A(s) misteriosa(s) revista(s) da turma da Mônica de 1969

colunista_MarcosMassoliniEu tenho um blog no ar desde 2009 (www.almanaquedomalu.blogspot.com.br) e nele eu costumo escrever sobre tudo o que me interessa no campo das artes, música, cultura e História em geral. Os quadrinhos, claro, tem grande destaque na página e alguns fatos ligados à nona arte, pela sua importância, acabam reaparecendo uma ou mais vezes. Foi o caso desse periclitante e misterioso assunto que retomo aqui: o projeto de lançamento de edições da turma da Mônica em 1969, ou seja, um ano antes do lançamento da revista Mônica pela Editora Abril em maio de 1970, pontapé fundamental de Mauricio de Sousa para seu império editorial atual.

Esse périplo começou em 2011 quando ‘pesquei’ o assunto no blog do Roberto Guedes (http://guedes-manifesto.blogspot.com.br/), ao fazer uma pesquisa sobre o quadrinista Alain Voss, que havia falecido naquele ano.

CarecaNo post do Guedes, de 2009, o editor Franco de Rosa contava sobre a rara revista “O Careca”, personagem de Voss, que ia sair pela UBE (União Brasileira de Editoras) em 1969, mas teve seu projeto abortado na época e as 8 mil cópias da primeira edição acabaram destruídas. Ou quase: algumas delas sobreviveram e com esse material, Franco de Rosa e Worney Almeida de Souza (WAZ) lançaram uma edição fac-similar de “O Careca” em 1995, sob o selo Comix Club.

No depoimento de Franco para o livro “A Saga dos Super Heróis Brasileiros” de Roberto Guedes, ele já citara uma lenda reincidente de que a revista “O Careca” tinha rodado na gráfica junto com a número 1 de Mônica, de Maurício de Sousa, mas a UBE tratou de cancelar tudo porque Maurício tinha fechado contrato com a Abril. Essa lenda acendeu meu alarme interno de perscrutador e lá fui eu saber mais sobre a história. Alguns meses depois, ainda em 2011, sai aquele dossiê da revista Mundo dos Super Heróis (nº27) sobre Maurício de Sousa e na entrevista com ele, feita por Manoel de Souza e André Morelli, o assunto ressurge nesse trecho:

MSP-Mauricio-de-Souza-CapaManoel: Parece que, quando você lançou a Mônica, pela Abril, ocorreu um salto na sua carreira e as coisas realmente começaram a acontecer…
Maurício: Em partes. Antes da Abril, eu já estava trabalhando com merchandising, estava entrando na área de desenho animado…a Abril foi parte do processo. Se eu não tivesse ganho prêmios no exterior, não tivesse com o merchandising estourando e publicando tiras em 300 jornais, não teria revista ainda. Um ano antes da Abril, eu já planejava lançar uma revista com outra editora. Mas os jornalistas que montaram essa editora tiveram problemas com a ditadura militar e acabaram presos.
Manoel: Que editora era?
Maurício: Não me lembro. Eles estavam começando, eram jornalistas ex-colegas meus. Só sei que foram presos e minha célula editorial foi desmontada. Eles sumiram e eu não sabia onde eles estavam. Foi um golpe duro.

Depois da breve, mas importante lembrança de Maurício, percebi que de lenda, o caso não tinha nada! E continuei minhas pesquisas.

jornalistas kucinskiUm ano depois, sem querer (é quase sempre assim), acabei esbarrando no mesmo assunto quando pesquisava sobre a imprensa alternativa nos anos de chumbo. A fonte consultada foi o completo livro de Bernardo Kucinski, “Jornalistas e Revolucionários – Nos Tempos da Imprensa Alternativa”(Editora Scritta -1991), uma obra de cabeceira pra mim e que esmiúça com precisão e muita pesquisa a trajetória da imprensa alternativa (ou “nanica”, como dizem) desde o Golpe de 64 ( com o pioneiro “Pif Paf” de Millôr) até os jornais sindicais do final dos anos 70 e início dos 80.

No capítulo que identifica com detalhes a ‘turma’ do jornalista Sergio de Souza (ex-editor de Caros Amigos e dezenas de outras publicações, falecido em 2008), a mesma que revolucionou o jeito de se fazer reportagem em revista ( “Realidade”) e inovou em distribuição ( “Bondinho”), eu parei no seguinte trecho:

sergio souza
Sérgio de Souza

“…Mas “ninguém queria contratar o grupo como um todo, tinham medo, até que Samuel Wainer chamou-os para produzir “Ideia Nova”, um grande tablóide dominical de informação; Wainer alugou um andar de hotel na boca do lixo, em São Paulo, para fazer o projeto em segredo, mas quando estava quase pronto, veio o famigerado AI-5, ele pagou e premiou todo o mundo e sumiu”. Em seguida, a equipe revisteira propôs à editora dos irmãos Rossolitto (sic), donos de gráfica e de uma revista grosseira de polícia, o lançamento de três revistas: “uma revista de histórias em quadrinhos do Alan Voss, que ficou bastante conhecida; a revista da Mônica, com o Maurício de Souza (sic); e uma revista feminista, “Cara Metade”, que se proporia a mostrar como as mulheres veem os homens; estava o time todo, estavam prontos os fotolitos do Mauricio de Souza (sic) e os da história em quadrinhos, e os homens disseram que não tinham mais capital para bancar os projetos…”.

Esse trecho do livro foi baseado em depoimento do próprio Sergio de Souza dado ao autor em 1990. Uma nova e mais clara luz sobre o caso trouxe novos nomes. Apareciam pela primeira vez os irmãos Rossolillo (erroneamente citados no livro como Rossolitto), nomes por trás da editora. A revista de Voss “que ficou bem conhecida” é o “Careca”, como já foi citado no início, e por esse depoimento feito por um protagonista, entendi claramente que os projetos não foram pra frente por receio político, rebatizado de “falta de capital” (afinal, estava tudo pronto para lançamento). Se não houve prisões, como Maurício supôs, com certeza rolou uma dispersão do grupo, que logo, sob o novo nome de A&C (Arte & Comunicações), lançaria “O Bondinho”, um projeto tímido inicialmente, distribuído só no interior do Pão de Açúcar e que logo se transformaria num dos veículos mais surpreendentes e anárquicos da imprensa tupiniquim.

morte do grilo capaFoi então que no final de 2012, adquiri o livro do incansável Gonçalo Junior, “A Morte do Grilo – A História da Editora A&C e do gibi proibido pela ditadura militar em 1973” (Editora Peixe Grande – 2012) e finalmente juntei as pontas desse quebra-cabeça. Mais um petardo de Gonçalo e mais um precioso documento histórico, desta vez sobre a ditadura militar e a censura e a morte de uma revista em quadrinhos, que durante sua curta existência, afrontou e enfrentou os censores com inteligência e coragem. A turma que idealizou a Grilo era a turma da revista “Realidade” ligada a Sérgio de Souza, e que vinha lançando projetos cada vez mais vanguardistas e desafiadores (além da “Bondinho”, a “Revista de Fotografia”, “Jornalivro”, “FotoChoq”).

A mesma turma também que tentou lançar no final dos anos 60 uma revista com Samuel Wainer e três projetos editoriais com os irmãos Rossolillo, entre eles uma revista em quadrinhos da turma da Mônica. Esses novos dados de Gonçalo, fecham o cerco ao assunto e provam que o lançamento frustrou-se por causa da ditadura mesmo.

Seguem os trechos:
“No primeiro semestre de 1969, depois de algumas tentativas, o grupo “Realidade” foi finalmente contratado pelos irmãos Rossolillo, proprietários da Editora Gráfica Rossolillo Ltda., que funcionava na Rua Fidêncio Ramos, 302, na Vila Olímpia, então um lugar muito distante do centro da cidade e ainda longe da importante área empresarial que viria a se tornar. Na prática, a empresa da dupla de irmãos era muito mais uma prestadora de serviços gráficos que editora. Publicava, então, duas inexpressivas revistas – uma policial e outra de fotonovela – e os donos diziam querer concorrer seriamente no mercado editorial, como recordou Sérgio de Souza. Da parceria, inicialmente, nasceu a União Brasileira de Editoras Ltda. (UBE), com sede no mesmo endereço da Rossolillo e não oficializada na Junta Comercial de São Paulo.” “…Sérgio, Narciso e Barreto propuseram aos Rossolillo três revistas em quadrinhos para marcar o início da associação: “O Careca”, um anti-super-herói brasileiro, criado por Alain Voss; e a dupla “Cebolinha” e “Revista da Mônica”, de Maurício de Sousa. Ambos eram velhos conhecidos do trio. Maurício, dos tempos da “Folha de S.Paulo”; Voss, do departamento de arte de “Realidade”. Os primeiros oito mil exemplares do número de estreia de “O Careca” estavam impressos – de uma tiragem total prevista de 50 mil – e os fotolitos de “Cebolinha” e “Turma da Mônica” prontos, quando os donos da editora surpreenderam os dois artistas e sócios e anunciaram que haviam decidido desistir da empreitada. Alegaram que não tinham recursos para tocar a parceria. A história não ficou muito clara. A gráfica e editora tinha sim estrutura para ao menos imprimir as duas revistas, mas os donos teriam sido alertados por agentes do DOI-Codi de que poderiam ter sérios problemas com o Governo porque estavam se metendo com um bando de comunistas. Assim, resolveram cair fora do negócio” “As duas revistas em quadrinhos sairiam com a data de julho de 1969. “Parece que nossos dois sócios perderam uma grande oportunidade, não? Em especial, se estivessem pensando em ganhar dinheiro”, recordou Sérgio, ao se referir aos Rossolillo. Ele não teve mais notícias dos irmãos, mas acreditava “que tivessem ido às lágrimas anos depois, principalmente por causa de Maurício de Sousa”, que em maio do ano seguinte fechou contrato com a Abril e iniciou a mais bem sucedida carreira de um artista brasileiro de quadrinhos de todos os tempos.

hebe mauricio

Graças aos depoimentos de Sérgio de Souza para as obras citadas e ao inesgotável Gonçalo Junior, que eu considero um dos melhores pesquisadores culturais brasileiros (basta ler qualquer livro de sua lavra, incluindo seu último rebento, a surpreendente biografia do compositor Assis Valente), encerra-se essa investigação com (quase) todos os devidos pingos nos is. Ainda ficaram algumas lacunas, como a confirmação se eram duas revistas da turma da Mônica ou apenas uma, mas o novelo foi enfim desenrolado.

Monica1

11425075_824712397597282_1236680480483365324_nNesse ano em que se comemora os 80 anos de Mauricio de Sousa e percebe-se algumas mudanças pontuais na MSP – como a inclusão de crédito autoral nas histórias, ainda que só nas principais, e a numeração das revistas de volta ao número 1 depois de completarem 100 números (método usado em muitas séries da extinta EBAL) – aguarda-se com muita expectativa o álbum especial de luxo com vários artistas convidados em comemoração ao aniversário e a segunda parte da festejada Graphic “Laços”, dos irmãos Lu e Vitor Cafaggi.

Lançamentos louváveis, mas pessoalmente, eu ficaria encantado se de repente aparecesse nas livrarias uma biografia do tipo “Maurício de Sousa – 1959 a 1969 – a década anterior ao fenômeno”, de preferência de autoria de Gonçalo Jr.

Muitas lendas e histórias viriam à tona, como essa do misterioso lançamento de 1969 que nunca aconteceu.

colunista_MarcosMassolini
Marcos Massolini
Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

Um comentário em “A(s) misteriosa(s) revista(s) da turma da Mônica de 1969

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