do seu primeiro gibi?
Não me lembro exatamente do primeiro que li, mas tenho quase certeza de que foi um gibi da Mônica. Meu pai preferia comprar as revistas do Mauricio porque eram nacionais. Porém, a primeira que me marcou pra valer foi uma do Quarteto Fantástico, da Ebal. Mas não o tenho, pois era um gibi de um outro garoto que me emprestou a edição enquanto esperávamos pra ser atendidos num lugar que vendia xarope caseiro contra bronquite.

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Com a equipe do Universo HQ recebendo o prêmio HQ Mix de Melhor Site sobre Quadrinhos (2001).

E qual o tamanho da sua coleção?
Olha, a minha coleção é gigantesca, mas não a catalogo há anos. São milhares de exemplares. Na casa dos cinco dígitos!

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Sidney Gusman recebe, com o filho, o prêmio HQ Mix de Melhor Jornalista (2001).

Você acha que no Brasil ainda faltam editores de quadrinhos? As obras independentes perdem muita qualidade por não serem editadas?
Creio no Brasil há espaço para todo mundo. O que percebo é que os quadrinhos independentes estão mais profissionalizados em termos gráficos, de roteiro e desenho. Mas, em termos editoriais, não. É preciso muito cuidado com erros de português, diagramação dos quadros e paginação, por exemplo.

Ao longo de duas décadas de envolvimento com os quadrinhos, esse é o melhor momento para publicar no Brasil?
Acredito que passamos pelo melhor momento criativo do quadrinho nacional. Vemos muita gente boa produzindo e eu tenho falado bastante isso. Podemos encontrar muitos quadrinhos bons independente sendo lançados. Percebo muita gente produzindo e, mais, com coragem de produzir. Sempre falo: senta e desenha, ainda que você erre e seja criticado. Se a primeira crítica negativa que você ler te fizer desistir e não querer mais… Sinto muito! É a regra do jogo. Se colocou seu produto no mercado, ele está aí para ser criticado. Se não aceita crítica, faz seu quadrinho e mostra para você e para sua mãe. Existe o quadrinho “de autor” e o quadrinho “pro autor”, que só ele gosta, só ele entende e se alguém achar ruim… E, agora, o pessoal também sacou os eventos e direcionam os lançamentos para o FIQ, a Gibicon, a Comic Com Experience

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Sidão, Mike Deodato e JJ Marreiro em João Pessoa (2002).
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Com Adão Iturrusgarai, Laerte, Angeli e Glauco no Festival de Quadrinhos de Recife (2002).
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Sidney Gusman, Sonia Luyten e Lailson Cavalcanti no Festival de Quadrinhos de Recife (2002).
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Com Marcelo Naranjo recebendo o prêmio HQ Mix de Melhor Veiculo sobre Quadrinhos (2006).
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Sidney Gusman entrevista Giancarlo Berardi no FIQ (2007).

Quais são os quadrinhos que você considera os melhores de todos os tempos?
Poxa, há tanta coisa bacana por aí… Vamos lá: Companheiros do Crepúsculo, do francês François Bourgeon, é um primor de HQ, que merecia ser filmada pelo cinema; O Cavaleiro das Trevas é, para mim, a melhor história do Batman em todos os tempos; Spirit, do mestre Will Eisner leva meu voto pelo conjunto da obra; Watchmen, por mostrar que quadrinhos de super-heróis podiam ir além do ponto em que então se encontravam; Ken Parker, de Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, vale pela série toda; Um Contrato com Deus, do Eisner, é um primor também; gosto de Asterix e Lucky Luke, na fase escrita por René Goscinny; Corto Maltese vale pelo conjunto da obra, mas especialmente por A Balada do Mar Salgado e Sob o Signo do Capricórnio. Minha lista ainda segue com Lobo Solitário, que é a melhor HQ de samurais que li. Traço de giz, do espanhol Miguelanxo Prado, ganha por ser uma das melhores HQs de viagem no tempo que li. Os Passageiros do Vento, do François Bourgeon, é outro clássico das HQs europeias. O Sandman, de Neil Gaiman, é uma das melhores séries de quadrinhos de todos os tempos. Calvin e Mafalda, pela genialidade num espaço tão diminuto quanto uma tira. E muitos outros.

mauricioHá alguns anos, você escreveu um dos livros mais completos sobre o Mauricio de Sousa. Como surgiu essa ideia? Trata-se de um convite do próprio Mauricio?
A ideia foi minha. Eu já escrevia livretos da coleção 100 Respostas para a Editora Abril (Super-Heróis, Hanna-Barbera e Batman) e pensei em fazer o mesmo com o Mauricio, pela Globo, editora dele na época.
Quando ofereci o projeto, a editora sugeriu algo mais amplo, o que topei de imediato. Assim nasceu o Mauricio – Quadrinho a Quadrinho que saiu pela Globo, em 2006.

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Com Mauricio de Sousa, na Bienal do Livro de SP, durante o lançamento do Mauricio Quadrinho a Quadrinho (2006).

É verdade que o Mauricio gostou tanto do livro que você escreveu que acabou te contratando para trabalhar com ele?
Pois é! Durante uma palestra de lançamento do livro, na FNAC Pinheiros, em São Paulo, o Mauricio, ao responder uma pergunta, disse que faríamos muitas coisas juntos. Eu, surpreso, perguntei: “Ah, é? Você não me avisou!” (risos). Ele riu e, após a palestra, disse que pensava em montar uma área pra mim, aproveitando o meu conhecimento do mercado e o meu gosto por pesquisa. Aí, o Mauricio me chamou pra coordenar a área de Planejamento Editorial, que basicamente cria projetos para os mercados de quadrinhos e de livros ilustrados. Desde outubro de 2006, felizmente, muita coisa foi publicada. Desde a Coleção Histórica Turma da Mônica e as Tiras Clássicas da Turma da Mônica aos MSPs 50, as Graphics MSP e muitos, muitos livros.

Como surgiu a ideia das HQs do selo Graphic MSP? O que motivou a criar o projeto?
A ideia nasceu com o projeto MSP 50, quando o Mauricio fez 50 anos de carreira, em 2009. Eu bolei um projeto, de pegar 50 artistas brasileiros de quadrinhos e colocar os personagens do Mauricio nas mãos deles, em histórias curtas. Aí, começaram a vir versões incríveis e eu pensei: “cabe mais”. Fiz a trilogia, com MSP +50 e MSP Novos 50, porque, como eu sempre brinco, todo nerd adora trilogia. Mas percebi, na época do segundo volume, muito pelo barulho que comecei a fazer pela internet, angariando fãs que voltaram a ler Mauricio de Sousa, que aquilo era sucesso de público e crítica. Então, falei para o Mauricio que rendia mais, que dava para fazer graphic novels, com narrativas longas, com mais fôlego, e ele me mandou tocar o barco.

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Sidney Gusman e Mauricio de Sousa no lançamento da MSP +50 (2010).

Como é trabalhar tão próximo ao Mauricio de Sousa?
O Mauricio impressiona pela vitalidade. Isso porque, há uma década e meia, pelo menos, cuida muito bem da saúde. E faz muito bem, pois seu ritmo de trabalho é alucinante. Creio que o Mauricio tem, além da qualidade em seus materiais, um faro apurado para negócios. Antes mesmo de ter uma revista pela Abril, ele percebeu que o merchandising seria vital para fazer sua família de personagens crescer ainda mais, por exemplo.

Nesses anos em que trabalho diretamente com ele, comprovo o que me moveu quando recebi o convite pra trabalhar na MSP: eu teria e tenho muito a aprender com o Mauricio. Dito e feito! É impressionante o quanto o Mauricio enxerga à frente.

Sidão, eu gostaria de agradecer em nome dos colecionadores por todo o excelente trabalho que você nos proporcionou todos esse anos e também agradecer você por dividir seu tempo e sua história com todos nós.  🙂

Vocês podem encontrar o Sidão no Facebook e também conferir aqui uma parte dos trabalhos produzidos por ele.


Renato Frigo
Se encontrou no mundo das HQs e de lá disse que não volta nunca mais…

Um comentário em “Entrevista | A vida imita a arte: conheça a história do colecionador, jornalista e editor Sidney Gusman

  1. Excelente entrevista. Sempre li material editado pelo Sidão. UniversoHQ é parada obrigatória.
    Profundo conhecedor e apaixonado por quadrinhos. É dos nossos.

    Parabéns, Renato, pelo post!

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