13-10-2015

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Ah, a bendita lista!

Cenário: Escritório abarrotado de estantes até o teto e cheias de revistas em quadrinhos e encadernados.

1

2Mulher: Amor, você sabia que o combinado era que sua coleção ia até encher o espaço aqui do escritório que eu reservei só para isto.
Marido: Claro amor, e o combinado é o que eu vou fazer!
Mulher: Mas já está cheio! Não cabe quase mais nada.
Marido: Naaaão, ainda falta muito espaço. E estou quase terminando a minha lista…
Mulher: ah, a bendita lista! Acho que ela cresce todo dia, a cada pacotinho que chega.
Marido: De jeito nenhum, estou seguindo a lista exatamente como há fiz algum tempo atrás. Todo mundo que se torna um colecionador de verdade, já no início encara o drama: o que adquirir pra minha coleção? A lista existe pra isto, para limitar as compras.
3Mulher: Então saiu copiando as sugestões de todo mundo?
Marido: Claro que não! Sempre desconfiei destas listas de “melhores”. Sempre achei que elas são sempre contaminadas pelo desejo de ser “diferente” e não citar as óbvias e se mostrar descolado citando aquele mangá desconhecido. Ou então é sempre mais do mesmo. Uma lista não pode ter só 50 ou 100 títulos. Que tipo de colecionador fajuto você acha que eu sou? Lista que se preze tem que ser com 500 títulos para cima.
Mulher: Ai, meu Deus! Estou perdida!
Marido: (se fazendo de surdo) Outra coisa é a abrangência. Você tem que decidir o que quer colecionar. Se a sua coleção é de quadrinhos, não dá para ser só de um estilo. Tem gente que só lê quadrinhos de super-heróis, como o seu irmão. Desculpem, mas então ele gosta de super-heróis e não de quadrinhos. Vale o mesmo para o roqueiro que só ouve heavy metal ou o cinéfilo que só assiste filma europeu. A vida precisa de diversidade.
4Quando queremos colecionar algo: música, filmes ou quadrinhos, queremos o que de melhor foi produzido desta mídia, em cada época, em cada lugar e em todos os estilos.
Mulher: Lá vai você ficar perdido de novo e cair no conto de correr atrás daquele trabalho coreano ou finlandês indicado na lista dos 1001 Comics para ler antes de bater as botas.
Marido: Mas a saída é justamente pesquisar e cruzar as listas, ver o que se repete, o que é original e parece interessante, se decepcionar algumas vezes, mas confirmar maravilhas não suspeitadas em um trabalho pouco conhecido.
Mulher: Tá, sei! E por que colecionar quadrinhos e não livros?
Marido: Olha o preconceito! Um das coisas mais fantásticas dos quadrinhos é justamente a junção de texto, que às vezes atinge as mesmas alturas da melhor literatura, com desenhos, que tem o movimento das melhores cenas já filmadas ou a qualidade artística de peças em exposição por aí. Ou às vezes é simplesmente divertido pra caramba. Ou toca aquela corda aparentemente perdida da infância ou faz pensar e questionar nossa posição no mundo. Não é isto que a arte devia fazer?

5Mulher: E estes bonequinhos de super-heróis que você compra toda hora? Não acha que a sua corda da infância tá tocando demais não?
Marido: Querida, os bonequinhos são só para a parte da coleção sobre super-heróis, como uma “ilustração”, e a coleção não é só isto.
Mulher: Mas parece que é! Acho que você nunca saiu da infância.
Marido: Ai Deus, as mulheres não entendem! Esta parte da coleção é só para lembrar um tempo bom da infância. Meu interesse em quadrinhos começou com os “supers” e aqui está o melhor relativo a eles. Mas a minha coleção não é só isto. A maior parte inclusive é de outros tipos. Tem de tudo! Francesas, inglesas, espanholas, belgas. Tem algumas infantis, mas várias adultas, clássicas. Quadrinhos não perde nada para a melhor literatura. Aqui tem até quadrinhos eróticos, sabia? Aliás, você sabe muito bem!
Mulher: Pula esta parte! Ok, mas todo dia chega uma pacotinho novo.
Marido: Estou perseguindo minha coleção. Mesma coisa que aconteceu com os filmes e discos. Tiveram fim.
Mulher: Mas você não acha que esta está crescendo rápido demais? Todo santo dia chega um pacote!
Marido: Que isto benzinho, tô comprando sempre a mesma quantidade!
Mulher: É mas com o preço do dólar… o valor tá muito maior.
Marido: É pra acabar mais rápido!
Mulher: Você é um compulsivo!
6Marido: Compulsivo não! Sou um colecionador. Compulsivo sai comprando qualquer coisa que tem por aí. E tem até maluco que coleciona e nem lê o que compra. Ou acha que tem que comprar tudo de determinado personagem ou autor e acaba comprando muito lixo.
Mulher: Mas você também não leu tudo que tem aqui.
Marido: Ainda não, mas estou lendo sempre e ainda vou ler tudo. E mais de uma vez.
Mulher: Então porque não ir comprando a medida que for lendo.
Marido: Porque a lista…
Mulher: Sempre a lista!
Marido: Como ia dizendo, a lista é meu cânone quadrinístico, ou seja, é basicamente de coisas já lançadas há muito tempo e que podem acabar saindo de circulação e ficar bem mais caras.
Mulher: Ok, entendi. Mas você poderia diminuir o ritmo!
Marido: Nem comprei tanto assim este mês! E agora só no próximo.

Som da campainha do interfone. Tensão no ar…
Mulher atende a chamada.
Mulher: Pois não?
Voz do Porteiro: Chegou mais um pacote para o seu marido.
Mulher: Aaaaaaaaahhhhhh!

Pano rápido!

7

colunista_RobertoFreitas
Roberto Freitas Soares
Viciado em HQ desde a infância, ainda fugindo do Rehab.

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