28-08-2015

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Destrinchando – Pererê nº3 – Dezembro de 1960

colunista_MarcosMassoliniPererê nº3 – Dezembro de 1960 (O Cruzeiro S/A): Dorival Caymmi, Papai Noel refrigerado e uma revelação na página de atividades.

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Pererê, essa joia do nosso quadrinho nacional, que durou de 1960 a 1964, é considerada a primeira revista nacional de um só autor (a revista Bidu também começou no final de 1960 – quem chegou primeiro? A revista do Mauricio de Sousa teve outros autores publicados, mas só a partir de certo número). Também é a primeira revista totalmente em cores produzida por uma equipe brasileira.

O personagem, criado pouco antes para a revista O Cruzeiro, virou símbolo de uma época, juntamente com Brasília, a Bossa Nova e o Cinema Novo. Um clássico indiscutível, que trazia histórias encharcadas de Brasil, com aspirações e esperanças de uma geração, um ingênuo mas legítimo nacionalismo e assuntos até então pouco explorados em uma revista em quadrinhos, como tradições indígenas e folclóricas, a valorização do meio ambiente e o velho embate entre o progresso e a natureza.

Veio o golpe em 1964, o gibi acabou, Ziraldo se bandeou para as suas outras tantas atividades paralelas, e o quadrinho brasileiro nunca mais foi tão profundamente brasileiro.

A “Empresa Gráfica O Cruzeiro S/A” parou de publicar Pererê em abril de 1964, mas mesmo coincidindo com a intervenção militar, tudo indica que a editora já tinha em seus planos a interrupção da publicação, pois Ziraldo fazia a revista com antecedência e foi dispensado em dezembro de 1963 (segundo sua declaração à Wellington Srbek em 1999). Foram 43 números e 182 histórias (contagem do professor Moacy Cirne) em três anos e meio de publicação mensal. Tentou-se uma volta na década seguinte pela Editora Abril, mas os tempos eram outros.

A Editora Salamandra iniciou em 2002 uma série histórica (Todo Pererê), com o intuito de publicar toda a saga em cerca de vinte álbuns, mas acabou estacionando no terceiro volume.

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A edição em foco aqui é a nº 3, de dezembro de 1960. Além de simpática capa natalina, o destaque fica para a aparição de um de nossos mais queridos compositores populares, mestre Dorival Caymmi, que contracena na história de abertura (“Dorme, nenem”), com o Bicho Papão e o Boi da Cara Preta, criaturas do imaginário popular. Nas outras três histórias, o tema é o Natal, com a presença em uma delas de um Papai Noel de sotaque carregado e dois aparelhos de ar refrigerado por baixo do casaco de lã.

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Já na última capa da edição, aparece pela primeira vez a personagem Tuiuiu, namorada do índio Tininim. Mas a surpresa maior para mim acabou se revelando na página de passatempos. Eu tenho essa revista há anos, mas só agora, ao destrinchá-la para essa coluna, descobri em uma inofensiva e insuspeita atividade de adivinhação, a equipe toda de Ziraldo à época! Com o título “Qual a Profissão” e um quadro com quatro nomes, a finalidade do enigma era revelar a atividade profissional de cada um deles. Nesse tipo de passatempo geralmente se desembaralhava as letras dos nomes para se chegar às respostas, mas desta vez, a “pegadinha” pra cima do leitor é evidente, como a solução (de cabeça pra baixo) revela em sua íntegra:

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“Pode parar. Não é preciso baralhar as letras não. Você iria ficar o dia inteiro aí, tentando descobrir. Estes quatro ilustres senhores são todos desenhistas. Aliás, trabalham aqui em casa, justamente desenhando as histórias do saci.” Embora três deles estejam com erros na grafia, são estes os artistas: Milton Sardella, Heucy Miranda, João Barbosa e Paulo Abreu.

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Os três últimos aparecem em textos biográficos de Ziraldo, quando se refere à sua primeira equipe, inclusive sendo apontados pelo próprio autor como “a equipe que, comigo, criou o Pererê da primeira fase”. Paulo Abreu fazia a arte final, enquanto Heucy Miranda era responsável pelas cores e João Barbosa pelas letras. Paulo Abreu morreu pouco depois da revista ser cancelada. João Barbosa também é falecido. Heucy se tornou criador de desenho animado.

Milton_Sardella A surpresa fica com a inclusão de Sardella, conhecido por seu trabalho na Rio Gráfica Editora, atuando junto a grandes nomes da editora, como Walmir Amaral e Juarez Odilon e desenhando personagens como Cavaleiro Negro, Cavaleiro Fantasma e Nick Holmes. Milton Sardella nunca foi mencionado como membro dessa equipe de Ziraldo, o que leva a crer que ele tenha saído logo no início para trabalhar na empresa de Roberto Marinho. O desenhista faleceu em 1986, aos 55 anos.

Fica o registro. Mais uma grata revelação dentro das surpreendentes pesquisas para o “Colecionadores de HQs”.

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Marcos Massolini
Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

13 comentários em “Destrinchando – Pererê nº3 – Dezembro de 1960

  1. Caro Marcos
    li com interesse sua matéria sobre a Revista da Turma do Perere
    Principalmente porque estou fazendo um documentário sobre a criação da revista e a permanência
    deste personagem até hoje em diversas midias.
    Permita-me dar a vc duas informações, dentre tantas que colhi nos ultimos dois meses de entrevistas sobre o assunto.
    1 a Revista do Perere saiu primeiro que a do Bidu, confirmado pelo proprio Mauricio em entrevista que fiz no mês passado.
    2 Heucy Miranda faleceu a poucos meses atrás, e infelizmente não consegui entrevista-lo.
    3 A Revista curiosamente terminou no dia 1 de abril de 1964, (ultimo numero desta fase, a 1, a ser lançado), mas Ziraldo já havia sido dispensado pela editora no fim de Dezembro de 1963, mas deixou 3 numeros prontos, que coincidentemente cobriam ate o mes de abril. Isso dito pelo proprio ZI nas varias entrevistas que gravei com ele.

    Outros Fatos curiosos sobre a Revista serão reveladas no Doc. Perere.Doc que acredito ficara pronto até o fim do ano.

    Tenho diversas fotos das filmagens na Pagina da RIO DE CINEMA no Facebook dê uma curtida lá
    https://www.facebook.com/pages/Rio-de-Cinema/696573467042137?fref=ts

    No Mais um abraço e parabens pela boa Matéria sobre uma revista que fez estória entre as HQs no Brasil.

    Ricardo Favilla

    1. Ricardo Favilla, muito bom saber que esse documentário está quase finalizado. E obrigado pelas confirmações e informações adicionais. Com a morte do Heucy Miranda, então, a equipe original da revista, com exceção do próprio Ziraldo, já não estão aqui para contar a história. Por favor, quando sair o filme, avise-nos por aqui! abraço e boa sorte nessa etapa final do projeto.

  2. Só mais duas informações que apareceram depois da coluna publicada: a história com a Nara Leão citada pelo Reinaldo Picheco saiu no Pererê de janeiro de 1964, como citado neste estudo ( págs 13, 14 e 15): http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1308176460_ARQUIVO_ArtigoANPUH-Copia.pdf e a caricatura do Dorival Caymmi na história foi feita pelo grande artista Appe, conforme grafado na milimétrica inscrição ao lado do rosto do compositor baiano no último quadro (“colaboração do Appe”).

    1. Desta fase da Turma do Pererê na Abril (1975-76), lembro-me de inúmeras estórias. Dentre elas, a do estilingue, na qual a turma da Mata do Fundão chama o estilingue de diversos significados de acordo com as regiões do Brasil (estilingue aqui em São Paulo, bodoque no interior paulista, atiradeira no Rio, baladeira [em qual região do Brasil é empregado este termo?], etc.).

    2. Vocês sabiam que a Turma do Pererê chegou a ter estórias editadas, por um breve tempo, no tablóide O Pasquim (virada dos anos 60 pra 70), antes do triunfal retorno na Abril em 75?

  3. Lembro-me de ter visto uma campanha quadrinizada do Choco Preto & Branco da Neugebauer (Viagem Feliz), desenhada pelo Heucy Miranda em 64 e bastante veiculada nas revistas quadrinhos do Cruzeiro em 64-65.

  4. Opa, Rodinei, também gostei bastante daquela volta em 1975. Pena que não durou muito! bem lembrada essa campanha do chocolate… sabia dela mas não que era desenhada pelo Heucy. Vou tentar achá-la em minha coleção. Valeu pela informação! um abraço.

    1. Aliás, o Choco Preto & Branco da Neugebauer é produzido até hoje. E eu já comi deste chocolate.
      E a Neugebauer era um dos anunciantes mais veiculados nas revistas em quadrinhos do Cruzeiro, juntamente com a Nestlé, Toddy, Flex-A Carioca, Gillette (hoje ligada à Procter & Gamble), Antarctica, Dulcora e Coca-Cola, entre outros.

      1. Os anúncios eram uma atração a parte. Todos muito coloridos e muitos utilizando o formato dos quadrinhos. Obrigado Rodinei, pela efusiva participação! abs

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