Dylan Dog em “Através do Espelho”

Editora: Record
Autores: Tiziano Sclavi (texto), Giampiero Casertano (desenhos)
Preço: Cr$ 4.900,00 (preço da época))
Número de páginas: 100
Data de Lançamento: Junho de 1992

Sinopse

Dylan e Groucho participam de um baile à fantasia promovido por Rowena Fairie, uma ex-namorada do Investigador do Pesadelo. Na ocasião, a anfitriã caracterizada de Morte toca em alguns convidados e dança com outros. Após a festa, essas pessoas começam a morrer misteriosamente e Rowena confidencia a Dylan sua desconfiança de que tudo está de alguma forma relacionado a um antigo espelho que ela adquirira recentemente e que acredita ser amaldiçoado.

Crítica

Contando com ótimos desenhos de Giampiero Casertano, essa é mais uma aventura onde os pontos altos não residem necessariamente no mistério que conduz o enredo, mas sim nas sutilezas de seu desenvolvimento, que possibilitam verdadeiras reflexões existencialistas ao se acompanhar o destino dos personagens. Sem dúvida, o elemento que mais me marcou foi o belo recurso narrativo de antecipar ao leitor o que ocorrerá no futuro de algumas pessoas mencionadas na história, ao mesmo tempo em que faz pontuais referências ao passado delas para nos ajudar a entender o porquê de suas atitudes. Esse intercalar de flashbacks e flashforwards enriquecem muito a trama, fazendo-a ir além do que poderia ser uma simples investigação de assassinatos para se tornar um instrumento de questionamentos sobre como se vive o tempo destinado à nossa existência terrena.

Mais do que em qualquer outra edição anterior, aqui até personagens secundários – que aparecem em apenas três ou quatro páginas – têm a oportunidade de brilhar, evidenciando a grande capacidade de Sclavi em criar indivíduos cativantes, fazendo com que a história se torne mais envolvente, pois nos importamos com o que acontece com eles.

Além das cenas de mortes violentas e “criativas”, geralmente envolvendo de alguma forma a presenças de espelhos ou outros objetos capazes de produzir reflexos, ainda temos como destaques a impagável sequência em que Groucho anda pelas ruas fantasiado de coelho, arrancando boas risadas de todos, e o diálogo, já próximo do final, entre Dylan e o Inspetor Bloch, onde este último apresenta uma série de argumentos “racionais” para justificar a série de mortes investigada, reforçando assim a eterna dicotomia entre a visão de mundo daqueles que acreditam e os que não acreditam em eventos sobrenaturais.

Também chama a atenção o fato de que nesta história a aura de “galã trágico” que geralmente ronda Dylan Dog está mais presente do que nunca. Não vou soltar spoilers, mas quem leu sabe do que estou falando.

Por fim, o único ponto que, a meu ver, deixou um pouco a desejar, foi justamente aquele que costuma ser o melhor das aventuras do Investigador do Pesadelo: o desfecho. Não que seja ruim – longe disso – apenas me pareceu um tanto abrupto e até óbvio, no sentido de que, entre as várias hipóteses sugeridas para a possível solução do mistério, o roteirista Sclavi parece ter optado pela mais simples.

Como curiosidade, esta é a primeira edição da Record a ser lançada sem a capa plastificada, uma medida que também atingiu as outras publicações da editora, em uma clara tentativa de reduzir custos para manter suas revistas em quadrinhos nas bancas em meio a crescente crise econômica que assolava o país na época. Infelizmente, como sabemos, isso não foi suficiente, e em seguida vários personagens bonellianos publicados pela editora carioca acabaram sendo cancelados, entre eles o próprio Dylan Dog, que teve apenas mais uma edição em sua série regular.

Classificação

 André Bozzetto Jr
Graduado em História e Mestre em Letras, tem como um de seus hobbies colecionar histórias em quadrinhos. É fã dos personagens clássicos da Sergio Bonelli Editore, em especial de Dylan Dog, o Investigador do Pesadelo.

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