05-08-2015

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As 50 melhores HQs do Homem-Aranha [05 – 01]

SpiderFamilyUfa! Chegamos ao momento final desta incrível jornada que é a vida turbulenta e emocionante do Homem-Aranha. Foram 10 postagens em sequência, 50 reviews e inúmeros comentários e observações inteligentes por parte dos leitores.

“Roberto, parece até o final de um dos episódios televisivos do Batman! Quando termina, a gente não sabe como vai aguentar até o desfecho no próximo capítulo”, exultou o colecionador Marcus Valério Lins-Barroso, em minha página no Facebook.

Aliás, essa interação toda é que deu sabor especial ao artigo, proporcionando novas interpretações para as HQs selecionadas e, no processo, uma ideia melhor do real impacto que as mesmas tiveram no fandom.

E agora, vamos em frente com – as tão esperadas – cinco finalistas. Ah! Nem é preciso lembrá-lo que os seus comentários, como de costume, são mais que bem-vindos… OK?

05BestSpider5ª – 24 HORAS PARA MORRER
[Amazing Spider-Man 192]
Tente imaginar a situação: você e a pessoa que mais te odeia no mundo presos a um bracelete-bomba programado para explodir em 24 horas. Essa foi a maneira diabólica que o moribundo Professor Spencer Smythe (criador dos Esmaga-Aranhas) encontrou para se vingar de seus maiores desafetos. Desesperados, eles saem pela cidade em busca de solução, mas nem a polícia, tampouco Curt Connors, consegue ajudar. O tempo passa e a tensão só faz aumentar quando são atacados pelo Mosca. Com o herói temporariamente inconsciente após a luta, Jameson tem a oportunidade de desmascará-lo, mas fica indeciso, afinal o Aranha tinha acabado de salvar sua vida. Há um corte de cena para outros personagens, deixando no ar se Jameson realmente desmascarou ou não o Aranha. Enquanto isso, Mary Jane acredita que Peter Parker lhe deu mais um cano e decide sair com outro cara. A ruiva desapareceria da vida do herói por um bom tempo, retornando apenas em ASM 238 (ver 11ª – Espectros do Passado). Restando poucos minutos para a explosão, Jameson entra em pânico e implora pra ser salvo, ao mesmo tempo em que amaldiçoa o Aranha. No último segundo o herói encontra uma solução e consegue libertá-los da terrível armadilha. Apesar dos apuros que passaram juntos, Jameson demonstra ingratidão. Após o bate-boca, o herói vai embora e Jameson cai no choro. “Você arriscou tudo pra nos salvar e eu não fiz outra coisa a não ser lamuriar”, e o desabafo continua: “Sua atitude fez com que eu me sentisse um covarde… e seus olhos viram que eu não sou nem metade do homem que você é”, revelando os reais sentimentos de seu coração. Um tremenda história… sem dúvida alguma… pode apostar! Autores: Marv Wolfman (roteiro) – Keith Pollard e Jim Mooney (arte).

 

04BestSpider4ª – COMO ERA VERDE O MEU DUENDE!
[Amazing Spider-Man 39 e 40]
Um épico em duas partes, com a estreia de John Romita em Amazing Spider-Man. Num dos momentos – até então – mais originais das histórias em quadrinhos, o vilão descobre a identidade secreta do herói para, em seguida, desmascarar a si mesmo. Norman Osborn era um inescrupuloso empresário que ao sofrer um acidente em seu laboratório, tem sua força física ampliada, e sua mente comprometida. As reais motivações do criminoso finalmente vêm à tona: ele não queria simplesmente ser o chefe do crime em Nova York, mas sim mostrar sua superioridade ao Aranha. Tudo, desde sempre, foi uma questão de egocentrismo. Segue-se uma batalha feroz e o Aranha sai vitorioso. Por causa de sua debilidade mental, Norman tem um surto de amnésia que o faz se esquecer dos acontecimentos mais recentes – como sua vida pregressa de Duende e a identidade secreta do Aranha. A ideia de que o empresário recuperasse a memória passou a atormentar Peter Parker dali em diante. Tá bom pra você ou quer mais? Entendi. Então vamos lá! Um dia Stan Lee e Steve Ditko se desentenderam em relação ao andamento da série e os dois pararam de se falar. Ditko passou a bolar sozinho as tramas, e a Stan caberia apenas colocar o texto. Mas é claro que o roteirista mexia como queria nas motivações e caracterizações dos personagens, o que desagrava Ditko. “Isso não vai ficar assim, você me paga”, teria o desenhista falado a Stan. De qualquer forma, Ditko foi trabalhar na Charlton Comics, e o boato que surgiu é que ele saiu por causa de uma disputa pela verdadeira identidade do Duende. Stan disse que Ditko queria que o Duende fosse alguém completamente desconhecido – como no caso do Mestre do Crime (ver 9ª – Tragam de Volta o Meu Duende!), o que seria um tremendo anticlímax para todo o suspense gerado nas HQs anteriores. Ditko demorou a se pronunciar, mas garantiu que a sua ideia sempre foi usar um personagem recorrente na série, de corte de cabelo estranho, que aparecia algumas vezes ao lado de Jameson num clube de executivos. “Eu até coloquei o filho do Duende na faculdade (com o mesmo cabelo diferenciado) pra aumentar a dramaticidade”, explicou Ditko ao boletim Robin Snyder: The Comics (2009). Realmente o tal homem de cabelo estranho já aparecia nas histórias desde ASM 23 (confira em Coleção Histórica Marvel: O Homem-Aranha 1, da Panini), e acabou batizado por Stan como “Norman Osborn” na edição 37, a penúltima desenhada por Ditko. Porém, no artigo “Divagando com Romita”, publicado no fanzine The Web Spinner (1966), o autor Bob Sheridan garante que Romita teria dito a ele que a intenção de Stan era que Ned Leeds fosse o Duende Verde – partindo do princípio que Ned era atuante na série, conhecido dos leitores e até rival de Peter pelo amor de Betty Brant. Contudo, o editor acabou optando por Norman (curiosamente, duas décadas depois, Ned seria um dos vários personagens a vestir o traje do Duende Macabro). Romita também teria falado a Sheridan que, apesar de Ditko ser praticamente um amador ao chegar na Marvel, Stan sempre o incentivou a evoluir, até que no final das contas Ditko começou a se achar um escritor melhor que Stan. De qualquer forma, com a entrada de Romita, o título logo se tornou o mais popular da Marvel e, em poucos anos, o best seller do mercado. Autores: Stan Lee (roteiro) – John Romita e Mike Esposito (arte).

 

03BestSpider3ª – A NOITE EM QUE GWEN STACY MORREU
[Amazing Spider-Man 121 e 122]
Eu sei que alguns vão querer me enforcar pelo fato dessa HQ não ser a primeira colocada, mas antes de qualquer coisa, eu tenho de ser coerente comigo mesmo. Ora, Gwen sempre foi a minha personagem feminina preferida, então eu não poderia considerar a história de sua morte a melhor de todas, certo? Bem, talvez até seja a melhor, levando-se em conta seu impacto editorial, e de quebrar o tabu de personagens importantes nunca morrerem nos quadrinhos – ainda mais sendo a namorada do herói (sem bem que Janice Cord, namorada de Tony Stark morreu três anos antes, sem muito alarde, em Iron Man 22). De qualquer maneira, talvez você mude de opinião – ou me compreenda – ao ler as resenhas das duas primeiras colocadas. Mas antes de finalizar com as minhas impressões pessoais deste clássico dos clássicos, acrescento um trecho da entrevista que fiz com o roteirista Gerry Conway para o meu livro Stan Lee – O Reinventor dos Super-Heróis, descrevendo seus bastidores: “John Romita era fã das tiras de jornal Terry e os Piratas e Steve Canyon, de Milton Caniff, e admirava o modo como o autor, periodicamente, agitava as coisas, ao matar os personagens principais. Então ele quis matar um personagem importante para reacender o interesse dos fãs pelo Homem-Aranha, e sugeriu que a Tia May morresse. Eu era contra, por uma série de razões, principalmente pelo fato de May ser a âncora moral de Peter. A personificação da sua responsabilidade. Matá-la, enfraqueceria a história. Sugeri, em vez disso, que matássemos Gwen Stacy”. O impressionante é que tudo foi feito sem o consentimento de Stan Lee, que na época havia assumido o cargo de publisher, e também sem nenhum alarde midiático – tática imprescindível para as vendas de gibis no século 21. Mesmo assim, a morte de Gwen se configurou no maior choque já provocado no fandom. Uma história triste, violenta e abrupta. Sem chance para despedidas comoventes, de um Peter Parker quase ensandecido, de olhar petrificado. Nem mesmo a morte do Duende Verde (o assassino de Gwen) na segunda parte fez o espectador ficar com a alma lavada. Entre o quase imperceptível “snap” – aquela pequena e maldita onomatopeia indicando que a loirinha quebrou o pescoço -, e a volta por cima de Mary Jane, que renega seu egoísmo instintivo para apoiar Peter em seu momento de dor; me fixo apenas na cena do Aranha abraçando o corpo sem vida de Gwen, e relembrando os momentos maravilhosos que dividiram: “Gwen… não se preocupe, querida… não vou deixar te machucarem. Vai dar tudo certo, você vai ver… tudo vai ser… exatamente como era antes”. Sempre que releio essa história, por alguns segundos tenho a esperança que Gwen vai abrir seus lindos olhos azuis… e sorrir novamente. Autores: Gerry Conway (roteiro) – Gil Kane, John Romita e Tony Mortellaro (arte).

 

02BestSpider2ª – SE ESTE FOR MEU DESTINO…
[Amazing Spider-Man 31 ao 33]
Diga lá, intrepid one… tem como uma história assim intitulada não ser no mínimo sensacional? Pra muita gente, essa é simplesmente a melhor HQ do Homem-Aranha de todos os tempos. Com certeza é a mais importante da parceria tempestuosa de Stan Lee e Steve Ditko, isso eu posso garantir! Eram os dias iniciais de Peter Parker na Universidade Empire State, da matrícula ao primeiro dia de aula. Tudo estranho, caras novas. Harry Osborn e a tal rainha da beleza do Colégio Standard, Gwen Stacy dão as boas-vindas. O eterno falastrão Flash Thompson estufa o peito, porém Peter passa indiferente. Pronto. Nascia o fã-clube dos Odiadores de Parker! Todo mundo achando que o rapaz era esnobe, só por ser bolsista, mas na realidade ele estava pra lá de preocupado com a saúde de Tia May. Tempos atrás ele havia doado seu sangue para a velhinha, e agora a radiação que lhe deu poderes estava matando a coitada. Seu chapa Curt Connors (o lado humano do escamoso Lagarto) garantiu-lhe que somente o soro ISO-136 poderia salvar May, mas a gangue do Planejador Mestre interceptou a encomenda, pois o misterioso vilão necessitava do produto para fins escusos. O Aranha invade o covil submerso do Planejador só para descobrir que o canalha é ninguém menos que seu velho inimigo Doutor Octopus. A fúria do herói é tamanha que o vilão decide fugir. Mas infelizmente o Cabeça-de-Teia acaba soterrado sob um gigantesco maquinário. O impacto causa rachaduras na instalação, e a água começa a entrar no ambiente. Os pingos que caem sobre o invólucro do soro – a poucos metros do herói, mas totalmente fora de alcance – funcionam como os tique-taques de um relógio de tortura psicológica. “Qualquer um pode vencer uma luta, quando as chances são favoráveis, mas quando o páreo é duro, quando não há mais esperança, aí sim é que vale”, diz a si mesmo o valente Homem-Aranha. Nas cinco páginas e 19 quadros que se seguem, é registrado o maior exemplo de superação e força de vontade na história dos quadrinhos super-heroicos. O Aranha ergue incalculáveis toneladas de aço, pega o soro e deixa-se carregar pela onda gigante que invade o lugar. Quando pensa que tudo está terminado, dezenas de capangas mascarados surgem para matá-lo. O que se vê a seguir é impressionante. Ferido, abalado, quase desmaiando, o herói se recusa a tombar. A imagem de sua tia agonizando permanece em sua mente. Ele luta, ele revida… e mesmo quando todos caem desacordados, o Aranha continua socando o ar… continua exorcizando sua fúria… até se dar conta que venceu. Logo depois Tia May recebe o soro: sua vida foi salva. A cena final é de uma poesia visual e literária comovente, comprovando que Stan e Ditko formavam uma dupla espantosa, apesar dos pesares. Uma sequencia de quatro quadros, do ponto de vista da janela do quarto de Tia May, mostra a figura detonada de Peter se afastando, enquanto o médico de plantão pondera: “Esse Peter Parker com certeza é um bom rapaz. Sincero, educado, devotado a sua tia. É uma pena que não haja muitos jovens como ele. Pena mesmo que alguém como ele não seja um ídolo para os jovens imitar… ao invés de um misterioso e desconhecido caçador de aventuras… como o Homem-Aranha”. Nota especial: Décadas depois, o editor Tom DeFalco arranjou um encontro entre Stan e Ditko com a intenção de que voltassem a produzir alguma coisa juntos. Infelizmente, devido aos rigores filosóficos que o desenhista impôs a si mesmo, a reunião resultou apenas em um abraço de despedida. Exceto por um detalhe captado por DeFalco: os olhos de Ditko marejados, enquanto saía da sala. Autores: Stan Lee (texto) – Steve Ditko (planejamento e arte).

01BestSpider1ª – A TRILOGIA DAS DROGAS
[Amazing Spider-Man 96 ao 98]
Não é o título oficial dessa obra-prima, mas é como ficou conhecida entre leitores e crítica especializada. Ainda me lembro da empolgação que senti ao lê-la pela primeira vez em Homem-Aranha 45, da EBAL, décadas atrás. Provavelmente Stan Lee foi mordido por algum Shakespeare radioativo ao escrever essa brilhante história com tantos elementos ainda tão atuais. Tudo começou em 1971, quando uma agência do governo americano solicitou o apoio da Marvel para uma campanha antidrogas, com a argumentação de que a editora exercia grande influência sobre os jovens. Stan imprimiu uma narrativa ágil, com poucos textos recordatórios, e mais ênfase nos diálogos – num estilo bem próximo daquele que seria adotado pelos roteiristas somente em meados dos anos 1980. A HQ mostra Harry Osborn se afundando no LSD, na tentativa frustrada de esquecer o fora que levou de Mary Jane (aqui retratada magistralmente pelo escritor como uma garota frívola). Assim que os agentes governamentais viram os primeiros esboços, desistiram do projeto, sob a alegação de que o tema era forte demais para ser abordado numa “revista voltada para crianças e adolescentes”. Stan riu da falta de tato deles e encampou o projeto até o fim, desafiando, inclusive, o Comics Code (o código de censura dos quadrinhos). Devido à sensibilidade com que o tema foi tratado, não é à toa que a trama rendeu muitos prêmios e aclamação pública. Mas estava longe de ser “apenas” isso. Se na série do Surfista Prateado Stan vocalizou sua filosofia moral, aqui ele liberou um pouco de sua ideologia político-social. “O quanto cê dá duro pelas pessoas? O que já fez para combater as drogas?”, desafiou Randy Roberton. “Eu sou só um homem. Não é só responsabilidade minha”, defendeu-se Norman Osborn. “Cê é rico e tem influência. Por isso é responsável”, Randy provocou. Em meio a esse tiroteio verbal, Peter Parker, sempre ele, tenta salvar o dia. Arrebenta com os traficantes que venderam as drogas ao seu amigo, e enfrenta o Duende Verde num combate dramático sobre os arranha-céus da Big Apple. Mas o melhor ainda estava para acontecer. Gwen volta da Inglaterra, arrependida de ter largado tudo após a morte do pai (ver 27ª – A Volta do Gatuno) e acaba reencontrando Peter na rua. Será que o jovem ia querer a loira de volta? O que você acha? “Essa não! Será que eu pirei de vez? Parece que… estou ouvindo… a voz dela me chamar”. Ao chegar ao último quadro, com os dois se beijando e a frase “Quem disse que o Homem-Aranha nunca teve um final feliz?”, tive a certeza absoluta que aquela era a história perfeita, com o final mais adequado possível. Quero dizer que se a série do Aranha acabasse justamente daquela maneira, eu não reclamaria. E por isso sou obrigado a admitir: eu não passo mesmo de um romântico inveterado. Autores: Stan Lee (roteiro) – Gil Kane, John Romita e Frank Giacoia (arte).

 

Nota: As cinco HQs citadas nesta postagem são comentadas com maior profundidade e trabalho de pesquisa – e entremeadas por depoimentos dos próprios autores – em meu novo livro A ERA MODERNA DOS SUPER-HERÓIS, a ser lançado em breve pela HQM Editora.


Roberto Guedes
Guedes Manifesto

Um comentário em “As 50 melhores HQs do Homem-Aranha [05 – 01]

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