Compartilhe:

colunista_MarcosMassoliniO sábado, 30/01, Dia do Quadrinho Nacional, esteve recheado de eventos por aí, e eu consegui comparecer em dois deles, em São Paulo.

IMG_20160130_155235800
HQ3

O primeiro foi a tradicional entrega do Troféu Angelo Agostini, já em sua 32ª edição, realizado pela AQC (Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo) em evento no Memorial da América Latina.

IMG_20160130_162425889

Fui com meu filho/amigo/companheiro Gabriel, que apesar de seus 16 anos, gosta de frequentar ao lado do pai esses eventos da nona arte e de testemunhar in loco toda essa movimentação em torno. Chegamos um pouco atrasados – uma pena, pois a palestra sobre os 50 anos do 1º fanzine no Brasil com Gonçalo Jr. e Gazy Andraus já tinha rolado – mas uma vez mais encontrei figuras queridas e pude conhecer outras tantas que só conhecia no mundo virtual.

O clima da premiação é muito amigável e amistoso e as conversas sempre acabam trazendo alguma história incrível sobre o mundo dos quadrinhos. e melhor ainda, contadas muitas vezes pelos próprios protagonistas. Depois de mais de 20 anos, reencontrei o Waz – Worney Almeida de Souza – produtor, fanzineiro, pesquisador e um dos grandes batalhadores na divulgação e memória do quadrinho nacional. Foi na década de 90 do século passado que ele adentrou o Dedoc – Departamento de Documentação da Editora Abril – onde eu trabalhava como pesquisador, com uma listinha de raridades da editora na mão, perguntando se eu tinha como ter acesso a esse material. Tenho essa lista manuscrita até hoje – entre os itens, “Enigmatíca Kaliman” , que saiu pela Editora Morumbi (leia Abril) no final dos anos 70 e foi identificada em seu expediente como uma “revista regional”.

kaliman1

Kaliman é um personagem mexicano muito conhecido na America Latina toda e chegou a ter mais de mil edições lançadas em seu país de origem. Quando reencontrei Worney no sábado, brinquei com ele dizendo que ainda estava procurando pelos itens! Na verdade, eu não tinha acesso a esse tipo de material no setor, mas até tentei alguns contatos na época, que acabaram se mostrando infrutíferos. Não preciso nem dizer que conversamos sobre vários assuntos “históricos”, entre eles a polêmica versão oficial do fundador da Editora Abril Victor Civita, que sempre mencionou a revista O Pato Donald, lançada em julho de 1950, como a primeira publicação da casa. Na verdade, dois meses antes, em parceria com seu irmão Cesar Civita, da Editorial Abril argentina, o editor já tinha lançado em nossas terras a revista Raio Vermelho, com histórias de Misterix e outros personagens italianos, que acabou se mostrando um fiasco comercialmente e acabou cerca de um ano depois. O pato também não foi bem das pernas nos primeiros anos, mas acabou se firmando e é a revista brasileira em quadrinhos mais longeva ainda em circulação.

No Memorial pude conversar também com outro grande incentivador da nona arte, Tony Fernandes, que me avisou em primeira mão, depois que elogiei suas entrevistas virtuais com grandes nomes dos quadrinhos, sempre informais e cheias de surpresas, que pretende em breve reuni-las em um volume impresso.

IMG_20160130_162546551

Outro que está com um livro de memórias engatilhado é o serelepe pesquisador Dedy Edson, um dos grandes colecionadores do Brasil e do alto de seus 78 anos, cada vez mais entusiasmado e ativo; outro dos grandes, Kendi Sakamoto, me avisou em conversa rápida que infelizmente seu programa “Quadrinhos para Quadrados e Redondos” saiu do ar por problemas com a emissora, mas que ainda este ano pretende voltar em outro canal. Presenças ilustres circulavam pelo espaço: o editor Toninho Mendes (o “homem da Circo”), o escritor e cineasta João Batista de Andrade (presidente do Memorial e diretor do clássico “O Homem que Virou Suco”), Carlos Avalone (autor do cangaceiro Carrapicho e único brasileiro a desenhar uma história do Bolinha no Brasil) e Edgard Guimarães (editor, pesquisador e fanzineiro com mais de três décadas de serviços prestados ao quadrinho independente nacional).

f7c6bb63-7a34-4b73-b8df-913294a5758bWilson Simonetto, como sempre, me encontrou com um largo sorriso e a gentileza que lhe é inerente. No “miolo” do evento, amigos do traço trocavam figurinhas e expunham lançamentos: os inseparáveis Daniel Esteves, Will Sideralman, Laudo Ferreira e Omar Viñole, um ao lado do outro. Na ponta da mesa, Worney. Um pouco adiante, Klebs Jr. (com seu “Pátria Armada”), Primaggio Mantovi acompanhado de seu filho e Eduardo Vetillo. E foi o mestre Vetillo um dos participantes da palestra seguinte, com mediação de Nobu Chinen, sobre quadrinhos históricos (“Brasil e Paraguai unidos pelo traço”) – essa eu consegui assistir – juntamente com André Toral e Roberto Goiriz, um dos maiores artistas do Paraguai e convidado especial do evento.

IMG_20160130_162101560IMG_20160130_162021075
IMG_20160130_162032422IMG_20160130_162042570_HDR
Aliás, a exposição organizada pelo Bira Dantas e pelo Roberto Goiriz com originais ligados a esse tema ficou um espetáculo! Fiquei impressionado com a arte de Goiriz e mais uma vez me encantei com as peculiaridades realistas de André Toral e a plasticidade das linhas de Julio Shimamoto. Os onipresentes Jal e Gual conversavam efusivamente, como se acabassem de se conhecer (ambos criaram o Troféu HQ Mix há quase 30 anos atrás). Marcelo Alencar, outro onipresente em eventos, acabou ficando em casa, atolado de trabalho. Cumprimentei rapidamente Edson Diogo e Luigi Rocco e avistei de longe o DaCosta e o Jubran. Com o Vasqs e o Bira dei boas risadas. Já do estande da Comix especialmente montado para a ocasião, procurei ficar longe, mesmo forçado, graças a minha atual falta de fundos.

amigosDos premiados, consegui conversar com o Carlos Patati, um dos maiores especialistas brasileiros em terror e o grande Marcatti, a quem fiz questão de chamar de “artesão dos quadrinhos”, pela sua “alma genuinamente gráfica” e pelo modo com que trabalha em casa, “fabricando” artesanalmente suas revistas em uma velha e boa impressora offset Multilith de 1954. Aliás, foram premiações merecidas para a categoria “Mestre dos Quadrinhos”, embora eu tenha votado em outros três (Aparecido Cocolete entre eles). O outro premiado da categoria foi o goiano Christie Queiroz, um batalhador do quadrinho infantil com sua “Turma do Cabeça Oca”.

Acabei saindo antes da entrega dos troféus – que neste ano ainda premiou Di Amorim como desenhista, Alex Mir como roteirista e Rodrigo Brum como cartunista, entre outros – mas a tempo de cumprimentar o professor Carlos Arafatt, chegando do Rio de Janeiro (“o anarquista mais querido do Rio, segundo Patati) , a equipe da Gibiteca de Santos (também premiada) e ter outra grande descoberta: ao mostrar uma pequena publicação didática da IBEP dos anos 70, com ilustrações do mestre Rodolfo Zalla e capa de Osvaldo Sequetin, que eu trouxera para presentear o colega Toni Rodrigues (que não conseguiu ir ao evento), perguntei ao Worney se ele sabia quem era o tal de Eduardo C. Pereira que constava no expediente como ilustrador. De bate-pronto ele me informou se tratar daquele mesmo artista que assinava quase todas as capas da “Saber” nos anos 70 como “Edu” (quem tem aqueles livrinhos amarelos da editora, sabe do que eu estou falando), e chegou a criar personagens próprios como o Praça Atrapalhado e Dr. Estripa. Coincidentemente, na semana, eu já tinha lido algo a respeito desse artista em alguma entrevista, mencionando que ele morava ao lado do metrô Carrão, na Zona Leste. No fim das contas, prometi ao Worney e ao Tony Fernandes, que se tivesse mais informações sobre seu paradeiro, os avisaria.

HQ2

Parti correndo para o outro evento do dia na minha agenda: o Dia do Quadrinho Independente Nacional na Ugra, essencial loja de zines e publicações independentes mantida pela Ugra Press e localizada na Rua Augusta. Além de interessante bate-papo com Daniel Lopes (Pipoca e Nanquim), Gabriela Borges (Mina de HQ) e Ramon Vitral (site

IMG_20160130_182513160 IMG_20160130_182519288IMG_20160130_182814968IMG_20160130_182828063 (2)
Vitralizado), sobre o que rolou em 2015 e as perspectivas para 2016, foi inaugurada na mesma tarde no local a exposição “Subúrbio”, com originais da série homônima criada por Floreal Andrade. Chegamos no meio da conversa (ah, essa minha pontualidade britânica!) mas a tempo de participar do debate. 

Encerrada a mesa, fui direto falar com o Floreal, outro que até então só conhecia pela internet, mas que a empatia mútua faz parecer que somos amigos de infância. Ele já estava com um pacote pardo na mão com meu nome, devidamente ilustrado e com recheio substancioso: em seu interior, alguns números do ótimo jornal Graphiq, editado por Mário Latino e com colaborações suas; uma rara edição da revista digitalizar1004independente Mofo, de 1987, impresso por Marcatti e com desenhos de Floreal e João Andrade; três tiras originais homenageando artistas nacionais dos anos 80; e uma página original da série Subúrbio, que é publicada continuamente desde 2010. Este último item foi o único que não me causou surpresa, pois fez parte da minha contribuição para a campanha de publicação do Subúrbio em livro – cada original vendido ajudará na produção/impressão da compilação que contará com 40 páginas e apenas 250 exemplares (mais detalhes no blog florealandrade.blogspot.com.br).

Depois de uma divertida e cultural conversa, onde se juntaram o escritor e fanzineiro Márcio Sno (autor do livro “O Universo Paralelo dos Zines”) e o amigo Rui Chinelatto, ainda tive um tempinho para escolher alguns itens independentes “muito loucos” e preços bem convidativos da sortida prateleira da Ugra, até zarpar rumo à São Caetano, feliz da vida, com meu escudeiro e anjo da guarda Gabriel.

papel

Viva o Quadrinho Nacional, cada vez mais forte e retumbante!

colunista_MarcosMassolini
Marcos Massolini
Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

Compartilhe: