21-04-2015

Por

Aokigahara: Morte e Vida

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A nossa maior dor, dizem…
… é não poder dividir nossa própria angústia.

Essa frase está num momento crucial da HQ Aokigahara, que trata de um tema muito difícil e sensível de se abordar em qualquer mídia; o suicídio.

2São muitos os motivos que leva alguém a acabar com a própria vida, muito em relação a depressão, a doença do novo século como dizem alguns médicos. Dar cabo a própria existência demanda muita coragem (para se matar) ou muita covardia (de seguir em frente)? Uma resposta que talvez, nunca tenhamos. É uma assunto muito delicado de ser tratar.

Talvez, tenha sido isso que me chamou a atenção em Aokigahara, escrita por André Turtelli Poles e ilustrada por Renato Quirino, que realizaram uma campanha de financiamento coletivo bem sucedida, alcançando mais de 300% do valor inicial. Um feito e tanto para uma dupla que está lançando seu primeiro quadrinho. E a espera, valeu a pena!

Aokigahara é uma floresta no Japão de mata muito densa, tanto que praticamente não há vida animal. Fica na base do Monte Fuji e, é reconhecida como Mar de Árvores e também por ser estranhamente silenciosa. Porém, nada se compara ao real motivo da fama da floresta. Aokigahara é o lugar mais comum no Japão onde as pessoas cometem suicídio. Em média, por ano são encontrados 100 corpos na floresta, alguns em estágio avançado de putrefação ou até mesmo somente seus esqueletos são encontrados. A floresta fica atrás apenas da Ponte Golden Gate, em São Francisco, no número de suicídios.

3Os autores da história foram muito felizes em decidir em focar apenas em dois personagens, um rapaz que se sente sozinho no meio da multidão, sendo apenas mais um. E uma garota com longos cabelos que se acha fora do padrão, sozinha e abandonada. Suas vidas são muito bem retratadas no silêncio e pequenos detalhes dos quadros desenhados por Renato. Seja a sequência de fotos, ou o detalhe num boné, no calendário passando os dias ou a pilha de papéis acumulando. Uma demonstração de como toda a história foi muito bem pensada e planejada com cuidado do começo ao fim.

Poderia criticar como aspecto negativo que a história seja muito curta e com poucos diálogos, mas ao terminar de ler o quadrinho, a história permaneceu na minha cabeça durante um tempo. Voltei a le-la e a pensar. Concluí que todo o texto de André não está apenas nas palavras, mas muito bem explicito no silêncio da arte do Renato. E estão de parabéns em não entrar em nenhum aspecto sobrenatural da floresta, não colocando teorias de fantasmas ou de maldições que fazem da floresta um ser fantástico que faz com que pessoas se suicidem quando entram nela. A floresta não é um personagem ativo na história, não é o narrador, mas ela é a testemunha do suicídio das pessoas que vão até ela. A floresta Aokigahara testemunha o desespero, a desilusão, a falta de fé e de esperanças (ou a perda delas) e o último suspiro, fraco e inerte de alguém que escolhe tirar a própria vida.

Aokigahara de André Turtelli e Renato Querino é uma história em quadrinhos extremamente corajosa e, respeitosa ao abordar um tema tão difícil que é o suicídio (ou a depressão que leva ao suicídio), logo mais sendo o primeiro trabalho deles na arte sequencial, o que impressiona bastante como a história foi pensada, planejada e executada. Eles não cometem um erro muito comum em autores iniciantes que é tentar “reinventar a roda”, querer mudar o status quo do quadrinhos na sua primeira história. Eles criaram uma história simples de ser lida, curta, competente, mostrando que eles podem dar muito mais nos seus próximos projetos. Além de impressionar no trabalho gráfico da edição da revista.

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Digo, sem medo de errar, que Aokigahara é um dos melhores quadrinhos brasileiros lançados nesse ano de 2015. E, que os autores merecem nossa total atenção. Ficarei de olhos neles e longe de florestas sinistras.

Se você curtiu a premissa da HQ, saiba que dia 25 de Abril terá lançamento e sessão de autógrafos com os autores na loja Monkix em São Paulo, para mais informações acesse a página do evento e confirme sua presença.


Alan Guedes
Um leitor que acredita que as histórias vão além dos seus quadrinhos.

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