Dylan Dog em “O Fantasma de Anna Never”

Editora: Record
Autores: Tiziano Sclavi (texto), Corrado Roi (desenhos)
Preço: Cr$ 990,00 (preço da época)
Número de páginas: 100
Data de Lançamento: Novembro de 1991

Sinopse
Dylan Dog está tentando ajudar seu amigo Guy Rogers, um ator de cinema decadente e alcoólatra que vem sofrendo com terríveis pesadelos, onde são recorrentes brutais cenas de mutilações e assassinatos, além da suposta presença do fantasma de uma atriz principiante ainda viva, chamada Anna Never. Enquanto o Investigador do Pesadelo inicia um romance com a própria Anna, o estado mental de seu amigo Guy vai piorando progressivamente, se tornando cada vez mais difícil distinguir entre o que é pesadelo, loucura ou manifestação do sobrenatural.

Crítica
Nesta edição, temos pela primeira vez uma estrutura narrativa que posteriormente viria a se tornar recorrente nas aventuras de Dylan Dog, e consiste em propor ao leitor o desafio de tentar entender se os fatos que ele acompanha fazem parte da realidade objetiva da história ou se configuram apenas em delírios da mente de algum personagem. Neste caso específico, a mente em questão é a do ator Guy Rogers, e o foco da ação está centrado na busca de Dylan por respostas que levem a concluir se o amigo tem mesmo vivenciando experiências sobrenaturais ou se apenas se vê às voltas com problemas mentais.

Se desenvolvendo em um ritmo bem mais lento do que na alucinante edição anterior, o marasmo da investigação acaba sendo contrabalanceado com as tiradas de Groucho, que aqui parecem mais inspiradas que de costume, contando inclusive como boas gags visuais, como na cena da queda do cenário, no estúdio cinematográfico. Além disso, a própria Anna Never contribui com a comicidade geral através do seu jeito atrapalhado e desastrado, deixando claro que, como atriz, se daria muito bem no ramo das comédias.

Provavelmente o ponto alto dessa história seja a reflexão final acerca do velho paradoxo que contrapõe “determinismo X livre-arbítrio”, aonde vem à tona o questionamento de até que ponto somos realmente livres para tomarmos nossas decisões e a partir de onde nossas vidas seguem um rumo já traçado pelo destino. Também temos nessa aventura um primeiro flerte, ainda que de leve, com a ideia de dimensões paralelas e realidades alternativas que ocasionalmente se entrecruzam, algo que viria a ser explorado com mais profundidade em edições futuras.

Importante mencionar também a bela arte de Corrado Roi, com desenhos detalhistas e traços que conferem expressividade e realismo às fisionomias dos personagens.

Em última análise, “O Fantasma de Anna Never” certamente não é a melhor aventura do personagem, mas ganha pontos pelo final intrigante e por evidenciar um nítido esforço da parte do autor em desenvolver uma história que foge do convencional, abordando elementos consagrados no imaginário fantástico das histórias de terror, como fantasmas e psicopatas, mas sem se render às soluções simplórias e aos clichês.

Classificação

 André Bozzetto Jr
Graduado em História e Mestre em Letras, tem como um de seus hobbies colecionar histórias em quadrinhos. É fã dos personagens clássicos da Sergio Bonelli Editore, em especial de Dylan Dog, o Investigador do Pesadelo.

 

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