Pai também é cultura

O pequeno Massolini

Inauguro esse espaço partindo do início. Sou da safra 1967 e ao contrário de muitos contemporâneos de geração, sempre fui incentivado em casa a ler quadrinhos. Se por um lado alguns amigos tinham que camuflar gibis dentro de cadernos ou guardá-los em esconderijos seguros, eu ganhava desde sempre revistinhas diversas dos meus pais. Minha mãe, professora primária, era mais ligada em livros, mas fazia questão de me levar à banca de jornal para que eu pudesse escolher um exemplar do Cebolinha ou outro qualquer da linha Disney.

Do alto dos meus cinco anos, acabei aprendendo a ler antes de entrar para a escola, graças aos abençoados gibis. Claro que a biblioteca do meu pai, recheada de enciclopédias e grandes clássicos de coleções famosas como o Clube do Livro ou a chamativa Coleção Saraiva, com capas assinadas pelo mestre Nico Rosso, ajudaram e muito nessa alfabetização precoce, mas os quadrinhos foram a mola mestra desse processo.

Colecao Saraiva 14

De lá pra cá, nunca mais parei de adquirir HQs, embora em alguns períodos da vida, foi preciso puxar o breque de mão para direcionar os gastos em prioridades inevitáveis. Se minha mãe era mais desprendida e preferia emprestar ou doar sua literatura, seu João Massolini sempre se mostrou um guardador contumaz de coisas e objetos, principalmente aqueles confeccionados com papel: livros, fascículos, folhetos, jornais, almanaques, revistas, álbuns de figurinhas, etc. Através do meu pai – que gosta mesmo é de música clássica – tive o privilégio de conhecer ainda na infância, Paulo Vanzolini, Noel Rosa, Tom Jobim, Cartola e tantos outros da velha guarda, todos ali, nos sulcos da sua coleção “História da Música Popular Brasileira” da Editora Abril, cada disco em um fascículo recheado de histórias e fotos.

Pato Donald 1953
Pato Donald 1953

E não é que meu bom progenitor guarda até hoje centenas de exemplares de “O Pato Donald” dos anos 50, os mesmos que lia quando jovem? Segundo ele, o que sobrou foi até pouco: além do famoso pato da Disney, que é publicado ininterruptamente pela Editora Abril desde julho de 1950, seu João ainda possui uma coleção razoável de “Edição Maravilhosa” da EBAL, com os grandes romances da literatura em quadrinhos e pelo menos duas dezenas de “Fantasma” da Rio Gráfica Editora.

Muitas outras, como Gibi Mensal, Biriba, Mirim, Globo Juvenil, todas da década de quarenta e/ou cinquenta, ele perdeu quando teve que deixar temporariamente suas revistas na casa dos pais ao casar e ter de se mudar, e a sua irmã mais nova, num rompante imperdoável, deu toda a sua coleção de quadrinhos para o garrafeiro que batera por acaso no portão. É por essas e outras que o ato de colecionar pode carregar marcas dignas de uma tragédia grega. Imbuído desse ímpeto ancestral, meu pai sempre trazia revista pra mim em sua volta do trabalho. Junto ao infalível jornal diário, que podia ser Folha da Tarde ou Diário Popular – e que eu adorava fuçar atrás da seção de tiras – vinha Mad, Recreio, Mickey, Almanaque Disney, Gibi (relançado em formato gigante em 1975), Mister Magoo, Heróis da TV (a 1ª série, com personagens da Hanna-Barbera), edições sortidas da colorida Bloch e da eclética EBAL, entre outras.

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Hoje, quarenta e três anos depois do primeiro gibi lido, mantenho uma digna coleção de HQs, com alguns milhares de exemplares (os números são imprecisos por total falta de tempo em recontá-la) que vão do terror à aventura, do infantil ao policial,entre outros gêneros. Meus filhos Gabriel, 15 anos, e Letícia, 13 anos, vivem mergulhando nela, com o mesmo brilho nos olhos que eu tinha em minha juventude. Espero ser tão importante em suas formações “quadrinhísticas” como meu pai foi pra mim.

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Marcos Massolini
Colecionador pra valer desde 1978. Acompanha com gosto a movimentação atual mas seu hobby ainda é caçar raridades em prateleiras empoeiradas de sebos.

2 comentários em “Pai também é cultura

  1. Como se fosse um encantador personagem de uma história em quadrinhos… faz colecionar sonhos, de uma beleza lúdica e sempre atraente! Foi bom conhecê-lo e ler um pouco das páginas de sua vida. Abraços!! Torço constantemente por suas vitórias e felicidades…

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