06-05-2015

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Destrinchando – O Guri (1958)

O Guri – Novembro de 1958

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De tempos em tempos pretendo nesta coluna, “destrinchar”, ou seja, vasculhar “tim tim por tim tim”, o conteúdo de um exemplar interessante dentro da minha coleção de HQs. Nada mais apropriado do que batizar a série de “Destrinchando”.

Escolhi a edição de O Guri de novembro de 1958, para entrar nesse check-up inaugural, um belo gibi, a começar pela movimentada arte da capa.

As revistas em quadrinhos dos Diários Associados de Assis Chateubriand (Editora Cruzeiro ou O Cruzeiro S/A) não são muito bem aceitas por alguns colecionadores porque deixaram a desejar no quesito “qualidade gráfica”, principalmente dos anos 60 pra frente.oguri4

Mas na época dessa edição selecionada, a impressão ainda era boa, o papel idem e as cores bem distribuídas. E pelo lado dos personagens, algumas boas surpresas: além do Jim das Selvas na competente fase de Paul Norris, uma aparição que chama muito a atenção é a de Zabelinha, de Heitor Cardoso, um verdadeiro achado. A personagem é cultuada por muita gente na mesma medida Oguri2em que seu autor se tornou um grande mistério – não há referências sobre sua pessoa em canto algum.

Sabe-se apenas que publicou Zabelinha no O Tico-Tico pelo menos uns 20 anos antes de O Guri, assim como outro personagem seu que se tem conhecimento, Caxumba (essas referências são citadas por Ivan Saidenberg em “A História dos Quadrinhos no Brasil”).

Zabelinha tem nuances oguri3filosóficas e comportamentais incomuns para os quadrinhos da sua época e merecia realmente uma pesquisa mais detalhada. Na sequência da revista temos a página do índice/expediente, onde se lê que o diretor-secretário da Empresa Gráfica O Cruzeiro S/A é Austregésilo de Athayde, que seria muitos anos depois eleito presidente da Academia Brasileira de Letras; Jim das Selvas, o personagem destacado na capa; Pinduca, o simpático carequinha mudo, onipresente nas revistinhas das décadas de 50 e 60; Nyoka, mais uma daquelas personagens femininas das selvas como Sheena, e como esta, também criada pelo “pai” de Tarzan, Edgar Rice Burroughs; dois personagens humorísticos, Seu Joaquim e Barney Camelô, completam o miolo com histórias coloridas; o próximo é O Reizinho, outro personagem mudo e onipresente da época, criado por O. Soglow; Os Sobrinhos do Capitão, criação de Rudolph Dirks de 1918 (Katzenjammer Kids) aparece aqui com desenhos de Joe Musial;

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na página seguinte, O Filho da Rosinha (“Snookums”, personagem de George McManus vindo da tira “Newlyweds”) e Pafúncio e Marocas, mais uma comic strip do início do século passado (de 1913, criada por George McManus como Bringing up Father); Tom Mix foi um dos grandes mitos do cinema de faroeste, atuando entre 1909-1935. Nos quadrinhos apareceu ainda em 1913 nos jornais ingleses e foi o primeiro mocinho do cinema com título próprio em revista, como brinde de caixas de cereais em 1940; fechando a edição, mais uma tirinha cômica, “O Fantasma se Diverte”.

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O Guri se mostra ao todo como uma revista bem interessante, destacando-se as cores em boa definição e personagens com histórias fechadas. Na primeira série, a publicação durou quinzenalmente de 1940 (ainda como O Gury, Filhote de A Noite) até 1953; Já nesta segunda fase, saindo por O Cruzeiro, iniciou como semanal em janeiro de 1954 e findou, já mensal, em dezembro de 1962.

Um título longevo que deixou sua marca na história dos quadrinhos brasileiros.

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Marcos Massolini
Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

Um comentário em “Destrinchando – O Guri (1958)

  1. O amigo Mark Almeida me alertou no Facebook que Edgar Rice Borroughs não criou Nyoka, mas uma princesa do Camboja chamada Fou-Tan, reutilizada depois em seriados. Na fonte que usei, esses detalhes estavam truncados. Segue sua explicação:

    “O Edgar Rice Borroughs não criou a Nyoka, ele publicou nos pulps o romance “The Land of Hidden Men” (que iria chamar inicialmente The Dancing Girl of the Leper King) em 1931, que falava de uma princesa do Camboja chamada Fou-Tan e quando saiu a encadernação, o título usado foi “Jungle Girl”; em 1941, a Republic Pictures resolveu aproveitar a fama do autor e lançou o seriado “Jungle Girl”, no ano seguinte, criando um reboot: Perils of Nyoka, já sem o nome do ERB. A Fou-Tan só foi aparecer em quadrinhos no ano passado:http://www.edgarriceburroughs.com/?p=1562

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