05-05-2015

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“Detalhes” de Priscila Muniz e Wanick Correa

Existe o velho ditado que diz: “Política, futebol e religião não se discute”. O que está errado ao meu ver. Somos seres racionais, que nascemos para questionar nossa posição, nossas escolhas e dúvidas, e não seria diferente com esses três temas.

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Afinal, se não é para discutir, porque temos diferentes partidos políticos? Diferentes times? E diversas religiões? Cada um com sua linha de pensamento diferente da outra. O que diferencia de um para o outro são seus detalhes.

Durante essa semana, li nas viagens de ônibus da minha casa para o trabalho e do trabalho para casa, o quadrinho “Detalhes” da Priscila Muniz nos roteiros e Wanick Correa nos desenhos. Devo dizer que desde que o livro chegou em casa, toda vez que o pego em mãos me surpreendo com o seu grande número de páginas: são no total 256 páginas. Para os padrões das histórias em quadrinhos nacionais é uma grande obra, um desafio e tanto em produzir algo grande para vender para um mercado ainda em crescimento e com certo preconceito ao quadrinhos independentes.

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É o maior ponto positivo do quadrinho.

“Detalhes” conta a história da jovem Lúcia, que vivia muito bem praticamente sozinha no sítio do seu avô com seu cãozinho. Até o dia que seu avô volta de uma longa viagem e diz que a levaria para uma nova casa aos cuidados de uma misteriosa família. Lá, ela descobre que terá de conviver com certas regras e conhece Luiz, um rapaz que conhecia mas não se lembrava, da sua infância. E aos poucos, eles vão descobrindo os reais motivos de Lúcia estar naquela estranha casa.alan3

Logo na apresentação, notará que vai ler uma história com um forte viés religioso. No começo, isso não me atrapalhou, achei muito interessante a forma que Wanick fazia os desenhos da Lúcia, que são representações de passagens bíblicas e a relação deles com a história em si. Porém, os dialógos são bem didáticos, principalmente quando a fé é abordada.

Achei o amor entre Lúcia e Luiz muito bonito, você acredita que eles se amam mesmo. Só é díficil de crer que se apaixonaram tão rapidadamente, mesmo tendo o histórico da infância deles. Em contraponto, o ambiente do interior e a sua inocência é bem verídico. E tudo fica mais belo nos desenhos de páginas inteiras, que foram as artes que mais gostei. Para o primeiro trabalho publicado de Wanick, ele já demonstra bastante dominio da narrativa gráfica.

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O que pode afastar alguns leitores são os momentos evangelizadores da obra. Diferente de “Retalhos” de Craig Thompson, que é a principal e clara influência para “Detalhes”, a história perde alguns pontos na forma de retratar a fé e o próprio caminho seguido pela trama. No final, parece que você recebeu o sermão de um padre ou pastor ao invés de ter lido uma boa história.

Teria aproveitado mais da história se a relação dos personagens com a trama tivesse outro foco, do que ter utilizado clichês de mistérios e seitas secretas para se desenvolver. Mas devo tirar uma onda e dizer que a metáfora da Arca de Noé funcionou melhor do que o filme “Noé” do Darren Aronofsky.

E eu não tenho nenhum problema com histórias com foco religioso, afinal, uma das minhas histórias em quadrinhos favoritas é a trilogia Yeshuah do Laudo Ferreira. Mas sei o quão é difícil abordar a fé nas histórias, seja nos cinemas ou na HQs, sem parecer que você está querendo converter o leitor.

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Wanick Correia e Priscila Muniz conseguiram um ótimo resultado – não foi o melhor. Para o primeiro trabalho deles, é merecido os parabéns pela coragem de produzir essa história longa, publicar de forma independente, apenas com o apoio de editais de incentivo a cultura. Como disse lá em cima, devemos sim, discutir religião, política e futebol. Pois acredito que conversando e discutindo ideias é que alcançaremos e teremos os melhores resultados. E que tenhamos mais trabalhos corajosos assim pela frente, seja nos temas abordados ou no tamanho da obra.


Alan Guedes
Um leitor que acredita que as histórias vão além dos seus quadrinhos.

2 comentários em ““Detalhes” de Priscila Muniz e Wanick Correa

    1. Dá uma chance Guilherme, merece a atenção só pela coragem de se contar uma história bonita como é.

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