03-11-2017

Por

Dylan Dog em “Os Matadores”

Editora: Record
Autores: Tiziano Sclavi (texto), Luca Dell’Uomo (desenhos)
Preço: Cr$ 1.500,00 (preço da época)
Número de páginas: 100
Data de Lançamento: Janeiro de 1992

Sinopse
Sem nenhuma razão aparente, diversos cidadãos londrinos passam a cometer atos aleatórios de brutal violência, descambando rapidamente em uma onda de assassinatos de grandes proporções. Em meio a esses insólitos acontecimentos, um milionário chamado H. G. Wells contrata Dylan Dog para investigar a situação e ajudar a provar sua teoria de que Londres está infectada por uma “atmosfera de maldade”, que pode ser devidamente medida através de um miraculoso equipamento por ele inventado.

Crítica
“Os Matadores” é sem dúvida uma das minhas histórias favoritas de Dylan Dog, não apenas entre as lançadas pela editora Record, mas de toda a trajetória do personagem, pelo menos até onde tive acesso. Em alguma medida, todos os elementos que viriam a se configurar nos pilares do sucesso do personagem aparecem aqui: um mistério intrigante a ser desvendado, exposto através de um roteiro inteligente e construído através de um clima crescente de ameaça, contrabalanceado pelas intervenções cômicas de Groucho, e pontuados pela participação sempre importante do Inspetor Bloch e de algum rápido e conturbado affair de Dylan, culminando em um final-surpresa que, no caso específico dessa edição, chega até mesmo a ser chocante.

Sendo a aventura mais violenta do personagem entre as publicadas até então, aqui abundam cenas de mortes com tiros, facadas, agulhas de crochê e ferramentas diversas, chegando até a uma furadeira. Além da maneira convencional, todos esses fatos macabros vão sendo abordados através de um interessante recurso narrativo que consiste na exposição de manchetes e trechos de notícias do jornal Daily Mirror, que mostram os crimes isolados progredindo até se tornarem assassinatos em massa, originando grupos de reação entre a população apavorada e culminando com a intervenção do exército nas ruas, ilustrando um clima de fim do mundo semelhante àquele geralmente visto em filmes apocalípticos, em especial os que contam com epidemias de zumbis.

Contudo, a trama ainda acrescenta outros interessantes aspectos, como obscuras conspirações que visam tirar proveito do caos reinante, e a mistura sempre intrigante de tecnologia com elementos de magia e ocultismo.

Sem falar em uma empolgante sequência de perseguição de carro, que provavelmente seja a mais divertida que já tive a oportunidade de ver em uma história em quadrinhos.

Impossível não destacar também a participação do inteligente e carismático personagem H. G Wells, que, além do nome do famoso escritor de obras clássicas como “A Guerra dos Mundos” e “A Ilha do Dr Moreau”, também herdou semelhanças com a fisionomia do mesmo, em uma clara homenagem prestada pelo roteirista Sclavi. Aliás, personagem com nomes de escritores, atores e diretores ligados ao horror e a fantasia são constantes nas histórias de Dylan Dog e um dia escreverei um artigo só sobre isso.

Sobre os desenhos, podemos dizer que o trabalho de Luca Dell’Uomo nessa edição é simplório. Se por um lado estão longe de poderem ser consideradas ruins, por outro as ilustrações pouco contribuem para tornar a degustação da história mais relevante, exceção feita, talvez, à cena da perseguição de carro, onde temos alguns quadros com ângulos realmente criativos.

Não posso encerrar sem fazer uma menção ao final da história, que, além de surpreendente, me chocou por revelar uma faceta fria e maquiavélica de Dylan Dog que ainda não conhecíamos. A reflexão que fica é: o que fazer para resolver um grave problema quando as soluções óbvias se mostram corrompidas e incapazes de funcionar? O Investigador do Pesadelo deu a resposta do seu jeito.

Classificação

 André Bozzetto Jr
Graduado em História e Mestre em Letras, tem como um de seus hobbies colecionar histórias em quadrinhos. É fã dos personagens clássicos da Sergio Bonelli Editore, em especial de Dylan Dog, o Investigador do Pesadelo.

Deixe uma resposta