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1. Um desabafo e uma intrUntitled-1odução

Não queria começar tudo com uma negativa, mas o que mais me motivou a começar a escrever esta coluna foi exatamente o fato de NÃO estar mais apaixonado (além do convite do Frigo, claro). Depois de quase 10 anos “fabricando” quadrinhos, bate um bode, um ranço, uma preguiça danada de começar a ler qualquer coisa que tenha balões com letrinhas dentro. Precisou mais 10 anos afastado pra sentir vontade novamente. No começo, era quase um fetiche, só pra poder falar mal. Mas depois aquela coisa de moleque onanista foi voltando. O cheiro da tinta, a textura do papel, a rigidez da lombada – é, é erótico. Às vezes melhor que sexo. Às vezes melhor até que pizza.

rebordosa
O underground bonito. Mas safado.

Eu, antes rato de sebo, avesso a qualquer coisa que tenha capa e cuecas por cima da roupa achei melhor voltar aos pouquinhos. Como aquele gordo que acha que vai ser artilheiro na pelada de solteiros x casados fui até uma dessas livrarias pasteurizadas comprar a nata do underground para hipsters e afins. Duas edições me incomodaram profundamente e me fizeram ter um flashback que me deixou um gosto azedo na boca; aquele gosto que fica depois de um porre homérico, aquele porre que faz você acordar abraçado com a privada, com uma dor nos cornos que faz a gente pensar se não seria melhor que a crise de mísseis em Cuba não tivesse ficado só na ameaça. Agora a América é amiguinha de Cuba, agora a Rê Bordosa é vendida no Shopping Iguatemi.

Os álbuns da Companhia das Letras que trazem os personagens do Angeli são de um primor gráfico que me espantou! Lindos!! Extremamente bem impressos!!! Mas cadê a porra da edição!?!?!?! Queridos, um material desses, sem sequer uma INTRODUÇÃO? Nada, nem um prefácio ou posfácio, nem uma resenhazinha, nem sequer dizer que infernos é aquele amontoado de tiras. Tá tudo lá? São escolhas do autor? Tem material inédito? Estão em ordem cronológica? AAAAAAAAAaaaeeeeeaargh! Sério, não consigo entender como uma editora “séria” publica algo com essa importância histórica de maneira tão escrota e (des)importante.

paralelas
Um álbum que merecia mais respeito.

Outra zica, que eu até entendo, mas não perdoo é o álbum do Watson Portela (Paralelas) lançado pela Devir. A Devir nunca foi famosa pelo primor gráfico nos trabalhos (principalmente os 100% nacionais). Desde os anos 90 eu venho dizendo que Paralelas e a saga Piratininga (do Arthur Garcia) mereciam álbuns que lhes conferissem o devido valor. Vi o Paralelas na Comix (ponto pra Devir) e nem perguntei o preço (mesmo sabendo que o valor da edição iria arrancar meu fígado por um punhado de quadradinhos). Pedi pro Ed cobrar e nem abri o plástico: fui pra casa com aquele livrinho mágico. O Moebius brasileiro. O cara que me fez entender que ficção científica poderia ser legal (eu tinha um puta preconceito em relação a esse tema nos anos 80, mas OK). E quando eu começo a folhear a dita obra vem aquele amargor do porque tinha parado com esse maldito vício. Logo na 1ª página tem uma cartinha do Portela falando bem por cima do propósito da obra, mas não tem um editorial, não tem nenhuma explicação do que está ali, não tem nada. Mas OK, é a Devir. Mas o pior não é isso. Diferentemente do trabalho raso da Cia. das Letras, esse além de raso é mal tratado. Tão mal tratado que se fosse uma mulher a editora seria presa pela lei Maria da Penha.

detalhesdemais
Quadro que tem “detalhe”até demais…
detalhesdemenos
…e outros que tem de menos.

Logo na 2ª página de quadrinhos a primeira cena está toda borrada, e o problema não é da impressão, é simplesmente um photoshop porco. Na Voo Livre 2 os traços simplesmente SUMIRAM! Puta falta de respeito com o autor, e pior: COMIGO! Enfim…Eu sou chato pra caralho mesmo. E boca suja também. Se o Frigo cortar todos os palavrões, minha coluna vai ter no máximo 2 parágrafos. E além de palavras de baixo calão pensei em escrever como esse tipo de lixo editorial nasce. AH! A imprensa marrom! A sub arte! O nerdismo em sua essência máxima! Não pensem que eu desprezo os quadrinhos. Muito pelo contrário, eu AMO. Mas eu nunca fui d’O Conclave, nunca frequentei a gibiteca Henfil, nunca mutilei, ops, retoquei os formatinhos da Abril, mas já dei meus pulos nesse mercado. Fui Editor de Arte na Opera Graphica (heeeeeim? Oquequeéisso tio?) durante uns 10 anos, e acho que sei muito bem porque essas obras que citei acima saíram do jeito que saíram. Saíram assim não por falta de amor à arte, não por desprezo, não por falta de conhecimento. Saíram assim porque tudo nessa área no bRRRAZIL é uma puta zona. Tirando a Panini e o Mauricio (de Sousa) é tudo fanzine! E olha que isso é recente, de uns 10 anos pra cá. Antes, nem te conto.

livrosopera
Um pouquinho do acervo da Opera Graphica. Não vai faltar história pra contar.

Ou melhor, vou contar sim. Mas vou contar do meu jeito. Bêbado, puto, bem louco, virado, com raiva, com amor, com desprezo, com tesão, com fome, sujo e com frio. Como um Henry Chinaski ou um Arturo Bandini*, onde o personagem é o autor, o autor personagem, mas não é. De forma tosca e turva. Muita gente vai dizer que não foi assim. Foda-se, não deve ter sido mesmo. Mas é como eu me lembro. Alguns vão ficar putos comigo, outros vão tentar me ridicularizar. Mas, espera aí, como ridicularizar o ridículo? Talvez levando algumas coisas a sério demais? Pois é, eu cheguei lá. Quase enfartei (2x). Quase quebrei uma cadeira na nuca do dono da editora. A edição d’A Piada Mortal com hot stamp dourada que só eu tenho ou a edição em papel couché do álbum do Colin que virou apara**. Fiz (um monte de) coisas que não me orgulho, mas a meia dúzia que me orgulho, aaaaah, vale a pena morrer por isso!

Estamos em um blog que se auto-intitula “Colecionadores de Quadrinhos”, então se você quer saber qual o arco de histórias mais legal do Homem-Aranha vai ler a coluna do Roberto “Tá Falado” Guedes, ou se quer saber sobre a cor do lenço do TEX a coluna do Adriano Rainho. Aqui vou tentar manter a narrativa girando em torno de algo que seja minimamente colecionável, mas prefiro falar sobre as pessoas, os sentimentos, o nanquim correndo nas veias, e principalmente os barracos (que não foram poucos, viu) do dia a dia de uma editora que nasceu e morreu (e virou um zumbi. Zumbis são MUITO legais!) por amor à arte.

O problema é que talvez seja tudo mentira.

* Personagens-alter-egos de Charles Bukowiski e John Fante.
** Apara é o resto do papel que sobra na gráfica e vai para reciclagem.


André Hernandez
Já desenhou, editou e odiou. Agora está voltando a amar.

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