Em busca de um ídolo (parte II – O encontro)

Acontece que minha mãe tinha um primo dela que trabalhava na RGE – o Gilberto Mauro – e acabou combinando com ele a tão sonhada visita na editora. Para um menino de 08 anos que ia brincar nas ruas com seus gibis (enquanto os outros garotos jogavam bola) era como ganhar uma viagem à Disneylândia.

Arte original da Gibi Semanal #24
Arte original da Gibi Semanal #24

Pois bem… Viagem marcada, fomos para o Rio de Janeiro: eu, minha mãe, meu pai e minha irmã Cecilia, em um possante Maverick 74, amarelo canário! Saímos cedo de Nova Friburgo, mas meu pai, embora fosse um bom motorista, conseguiu se perder nas ruas do Rio de Janeiro.

Hoje, depois de tantos anos, sei da simplicidade que é chegar ao Rio Comprido, mas me lembro claramente que ficamos quase duas horas no Centro, dando voltas sem fim. Meu pai estava muito irritado, e falou um monte de merda, já que as coisas estavam fugindo ao seu controle.

Eu, que estava quietinho no banco de trás, comecei a ficar triste. Parecia que o sonho não iria se realizar. O Rio de Janeiro me pareceu imensamente grande, e conhecer o Walmir e o Murilo talvez fosse uma missão digna de uma aventura estampada nas Histórias em Quadrinhos que eu tanto amava – missão essa que, naquele momento, estava mais para a fantasia do que para a realidade.

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fonte: Guia dos Quadrinhos

Sei lá o que aconteceu, mas, de repente, um milagre: estávamos na Rua Itapiru, onde ficava a RGE – no meu caso, o Templo Sagrado de meus sonhos de menino. Dali em diante, chegar ao número 1209, e entrar no prédio da editora foi mesmo o momento mais mágico de minha infância.

Conforme combinado, fomos recebidos pelo Gilberto, que logo se apressou a nos mostrar as instalações da editora. Eu fiquei mais enfeitiçado ainda – como toda criança que curte Quadrinhos, tinha o sonho de estar ali, dentro de uma editora, participando da produção dos gibis que tanto amava.

Foi aí que minha mãe disse ao primo que eu queria falar uma coisa. E o que era? Eu queria ver o Murilo e o Walmir. Mas como pode ser isso? Como um pentelho desse tamanho poderia saber da existência de dois artistas da casa?

Acho que o Gilberto pensava que um garoto da minha idade não poderia ter uma percepção desse tipo.

Fantasma – A Grande Sabotagem (Original de Walmir Amaral)
Fantasma – A Grande Sabotagem (Original de Walmir Amaral)

– Olha, o Murilo não está, mas o Walmir sim. Espera um instantinho que eu vou chamar. Fiquei paralisado com esta frase. O Walmir estava lá.

Não demorou muito, e o Walmir apareceu. Tanto eu quanto ele ficamos alguns segundos paralisados, mas acabei abraçando o Mestre, tamanha a emoção que senti. Conforme disse antes, ver aquela assinatura nas capas do Gibi Semanal me encantava tanto quanto as histórias que eu lia.

Walmir – lembro bem disso – ficou com os olhos cheios d’água, mas logo se recompôs, e me puxou pela mão, fazendo uma nova apresentação da RGE.

Hoje compreendo que ele deve ter ficado surpreso em ter um fã tão pequeno – justamente em uma época que os artistas brasileiros não tinham o reconhecimento que têm hoje. Na minha inocência infantil, devo ter feito muito bem ao Mestre, então com 36 anos de idade. Creio que o reconhecimento do seu trabalho através dos olhos de uma criança deva ter um valor sem igual.

Por conta disso, além de um monte de gibis da RGE, o Mestre me presenteou com algumas artes suas, mas isso vou contar no capítulo seguinte.

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Quadrinhólatra Obsessivo-Compulsivo, sem a menor chance de cura.

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