Dragonero: O caçador de dragões chega ao Brasil

Edição inaugural de Dragonero pela editora Mythos traz ao Brasil uma excelente história de fantasia. E, por mais que não sejam elementos novos ao gênero espada e magia, o volume é muito eficiente ao criar um universo coeso, com mapas, raças e classes de personagens.

 

Não sou um jogador de RPG (Role-Playing Game) de mesa. Jogo esse onde os jogadores assumem papéis, criando seus personagens e atribuindo seus pontos fortes e fracos em uma grande narrativa coletiva.

Porém, o jogo não me é estranho, já que cresci jogando Final Fantasy, Chrono Trigger e Chrono Cross, e, nas gerações mais recentes de vídeo games, joguei Skyrim, The Witcher e vários outros.

Ou seja, sei identificar bem os elementos que constituem um bom RPG, como o mundo fantástico, envolvendo raças de elfos, homens e orcs. Onde existem várias classes de personagens, como os magos e guerreiros.

Porém, até mesmo o indivíduo que não jogou games que envolvem essa temática teve no cinema e na televisão o contato com produções que exalavam regras de RPG, como o clássico e influente O Senhor dos Anéis e a série que despertou muita atenção na última década Game of Thrones, com seus dragões e seu mundo fantástico.

É dessa forma que, desde o leitor acostumado com o gênero de fantasia até o que não o conhece tão bem, percebe-se elementos familiares ao ter em mãos DRAGONERO: O CAÇADOR DE DRAGÕES.

Nas terras de Erondar, existe a barreira de Valo, uma grande muralha que separa as terras desoladas dos dragões e o Império. Dentro da Antiga Interdição, selado pelo sacrifício de vários dragões milenares, existem as barreiras que impedem os abominosos, mestres das ordens demoníacas, de irem para a superfície.

Porém, essas barreiras estão caindo, o que faz com que o mago Alben, junto com a oficial Myrva, a guerreira Ecuba, o ex-oficial do Império Ian Aranill e seu amigo orc Gmor juntarem forças para conseguir barrar essa invasão dos abominosos, seguindo uma grande aventura em busca dos elementos que possam fechar novamente os selos criados há milênios.

Ou seja, as 292 páginas do quadrinho serão uma grande quest (jornada) a ser percorrida pelos cinco personagens. Mas o leitor pode ficar despreocupado, pois é uma excelente que jornada.

O roteiro de Luca Enoch e Stefano Vietti acerta ao ir apresentados seus protagonistas, desenvolvendo-os de forma satisfatória, e, também, ao informar ao leitor a geografia e as regras do mundo de Dragonero, que conta com uma sociedade de magos e outra de tecnocratas, fazendo com que o mundo de Erondar reúna bem seu lado místico aos elementos de tecnologia.

A edição é cheia de mapas, detalhando por onde os personagens passarão. E para uma primeira história que tem um roteiro quase fechado, as pontas soltas atiçam a curiosidade do leitor para acompanha mais da série.

Ou seja, por mais que os elementos ali já tenham sido vistos à exaustão, mesmo o lançamento original tendo ocorrido em 2007 na Itália pela Bonelli Editore, a forma como é conduzida a história e apresentados os seus personagens fazem Dragonero ser uma leitura muito prazerosa, no sentido de irmos descobrindo mais daquela terra mística e seus habitantes.

E grande parte desse prazer de acompanhar essa história clássica do gênero espada e magia se deve aos desenhos espetaculares de Giuseppe Matteoni.

A arte detalhada em preto e branco, o uso de sombras, os cenários detalhistas e as cenas de ação que percorrem os quadros são de chamar a atenção até mesmo do leitor não acostumado com esse tipo de obra.

Por exemplo, a narrativa dos heróis ao chegarem a uma ilha que guarda o último sangue de dragão que pode fechar as barreiras é para deixar qualquer fã de O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel satisfeito ao lembrar da grande sequência dos heróis criados por Tolkien através das Minas de Moria.

Então, se os personagens e o universo criado em Dragonero são bons, eles só crescem em qualidade ao ter a excelente arte de Matteoni.

Porém, nem tudo são flores na narrativa de Dragonero. Ao investir muito na jornada dos heróis e na ambientação, o roteiro trabalha pouco com o vilão da trama, fazendo com que a ameaça dele ao aparecer seja muito abaixo do que esperava o leitor que acompanhou tantas sequências boas até ali.

E essa falha no roteiro também pode ser dirigida ao acréscimo de poder repentino do herói Ian Aranill. Apesar de seu passado ainda estar guardado para edições futuras, o desfecho da luta do herói contra um dragão morto-vivo é subido e mal trabalhado, perdendo muito do impacto da luta final.

Mas esses são fatos menores dentro da grande narrativa que é essa edição de lançamento pela Mythos, em formato italiano, mas com papel off White, que fez com que algumas imagens ficassem borradas na edição que comprei.

Mas o volume está caprichado. Ao contar com vários mapas das terras de Dragonero, um glossário para os termos usados na língua desse mundo e várias traduções para os termos, a editora caprichou ao passar a ideia que esse universo de fantasia é vasto e tem muito a ser trabalhado em edições futuras.

Com um roteiro que desenvolve bem o mundo de fantasia de Erondor e os personagens que nos acompanharão por essa grande jornada de apresentação que é DRAGONERO: O CAÇADOR DE DRAGÕES, a trama tem seu ponto baixo em seu fraco vilão.

Porém, a arte da edição faz jus a qualquer grande trabalho de fantasia, sendo o ponto alta desse volume caprichado da Mythos, mesmo que algumas páginas possam vir borradas devido ao papel off White utilizado.

 

FICHA TÉCNICA
• Capa cartão, com 292 páginas
• Editora Mythos
• Lançamento em fevereiro de 2019
• Preço de capa: R$ 34,90
• Formato italiano, com tamanho: 20,8 x 16 x 2,4 cm

NOTAS
Roteiro: 8;
Desenhos: 10;
Narrativa: 9;
Edição: 9.
Nota Final: 9,0

 

 Thiago Ribeiro
https://www.instagram.com/diariodanonaarte/
Advogado desde 2012, mas colecionando HQs desde 1998.
Comics, mangás e fumettes, a leitura de quadrinhos é prazerosa em todas as formas.

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