24-05-2015

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A Saga do Cubo Cósmico

colunista_RobertoFreitasTodo mundo que entrou no mundo dos quadrinhos pela porta dos super-heróis (ainda mais se este início se deu na infância) tem seu herói favorito, aquele que a gente queria ter a fantasia e ficava horas imitando nas brincadeiras com os amigos (ou mesmo sozinho).

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Capitão Marvel / Thanos – The Thanos War (Fev/1973 a Jul/1974)
Iron Man #55, Captain Marvel #26-33, Marvel Masterworks: Captain Marvel – Volume 3 e Heróis da TV #11-15

Na minha infância o Homem Aranha cumpriu este papel e ficou como a lembrança mais doce. Um adolescente nerd, que ganhava poderes e enfrentava inimigos adultos!! Irresistível para os tímidos “cdfs” (nerd é palavra moderninha para tirar o peso do rótulo).

Mas lendo a coluna aqui do lado do Sandro Almeida que mostrava sua primeira revista de quadrinhos – o #11 do Heróis da TV da Abril – me despertou para aquele que se tornou meu personagem favorito nesta mesma época. Ao contrario dele, já estava chegando ao final da minha primeira fase de colecionador que durou até quase o final dos anos 80 (a década de 90 afugentou muita gente).

Roberto2Na capa o Capitão Marvel e vários heróis a segui-lo (como era comum nas edições no Brasil na época, esta capa é a do Captain Marvel #31, mas a historia é a do #29). O que ela não mostra é contra quem eles se lançam ao combate: Thanos. E foi ele que me conquistou e se tornou um dos meus personagens favoritos desde então, assim como o autor da história, Jim Starlin.

Starlin trabalhou na Marinha durante a guerra do Vietnam como fotógrafo aéreo. Nas horas vagas desenhava e mandava seus trabalhos para as editoras. Suas influências declaradas sempre foram Kirby e Ditko (o que revela o bom gosto do rapaz… são os mestres da narrativa gráfica dos super). Ao sair procurou as editoras e acabou contratado pela Marvel em 72. Logo de cara já foi encarregado de fazer layouts de capa para o próprio Stan Lee e arte-finalizar histórias do Homem-Aranha. Não demorou para ser o desenhista encarregado do Homem de Ferro.

Ele vinha insistindo para ter uma oportunidade como roteirista e ela finalmente veio no #55 do Ferroso. Fã incondicional da saga Fourth World de Kirby e de seu Darkseid, introduz seu próprio vilão supremo: Thanos e sua contraparte/nêmeses Drax, o Destruidor. Nela Thanos ainda é retratado como um vilão tradicional, mais um ser megalomaníaco querendo dominar o universo. Até a forma de desenhá-lo é ligeiramente diferente do modelo depois consagrado pelo próprio Starlin.

Mas apenas quando assume o titulo semi-moribundo do Capitão Marvel, inicialmente apenas como desenhista no #25, em março de 73 e a partir do numero seguinte já participando do argumento, é que retorna com Thanos, agora com liberdade dada por seu editor Roy Thomas para dar vazão a suas ideias (vantagens de se trabalhar em títulos menores).

O impacto da entrada de Starlin no título é evidente. Introduzindo niilismo de Nietzsche, conceitos junguianos e bíblicos (Starlin era católico), quebrando as barreiras convencionais dos painéis nas páginas, Starlin se tornou muito maior do que um mero imitador de Kirby (crítica constante ao seu trabalho). E ao mesmo tempo criando algumas das melhores cenas de lutas feitas nos 70 (é disso que os garotos gostam não?).

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Outra crítica frequente é que o seu trabalho é muito psicodélico, datado. É preciso compreender o trabalho de Starlin no contexto de sua época. O início dos 70 é uma prolongação do lisérgico e psicodélico final dos 60. Como nos discos do Pink Floyd e do Grateful Dead, nos livros de Philip K. Dick e nos filmes de Jodorowsky, a exploração sensorial, os temas transcendentais e as experiências de expansão da mente estavam na ordem do dia. O que melhor representa uma era tem sempre relevância, no mínimo histórica. E se você gosta dos exemplos citados com certeza vai gostar de Starlin.

Até então os super-heróis eram defensores da Terra e o espaço era apenas fonte de alguns invasores/inimigos para serem espancados por eles. Os temas que ele queria tratar não cabiam neste espaço reduzido e precisavam da escala infinita do espaço como palco definitivo. Vem daí a alcunha de herói cósmico que o Capitão recebeu.

Roberto4Além disso, na Marvel da época, os arcos de histórias duravam duas ou três edições no máximo, mas Starlin tinha concebido um épico de 8 edições (9 se considerarmos a edição do Homem de Ferro).

Quando assume o enredo no #26 do Capitão Marvel, e apenas na antepenúltima página, ele retorna com Thanos, trazendo a seu lado um personagem misterioso e silencioso que é a chave para compreensão do impacto e da longevidade do personagem.

Como ficamos sabendo duas edições depois, esta criatura é o amor de Thanos e ela é nada menos do que a Morte. Thanos deseja o genocídio universal para conquistar sua amada, daí sua busca de poder. Um vilão que quer a destruição total por amor!!!

Na edição #27 ficamos sabendo que o instrumento que Thanos quer usar para atingir seu objetivo é o cubo cósmico e os Vingadores começam a entrar na história. Na edição #28, ele finalmente consegue o cubo e é nela que temos também a famosa página de 35 quadros sem nenhuma palavra, um marco dos quadrinhos mainstream.

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Roberto6No #29 chegamos a história daquela edição inicial da Heróis da TV com a transformação do Capitão Marvel em guerreiro zen dotado de consciência cósmica e livre do passado anterior do personagem (uma aula de como modificar um personagem para torná-lo melhor).

Na edição #30 uma das melhores sequências de luta da série entre Marvel e o Controlador. A edição #31 reúne os Vingadores para tentar em vão deter Thanos. Starlin sempre adorou as histórias épicas também como oportunidades para trabalhar com todos os heróis da Marvel, o que só iria ampliar nos seus futuros trabalhos com o titã.

No #32 Thanos assume a condição de divindade com o uso do cubo cósmico e tudo parece perdido até o Capitão o desafiar para um combate final. A origem de Drax é contada.

A conclusão no #33 tem uma espetacular luta entre os dois e de novo uma aula de narrativa gráfica nas duas penúltimas paginas.

Starlin ainda escreveria sua última história do Capitão Marvel contra Nitro(e uma de suas melhores) e só voltaria para narrar a morte de Marvel (como uma sequência desta mesma história e, de novo, uma aula de como encerrar um personagem com dignidade).

Quanto a Thanos, ele retornaria ainda melhor trabalhado na saga de Warlock, mas isto é assunto para outra hora.

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The Invincible Iron Man #55
Fevereiro de 1973
“Beware – – Beware – Beware the…Blood Brothers!”
Enredo, Desenho e Criação dos personagens de Jim Starlin
Diálogos de Mike Friederich
Arte-final Mike Esposito

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Captain Marvel # 26
Maio de 1973
“Betrayal!”
Enredo, Desenho e Cor de Jim Starlin
Diálogos de Mike Friederich
Arte-final David Cockrum

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Captain Marvel # 27
Julho de 1973
“Trapped on Titan”
Enredo, Desenho e Cor de Jim Starlin
Diálogos de Mike Friederich
Arte-final Pablo Marcos

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Captain Marvel # 28
Setembro de 1973
“When Titans Collide”
Enredo, Desenho, Cor e Diálogos (Cap. III) de Jim Starlin
Diálogos (Cap. I & III) de Mike Friederich
Arte-final Dan Green

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Captain Marvel # 29
Novembro de 1973
“Metamorphosis!”
Enredo, Desenho e Cor de Jim Starlin
Arte-final Al Milgrom

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Captain Marvel # 30
Janeiro 1974
“…To Be Free From Control!”
Enredo, Desenho e Cor de Jim Starlin
Arte-final Al Milgrom

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Captain Marvel # 31
Marco de 1974
“The Beginning of the End”
Enredo e Desenho de Jim Starlin
Arte-final dan Green e Al Milgrom

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Captain Marvel # 32
Maio de 1974
“Thanos the Insane God”
Enredo, Desenho e Cor  de Jim Starlin
Assistente de roteiro Mike Friederich
Arte-final Dan Green

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Captain Marvel # 33
Julho de 1974
“The God Himself!”
Enredo, Desenho e Cor de Jim Starlin
Diálogos Steve Englehart
Arte-final Klaus Janson

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Roberto Freitas Soares
Viciado em HQ desde a infância, ainda fugindo do Rehab.

3 comentários em “A Saga do Cubo Cósmico

  1. Obrigado, pensei que apenas eu estivesse percebendo aqui no Brasil que em todo este ciclo da Marvel no cinema o grande injustiçado omitido é o Jim Starlin! Bloguei sobre ele, a vitória um AUTORAL deixando sua marca e estilo pessoal em uma industria impessoal de gibis que subestimam o leitor e roubam os autores!

    1. Starlin é ainda pouco reconhecido, infelizmente. Ele e Steranko foram dois dos autores mais originais da Marvel, mas como sempre trabalharam com títulos marginais tiveram mais sucesso de crítica do que de público.

  2. Parabéns pelo artigo! Expõe muito bem os méritos do Starlin nesta obra, que, mesmo na minha infância, me impressionou bastante! Metamorfose é uma estória fascinante e inesquecível para qualquer fã dos quadrinhos, e imagino a sorte de tê-la como primeira história em quadrinhos na vida…

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