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colunista_RobertoFreitasTodo mundo que entrou no mundo dos quadrinhos pela porta dos super-heróis (ainda mais se este início se deu na infância) tem seu herói favorito, aquele que a gente queria ter a fantasia e ficava horas imitando nas brincadeiras com os amigos (ou mesmo sozinho).

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Capitão Marvel / Thanos – The Thanos War (Fev/1973 a Jul/1974)
Iron Man #55, Captain Marvel #26-33, Marvel Masterworks: Captain Marvel – Volume 3 e Heróis da TV #11-15

Na minha infância o Homem Aranha cumpriu este papel e ficou como a lembrança mais doce. Um adolescente nerd, que ganhava poderes e enfrentava inimigos adultos!! Irresistível para os tímidos “cdfs” (nerd é palavra moderninha para tirar o peso do rótulo).

Mas lendo a coluna aqui do lado do Sandro Almeida que mostrava sua primeira revista de quadrinhos – o #11 do Heróis da TV da Abril – me despertou para aquele que se tornou meu personagem favorito nesta mesma época. Ao contrario dele, já estava chegando ao final da minha primeira fase de colecionador que durou até quase o final dos anos 80 (a década de 90 afugentou muita gente).

Roberto2Na capa o Capitão Marvel e vários heróis a segui-lo (como era comum nas edições no Brasil na época, esta capa é a do Captain Marvel #31, mas a historia é a do #29). O que ela não mostra é contra quem eles se lançam ao combate: Thanos. E foi ele que me conquistou e se tornou um dos meus personagens favoritos desde então, assim como o autor da história, Jim Starlin.

Starlin trabalhou na Marinha durante a guerra do Vietnam como fotógrafo aéreo. Nas horas vagas desenhava e mandava seus trabalhos para as editoras. Suas influências declaradas sempre foram Kirby e Ditko (o que revela o bom gosto do rapaz… são os mestres da narrativa gráfica dos super). Ao sair procurou as editoras e acabou contratado pela Marvel em 72. Logo de cara já foi encarregado de fazer layouts de capa para o próprio Stan Lee e arte-finalizar histórias do Homem-Aranha. Não demorou para ser o desenhista encarregado do Homem de Ferro.

Ele vinha insistindo para ter uma oportunidade como roteirista e ela finalmente veio no #55 do Ferroso. Fã incondicional da saga Fourth World de Kirby e de seu Darkseid, introduz seu próprio vilão supremo: Thanos e sua contraparte/nêmeses Drax, o Destruidor. Nela Thanos ainda é retratado como um vilão tradicional, mais um ser megalomaníaco querendo dominar o universo. Até a forma de desenhá-lo é ligeiramente diferente do modelo depois consagrado pelo próprio Starlin.

Mas apenas quando assume o titulo semi-moribundo do Capitão Marvel, inicialmente apenas como desenhista no #25, em março de 73 e a partir do numero seguinte já participando do argumento, é que retorna com Thanos, agora com liberdade dada por seu editor Roy Thomas para dar vazão a suas ideias (vantagens de se trabalhar em títulos menores).

O impacto da entrada de Starlin no título é evidente. Introduzindo niilismo de Nietzsche, conceitos junguianos e bíblicos (Starlin era católico), quebrando as barreiras convencionais dos painéis nas páginas, Starlin se tornou muito maior do que um mero imitador de Kirby (crítica constante ao seu trabalho). E ao mesmo tempo criando algumas das melhores cenas de lutas feitas nos 70 (é disso que os garotos gostam não?).

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Outra crítica frequente é que o seu trabalho é muito psicodélico, datado. É preciso compreender o trabalho de Starlin no contexto de sua época. O início dos 70 é uma prolongação do lisérgico e psicodélico final dos 60. Como nos discos do Pink Floyd e do Grateful Dead, nos livros de Philip K. Dick e nos filmes de Jodorowsky, a exploração sensorial, os temas transcendentais e as experiências de expansão da mente estavam na ordem do dia. O que melhor representa uma era tem sempre relevância, no mínimo histórica. E se você gosta dos exemplos citados com certeza vai gostar de Starlin.

Até então os super-heróis eram defensores da Terra e o espaço era apenas fonte de alguns invasores/inimigos para serem espancados por eles. Os temas que ele queria tratar não cabiam neste espaço reduzido e precisavam da escala infinita do espaço como palco definitivo. Vem daí a alcunha de herói cósmico que o Capitão recebeu.

Roberto4Além disso, na Marvel da época, os arcos de histórias duravam duas ou três edições no máximo, mas Starlin tinha concebido um épico de 8 edições (9 se considerarmos a edição do Homem de Ferro).

Quando assume o enredo no #26 do Capitão Marvel, e apenas na antepenúltima página, ele retorna com Thanos, trazendo a seu lado um personagem misterioso e silencioso que é a chave para compreensão do impacto e da longevidade do personagem.

Como ficamos sabendo duas edições depois, esta criatura é o amor de Thanos e ela é nada menos do que a Morte. Thanos deseja o genocídio universal para conquistar sua amada, daí sua busca de poder. Um vilão que quer a destruição total por amor!!!

Na edição #27 ficamos sabendo que o instrumento que Thanos quer usar para atingir seu objetivo é o cubo cósmico e os Vingadores começam a entrar na história. Na edição #28, ele finalmente consegue o cubo e é nela que temos também a famosa página de 35 quadros sem nenhuma palavra, um marco dos quadrinhos mainstream.

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Roberto6No #29 chegamos a história daquela edição inicial da Heróis da TV com a transformação do Capitão Marvel em guerreiro zen dotado de consciência cósmica e livre do passado anterior do personagem (uma aula de como modificar um personagem para torná-lo melhor).

Na edição #30 uma das melhores sequências de luta da série entre Marvel e o Controlador. A edição #31 reúne os Vingadores para tentar em vão deter Thanos. Starlin sempre adorou as histórias épicas também como oportunidades para trabalhar com todos os heróis da Marvel, o que só iria ampliar nos seus futuros trabalhos com o titã.

No #32 Thanos assume a condição de divindade com o uso do cubo cósmico e tudo parece perdido até o Capitão o desafiar para um combate final. A origem de Drax é contada.

A conclusão no #33 tem uma espetacular luta entre os dois e de novo uma aula de narrativa gráfica nas duas penúltimas paginas.

Starlin ainda escreveria sua última história do Capitão Marvel contra Nitro(e uma de suas melhores) e só voltaria para narrar a morte de Marvel (como uma sequência desta mesma história e, de novo, uma aula de como encerrar um personagem com dignidade).

Quanto a Thanos, ele retornaria ainda melhor trabalhado na saga de Warlock, mas isto é assunto para outra hora.

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The Invincible Iron Man #55
Fevereiro de 1973
“Beware – – Beware – Beware the…Blood Brothers!”
Enredo, Desenho e Criação dos personagens de Jim Starlin
Diálogos de Mike Friederich
Arte-final Mike Esposito

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Captain Marvel # 26
Maio de 1973
“Betrayal!”
Enredo, Desenho e Cor de Jim Starlin
Diálogos de Mike Friederich
Arte-final David Cockrum

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Captain Marvel # 27
Julho de 1973
“Trapped on Titan”
Enredo, Desenho e Cor de Jim Starlin
Diálogos de Mike Friederich
Arte-final Pablo Marcos

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Captain Marvel # 28
Setembro de 1973
“When Titans Collide”
Enredo, Desenho, Cor e Diálogos (Cap. III) de Jim Starlin
Diálogos (Cap. I & III) de Mike Friederich
Arte-final Dan Green

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Captain Marvel # 29
Novembro de 1973
“Metamorphosis!”
Enredo, Desenho e Cor de Jim Starlin
Arte-final Al Milgrom

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Captain Marvel # 30
Janeiro 1974
“…To Be Free From Control!”
Enredo, Desenho e Cor de Jim Starlin
Arte-final Al Milgrom

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Captain Marvel # 31
Marco de 1974
“The Beginning of the End”
Enredo e Desenho de Jim Starlin
Arte-final dan Green e Al Milgrom

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Captain Marvel # 32
Maio de 1974
“Thanos the Insane God”
Enredo, Desenho e Cor  de Jim Starlin
Assistente de roteiro Mike Friederich
Arte-final Dan Green

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Captain Marvel # 33
Julho de 1974
“The God Himself!”
Enredo, Desenho e Cor de Jim Starlin
Diálogos Steve Englehart
Arte-final Klaus Janson

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Roberto Freitas Soares
Viciado em HQ desde a infância, ainda fugindo do Rehab.

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