Entrevista | A arte de Paulo José

colunista_MarcosMassoliniO artista pernambucano Paulo José, que gentilmente respondeu às perguntas para essa entrevista exclusiva ao CdHQs, é um dos grandes batalhadores da Sétima e da Nona Arte no Brasil e é mais do que merecido que tenha em destaque os pormenores de sua extensa carreira, ainda em intensa atividade.

Paulo José, você certamente é um dos artistas que mais batalharam dentro do universo da animação e dos quadrinhos no Brasil. Dessas duas atividades, que sempre permearam sua carreira, qual chegou primeiro em sua vida e qual inaugurou sua carreira?

Eu lia muito “gibis” quando criança porque gostava de desenhar. Pra mim era um hobby, coisa que fazia o tempo todo, sempre quer tinha um lápis e papel à mão. Mas nunca me passara pela cabeça que um dia viria ser um desenhista. Eu queria mesmo era ser um ator. E foi assim que comecei… Meu primeiro emprego foi como ator na TV Rádio Clube de Pernambuco e como locutor na rádio Tamandaré do Recife. Na TV interpretaria um herói do seriado “O Gavião” transmitido duas vezes por semana ao vivo (na época tudo era transmitido ao vivo, não se gravava nada). Eu estava com 17 anos, embora parecesse ser mais velho, graças ao halterofilismo que praticava e que me dera um corpo de super-herói.

Talvez por isto, tenha sido escolhido para o papel do Gavião, um herói que usava uma roupa plagiada do Fantasma (criação do Lee Falk) e também dublê de inspetor de polícia que se fantasiava como Gavião quando queria agir contra os bandidos sem precisar seguir os preceitos da lei. Era um misto de Fantasma com o Spirit do Will Eisner. Com o advento das transmissões “Via Embratel” o mercado de trabalho para atores no Recife se fechou, pois quase todos os programas da televisão eram realizados no Rio e São Paulo. Assim como tantos outros atores, imigrei para São Paulo onde trabalhei como dublador e locutor de rádio. Um dia, o Renato Mello, um antigo colega do Recife que na ocasião trabalhava como diretor de criação de uma agência de publicidade, sabendo que eu gostava de desenhar, me convidou para conhecer os Studios Guy, que animava os comerciais do Arroz Brejeiro de sua agência, comerciais de grande sucesso na época.

O Guy Lebrun foi também o primeiro a animar a Mônica do Mauricio. Fiquei maravilhado com todo processo de se fazer um desenho animado. Aproveitei a oportunidade e pedi ao Guy uma chance. Fiz um teste e comecei como aprendiz de animador durante um período, pois noutro trabalhava como locutor numa emissora de rádio local. Com o tempo o Guy me convidou para trabalhar em tempo integral na produtora. Assim sendo, profissionalmente eu comecei como animador.

 

Nos relembre a trajetória do Bingo, por favor, incluindo sua primeira aparição na revista Crás…

Eu era ilustrador numa agência de propaganda, isto queria dizer que “marcava” layouts para anúncios em jornais. Ou seja, desenhava geladeiras, televisores, maquinas de lavar e principalmente storyboards. Nas horas vagas rabiscava tiras de uma formiga, pois era fã das tiras do Johnny Hart, principalmente das suas formigas. Não gostava muito da minha vida de “publicitário” queria mesmo era desenhar bonequinhos. Por isto fui pleitear uma vaga na Editora Abril como ilustrador, mas eles já tinham ilustradores demais, o que precisavam mesmo era de roteiristas. Fui encaminhado para um editor, Odair era seu nome (se não me falha a memória) que me perguntou se eu tinha algum personagem, pois precisavam para uma revista que iriam lançar. Disse que sim, e mostrei algumas tiras. Traga-me uma história. Fui pra casa e escrevi. Traga-me outra. Agora ferrou, pensei… Fazer uma eu fiz, mas fazer outra… será que consigo? Consegui. Só faltava um nome para o personagem. Escrevi vários nomes e mostrei para amigos e parentes… Escolheram Bingo! Foi assim que Bingo teve sua primeira aparição numa revista de quadrinhos.

 

A partir daí você engatou diversos trabalhos na Editora Abril, como capista das revistas Disney, roteirista da Turma do Pererê e de personagens da Hanna-Barbera na revista Heróis da TV, além de participar do Projeto Tiras. Como foi esse período para você?

Foi muito criativo e frustrante ao mesmo tempo. Digo frustrante por causa do Projeto Tiras que muito prometia aos novos autores, mas que supostamente foi embargado ou interrompido por um famoso autor campeão de vendas, que teria alegado concorrência desleal da Abril e como ele era muito importante para a própria editora o projeto foi parado (pelo que me contaram, não posso afirmar que seja verdadeiro). Mas o fato é que o Projeto Tiras foi misteriosamente encerrado sem explicações para nós autores. Mas este período na Editora Abril me deu alegria e oportunidade de conviver com gente muito criativa e grandes profissionais. Tive felicidade de escrever para o Pererê e conhecer o Ziraldo que me escolheu como roteirista padrão da revista Pererê. Conheci outras feras dos quadrinhos que transitavam por lá na época e convivi no departamento de capas com grandes desenhistas e ilustradores como o Luiz Podavin, Isomar, Napoleão, Farias, Avalone, letristas como o Borges e o Natan, o Primaggio, Ruy Perotti, Igayara e muita gente talentosa. Peço perdão por me abster de citá-los todos para não cometer o pecado de esquecer-me de alguém.

 

Em 1978 saiu uma revista especial pela RGE, “Coalhada na Copa”, parceria sua com o grande Chico Anysio em adaptação colorizada das tiras que já saíam em jornais. Em que momento você se aproximou do Chico? As tiras continuaram por um tempo?

Na ocasião eu fazia ilustrações para agências de publicidade e o redator de uma delas, creio que a Thompson, por saber que eu fazia quadrinhos, me convidou para desenhar uma série de tiras para uma campanha da Ford com o Coalhada, personagem do Chico Anysio. Fiz os esboços, que foram aprovados pelo Chico. Depois eu ia uma vez por semana me encontrar com ele, num teatro do Bixiga onde ele dava um espetáculo. Ele me passava o texto das tiras novas que eu desenhava e mostrava na ocasião as tiras já prontas. Posteriormente, terminada a campanha, me chamaram na RGE para que eu desenhasse uma revista inteira com o Coalhada, tendo em vista a Copa da Argentina. Tive que desenhar num tempo recorde para alcançar o momento da Copa. Desenhei à toque de caixa, por causa do prazo, e por isto não fiquei muito satisfeito com o resultado final. Apesar de toda correria, a gráfica atrasou, e quando a revista chegou às bancas o Brasil já tinha sido eliminado. Foi o maior encalhe, pois ninguém queria ouvir falar em futebol.

 

Em 1979, você foi convidado pela Hanna-Barbera a trabalhar em seus estúdios na Califórnia (EUA) e por lá ficou um bom tempo. Como foi esse contato e o que produziu por lá?

Quando trabalhei na Abril, fiquei amigo do Ruy Perotti, que me convidou  para dirigir seu estúdio de animação, pois eu estava com saudades de animar. Lá eu acabei animando um comercial com o Fred Flintstone para uma loja de ferragens. Este comercial acabou chegando às mãos do vice-presidente da Hanna-Barbera,  Art Scott, que mandou-me um convite através do representante deles aqui no Brasil.

Fui. Mas foi complicado, pois eu não poderia trabalhar sem ser sindicalizado e o sindicato só me aceitaria se estivesse trabalhando formalmente. E para tanto eu precisava do Green Card. Fiquei como trabalhador informal por um tempo, mas me sentia muito só (me encontrava num processo de divórcio) e caí em depressão. Fiz amizade com um animador holandês, Hack Fik, que amava o Brasil e sonhava morar aqui.

Foi então que planejamos produzir filmes para a Hanna-Barbera no Brasil.  Voltei pra cá e fundamos a Thalia Filmes. Animamos um episódio dos Snorks e outro para a Marvel – “Little Clowns of Happytow”.

Nesta época tudo era filmado ainda em table top, animado em papel e transferido para acetato. Nós recebíamos cinquenta por cento da verba no início da produção e o restante na entrega do “copião” (o negativo em película).  Era época do Sarney, com inflação galopante e em  um de seus planos congelou a taxa de câmbio com o dólar valendo Cz$ 13,84. Quando fomos receber a parte de dólares restantes pela entrega do copião foi um dos maiores desastres de minha vida. Para que se tenha uma ideia de comparação, onde eu esperava receber três, só recebi um cruzado, ou seja, só recebi um terço do que esperava receber quando fazia a troca de dólares por cruzados. Aí, não deu pra continuar. Atolado em dívidas voltei a fazer ilustrações para editoras e agências de propaganda.

 

Também coube-lhe a responsabilidade pela montagem do estúdio de animação Mauricio de Sousa – Black & White, com os primeiros curtas e longas metragens da Turma da Mônica animados e dirigidos por você e equipe. Nesses tempos, dificuldade técnica e superação andavam juntas?

Não sou bom para guardar datas, mas esta passagem pelo Maurício foi anterior aos acontecimentos da  Hanna-Barbera  e Thalia  Filmes.  Inclusive quando a Thalia  fechou, voltei a trabalhar para o Maurício como prestador de serviços, fazendo planejamento de curtas – lembro-me de um em que o Cebolinha é um super-herói e outro onde é um detetive.

Mas voltando a sua pergunta, realmente foi uma coisa pioneira, pois até então não se produzia desenhos animados de curta e longa metragem no Brasil (com exceção da Sinfonia Amazônica de Anélio e Mario Latini).  Ainda não sabíamos como trabalhar em equipe. Os animadores estavam acostumados a trabalharem sozinhos em comerciais. Não sabíamos como juntar vários animadores num mesmo filme. Foi para nós um aprendizado novo. Como combinar estilos diferentes? Como animar cenas diferentes com animadores diferentes e principalmente como combinar o final de uma cena com o inicio de outra sem que se perdesse a continuidade das que estavam sendo animadas ao mesmo tempo? Daí que descobrimos a necessidade do “planejamento”. Digo descobrimos, pois não sabíamos ainda como animar em equipe. Hoje talvez pareça uma coisa óbvia, mas na época era tudo novidade, pelo menos para nós.

 

Seu personagem Sapo Xulé, baseado na cantiga de roda “O Sapo Não Lava o Pé”, acabou fazendo grande sucesso a partir dos anos 80 e se espalhou para os quadrinhos, revistas de atividades, games, virando até brinquedo. Esse simpático batráquio lhe trouxe sorte, não?

Por enquanto ainda não, mas, breve estarei lançando uma graphic novel com o sapo. Vamos ver como ele se comporta.  Ah também assinei um contrato com uma produtora canadense para produção de um longa metragem para dentro de um ou dois anos, dependendo da captação de verba.

 

Do final dos anos 80 até o início do novo século, várias revistas em banca contaram com sua participação – Revista da Xuxa (Globo), Revista do Faustão (Abril), Revista da Angélica ( Bloch/Manchete), Menino Maluquinho (Globo), entre outras. Para suprir essa produção toda, você tinha uma equipe grande ao seu lado? Como era a sua logística?

O Menino Maluquinho eu apenas colaborei com alguns roteiros. As revistas da Xuxa e Angélica eu tocava com o Henrique De Farias num pequeno estúdio na Rua Passo da Pátria, Lapa. Tínhamos colaboradores “freelas” para roteiros e às vezes desenho, acho que o Aluir Amâncio ( Andrea, a Repórter) chegou a desenhar alguma coisa. Na maioria eu desenhava e o Farias fazia arte final. A revista do Faustão eu desenhava e também fazia alguns roteiros, porém a maioria dos roteiros eram criados pelo Marcelo Barreto (Verde).

 


Nesse ínterim, surgiu o jornal infantil KidNews, só com quadrinhos, pela sua editora Bingo – um marco nesse tipo de publicação por sua distribuição em escolas, além de contar com patrocinadores inseridos no formato HQ. Como você vê hoje esse projeto pioneiro, que durou anos e fez você criar inúmeros personagens, entre eles o carismático “Indiozinho sem Nome”?

Eu criei um piloto de um suplemento infantil para um jornal que era distribuído gratuitamente em São Paulo que se chamava Shopping News ( Daí o nome Kidnews). Mas eles não quiseram comprar o projeto. Mostrei este suplemento para o Vitor Hugo, um gerente de produto da Tec Toy com a intenção de conseguir o patrocínio daquela empresa.

Eu havia conhecido o Vitor quando fiz a capa do vídeo game da Xuxa. Mas para minha surpresa o Vitor disse-me: – “A Tec Toy não tem interesse, mas eu tenho!” Ficamos sócios na Editora Bingo. O Roberto Munhoz que tinha trabalhado na Thalia Filmes, dividia comigo um estúdio no Sumaré e juntou-se ao grupo. O Munhoz era o roteirista dos personagens que eu criava. Depois veio o Genival de Sousa juntar-se ao grupo criando histórias hilariantes.

 

Seguindo o nicho, você criou personagens avulsos para revistas institucionais e para produtos como sorvete, chocolate, bebidas infantis, iogurte, etc, além de cartilhas sociais. Publicidade e quadrinhos dão um bom casamento até hoje?

O quadrinho é um veículo para qualquer tipo de conteúdo. É bom não esquecer que uma imagem diz mais que mil palavras. Gosto de pensar que a palavra ‘imaginação” quer dizer imagem em ação. O quadrinho é a linguagem que utiliza imagens. Pode-se contar uma história sem palavras, só com imagens. Portanto o quadrinho pode ser utilizado para ensinar nas escolas, para anunciar um produto, para transmitir uma ideia ou para simplesmente divertir.

 

As suas incursões em histórias em quadrinhos voltadas para o espiritismo são bem interessantes. Tenho em minha coleção o ótimo gibi “Bingo em Vida Nova para Zé Mutreta” e algumas revistas do personagem Andrezinho. Como se deu essa sua aproximação com a doutrina kardecista?

Tive formação católica, estudei em colégio de padres e aos 15 anos era ateu. Não podia aceitar aquele Deus que ensinavam na escola. Passei a duvidar de tudo aquilo que contrariava a lógica e o bom senso. A razão, o raciocínio, antes de tudo. Aos dezoito anos caiu-me às mãos o Livro dos Espíritos de Alan Kardec. Todas as perguntas que trazia não respondidas pelo catolicismo estavam ali respondidas. Passei a ler e estudar espiritismo, esoterismo, filosofia yoga e até hoje me considero um estudante destas filosofias. Este gibis que fiz foi minha maneira de contribuir para uma visão mais lúdica destas ideias. O Andrezinho é uma ficção sem nenhuma semelhança com o espirito André Luiz, é apenas uma homenagem a este espírito. Recentemente lancei pela Amazon um ebook, “Pedro Vê Gente Morta” e também uma releitura do “Vida Nova para Zé Mutreta” com o título de “Aventura Insólita” em 2 volumes.

 Atualmente, aos 73 anos (me desculpa por essa indiscrição), você continua a todo vapor, ilustrando para livros didáticos e produzindo quadrinhos e roteiros. Eu acompanho suas duas ótimas séries na internet, “Metamorfose”, que traz como protagonista uma barata estatelada no chão (!) e as aventuras do “Inspetor Silva”. O Bingo vira e mexe ainda aparece em tiras. Criar e desenhar ainda te emociona?

Não é indiscrição, este ano farei 74.  Pra mim é uma necessidade, é como respirar. Não dá pra parar, principalmente agora que estou aposentado. Criar é preciso!

Se fosse pensar em um “projeto dos seus sonhos”, qual seria?

Em 2012 fui selecionado para participar do Laboratorio Novas Histórias com um roteiro do Indiozinho Sem Nome. Tive a oportunidade de receber conselhos e orientações do David Seidler, autor do roteiro premiado com o Oscar  “O Discurso do Rei”. Segui suas orientações e fiz algumas mudanças no roteiro. Pretendo fazer um longa metragem em desenho animado deste roteiro. Ou se não der, farei uma história em quadrinhos. Este é um dos meus sonhos, pois ainda tenho muitos na gaveta. Espero realizá-los antes de desencarnar.

 

Foi uma grande honra entrevistá-lo, Paulo José! Muita sorte em seus projetos! Se quiser passar o contato para futuros jobs, fique à vontade.

A honra foi toda minha. Nunca me senti tão importante, apesar de achar que nada é importante, apesar de tudo ser importante, como diria certa barata.

Obrigado! Abração!

 

Contato

Paulo José da Silva
(11) 38310863 | (11) 964341139
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Marcos Massolini

Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

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