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colunista_MarcosMassoliniChico Anysio, falecido em 2012, sempre foi um artista plural, ligado em todo meio de comunicação que pudesse ser plataforma para sua obra tão particular, recheada de centenas de personagens cômicos saídos de sua imaginação fértil (pelas contas do próprio autor, foram mais de 450: desses, 209 criaram vida).

No início foi o rádio, um laboratório perfeito para a formatação dos traquejos e sotaques dos primeiros tipos criados. Logo em seguida veio a televisão – o canal que se mostrou mais eficaz – e na sequência, a literatura, o teatro – Chico foi um dos pioneiros do formato “stand up” – e parecia que não havia limite midiático para as aspirações do humorista. Outras paixões como o futebol e a música logo seriam incorporadas ao seu repertório, mais precisamente nas transmissões esportivas radiofônicas como comentarista e nas composições ao lado do parceiro Arnaud Rodrigues (que chegariam aos quadros e trilhas sonoras dos programas de TV e em dois LPs como “Baiano e os Novos Caetanos”).

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E foi graças ao amigo que outra paixão de Chico veio à tona nos anos 70: as Histórias em Quadrinhos. Em 1972, dividindo a redação do programa “Chico em Quadrinhos” com Arnaud (no ar entre abril e novembro), o humorista desfilou novos e velhos personagens na telinha evocando esteticamente a nona arte (a começar pelo nome) e os desenhos animados, com o cenógrafo Fernando Pamplona fotografando locações reais e projetando em seguida as imagens dos atores. A experiência agradou a dupla, mas o mergulho total nos quadrinhos, em forma e conteúdo, aconteceria quatro anos depois, desta vez em um álbum especial.

digitalizar1152“Era Xixo um Astronauta?” foi lançado pela Editora Harpam com roteiro de Arnaud Rodrigues e desenhos do mestre Nico Rosso em uma história que misturava humor, lirismo, crítica social e folclore com elementos fantásticos. Na capa, Chico Anysio aparece com o indefectível duo terno/gravata borboleta tal qual aparecia em seu quadro de humor no Fantástico, enquanto no miolo, emprestava apenas seus traços físicos para o protagonista João (pai de Xixo, cujo nome de batismo é Francisco).

digitalizar1153Quem leu essa aventura na época, percebeu no final da história uma pista para uma possível continuação, pois o último quadrinho anunciava: “Xixo vai Voltar”, o que estava inteiramente de acordo com o roteiro, mas que podia ser uma deixa para a sequência da série, afinal, se não se optou por um “continua”, também não foi colocado um “fim” no último quadro. Além do mais, é incluído o número 1 na capa e o nome “Chico Anysio em Quadrinhos”, nome propício para uma série.

unnamedPode ser que a intenção era ter um segundo volume, mas a tragédia pessoal por que passou Nico Rosso a partir deste mesmo ano – um desabamento em seu estúdio destruiu quase toda sua produção e acervo e na sequência um AVC o impossibilitou de continuar a desenhar – anulou qualquer possibilidade de outra publicação do tipo. No mesmo ano a edição de estreia da revista humorística Crazy (Editora Bloch) trouxe na sátira da novela Pecado Capital (“Capital do Pecado”) com roteiro de Cláudio Almeida e desenhos de Roberto Azevedo, as aparições surpreendentes de Fradim Baixim, o famoso personagem de Henfil e de Véio Zuza, criação icônica de Chico Anysio, em meio ao elenco parodiado do folhetim global. Mais adiante, na mesma edição, surge outra sátira, desta vez de um programa do próprio Chico Anysio (Chico City, aqui como “Saco City”), onde desfilam alguns de seus tipos mais famosos – Walfrido Canavieira, Pantaleão, Baiano, Pedro Bó, entre outros.

klikOutra revista contemporânea de humor, a Klik, da EBAL, traz Chico Anysio na capa de seu número 3 (setembro de 1976), desenhado por Roberto Azevedo, e em seu miolo a história “Os Paspalhões invadem Cisco Shit”, também desenhada por Roberto Azevedo e escrita por Cláudio Almeida, os mesmos criadores da história da Crazy, o que nos leva a concluir que essa dupla gostava muito dos programas de Chico Anysio.

digitalizar1150Em 1978, o personagem que foi escolhido para protagonizar uma revista em quadrinhos foi o futebolista perna de pau Coalhada, pegando carona na Copa do Mundo da Argentina. A edição especial “Gibi Apresenta: Coalhada na Copa”, que saiu pela RGE, tinha desenhos de Paulo José e roteiros do próprio Chico e na verdade era uma adaptação colorizada das tiras de jornais do Coalhada produzidas pela dupla e distribuídas para vários jornais naquele mesmo ano. Paulo José é um artista pernambucano que há muito tempo batalha no mercado de quadrinhos e já passou pela revista Crás, Suplemento Quadrinhos da Folha de S.Paulo, Projeto Tiras e produziu desenhos/argumentos para a Abril Jovem e Editora Globo em várias oportunidades (Faustão em Quadrinhos tem arte dele).

unnameed-1Antes de fechar 1978, o humorista foi mais uma vez lembrado em uma paródia de revista humorística: a famosa Mad, publicada na época pela Vecchi, produziu em seu número 54 de dezembro, uma versão em quadrinhos da novela Dancin’ Days (batizada de “Dane-se Days”) com desenhos de Watson Portela e numa galeria eclética e caótica de personagens famosos do cinema, das HQs e do imaginário popular – Luluzinha, Bidu, Pelé, Jonah Hex, Batman, Kojak, John Travolta, Fradim, Pato Donald, Amigo da Onça, Tio Patinhas, Graúna, Pateta, Robin, Aquaman, entre outros – lá estava de novo Coalhada, fechando com sua aparição um ano em que a seleção brasileira de futebol terminou a Copa invicta, mas em terceiro lugar.

Na internet há citação de que os quadrinhos Disney também homenagearam o humorista em uma história do Zé Carioca desenhada por Renato Canini ainda nos anos 70, mas não consegui referências concretas sobre essa ocorrência (se alguém souber, por favor, mande as informações para contato@colecionadoresdehqs.com.br).

A partir de 1981, incluiu mais uma atividade em sua agenda lotada: a de pintor. Chegou a pintar de 25 a 30 quadros por mês e expor com certa frequência.

Entre 1982 e 1983, mais uma parceria do autor de humor com um criador dos quadrinhos: Chico Anysio Show ganhou em sua abertura uma animação feita a partir de desenhos produzidos pelos Estúdios Maurício de Sousa, obtendo um resultado bem interessante.

Na literatura, outra atividade em que Chico Anysio se empenhou com afinco, publicando de 1972 até os anos 80 quase um livro por ano, o cuidado com a parte gráfica sempre foi prioritário e primordial. Tanto que quase todos os seus livros tiveram a felicidade de serem ilustrados por Ziraldo. Sessões de autógrafos com a dupla Chico/Ziraldo foram realizadas em 2007 no lançamento de “É Mentira, Chico?”, livro idealizado por Ziraldo com 40 nomes da caricatura brasileira retratando os personagens do mestre do humor.

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Além da noite de autógrafos acontecer no “Jeremias, o Bar” (homenagem ao personagem clássico de Ziraldo), quando ainda tinha em suas dependências a “A Menor Livraria do Mundo” (sim, o nome da livraria era esse), o humorista recebeu na ocasião o “Troféu Zélio”, homenagem do Salão de Humor de Piracicaba aos seus 60 anos de carreira. Essa longa parceria de Chico Anysio com as artes gráficas em vida culminou com uma mega exposição realizada logo após seu falecimento, em 23/03/2012. A “Flash Expo Chico Anysio” foi aberta no dia 11 de abril daquele ano em São Paulo e contou com charges, ilustrações e caricaturas de mais de 60 artistas.

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Visto essa aproximação real de Chico Anysio com a nona arte, fica a pergunta no ar: se o mercado arriscou fazer gibis próprios de diversos artistas/apresentadores/humoristas vindos da TV como Xuxa, Faustão, Os Trapalhões, Angélica, Gugu, Sérgio Mallandro, etc, por que não aproveitou esse filão imenso escancarado pelos personagens chicoanisianos e lançou um gibi do tipo “Almanaque do Chico Anysio” ou “Chico Anysio em Quadrinhos”? Personagens e histórias prontas não faltariam.

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Marcos Massolini
Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

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